Oposição ao quê?

“A revolução, tal como o arco-íris, é multicolorida e diversa!”

De um cartaz das manifestações #forabolsonaro!

​Há muitos tipos de oposição.
​Há oposição conservadora que não aceita o genocídio no Brasil praticado por um conservadorismo retrógrado, anticientífico, fundamentalista religioso, antiglobalista, antiecológico, racista, xenófobo, misógino, e sobretudo burro.
​Os conservadores deste naipe lastimam ter entronizado no poder um energúmeno como o presidente Boçalnaro, o ignaro.

É que com a sua obtusidade primária e confusão ideológica entre nacionalismo estatizante e liberalismo de mercado ele está trocando sua equipe de Ministros como quem troca de camisa (e de simbologias), num sinal claro de resultados negativos no plano administrativo e de negação do discurso de campanha propondo nova política, combate ao crime organizado e à corrupção, privatizações de estatais, reformas administrativas (tributária à frente), equilíbrio das contas públicas, de eliminação do custo Brasil, de mais Brasil e menos Brasília, etc.

A verdade é que o seu (des)governo é idiossincrático por excelência, e isto incomoda os conservadores mais moderados (mas também equivocados) que gostariam de ter à frente da presidência da República um dos seus e não um reacionário trapalhão (o jornal mais representativo de tal fauna, O Estado de São Paulo, queixou-se exatamente disto num editorial da semana passada) mais lúcido e menos atrapalhado.

O capitão cloroquina está mais para Roberto Jefferson do que para Roberto Campos.

Há oposição empresarial que se sente prejudicada pela má performance governamental administrativa que termina por prejudicar os interesses do capital. Incompetência administrativa em meio a uma depressão econômica mundial e sanitária é fator negativamente explosivo para a burguesia consciente do seu papel explorador em meio à turbulência sistêmica que a ameaça.

Há oposição de segmentos da imprensa (como a rede Globo) que se vê excluída do butim governamental transferido para emissoras que se alinham ao governo no campo religioso oportunista e conservador explorando o entretenimento medíocre, e disseminando um discurso superficial e populista demagógico diante de um público empobrecido e em grande parte semialfabetizado, ou nem isto.

Há oposição de uma ala militar mais bem informada que conhece a história e faz análises econômicas (um novo generalato, pós 64), além de ter consciência do seu papel da defesa constitucional sistêmica burguesa a que serve, e renuncia aos encantos fáceis de um empreguismo governamental de pouca consistência e vida efêmera que deslustram o que tanto se esforçaram para que os fardados recuperassem a credibilidade manchada pelos chamados anos de chumbo.

Tal credibilidade é mais forte principalmente perante a população conservadora que desconhece a história ou que sofre de amnésia crônica, e não compreende que de 1930 a 1985 fomos tutelados, perturbados ou dirigidos diretamente por governos fortes militarmente (com apenas breves períodos de democracia burguesa mais independente de 1954 a 1960, assim mesmo com fracassadas tentativas de golpes), cujos resultados negativos históricos são facilmente perceptíveis quando se estuda os acontecimentos da mais recente história brasileira.

Neste aspecto, das intervenções militares, temos muitas similaridades com as chamadas repúblicas bananeiras das Américas Central e do Sul, ou ainda com as frágeis repúblicas africanas e regimes totalitários asiáticos (principalmente no mundo arábico).

Mas há uma oposição dita de esquerda que não se opõe ao substancial, e que quer que se mude alguma coisa para que tudo continue na mesma, na linha da frase célebre do Tomasi di Lampedusa em O Leopardo (algo deve mudar para que tudo continue como está). São os sociais democratas burgueses que querem humanizar o capitalismo como se fosse possível regenerar o diabo.

Neste grupo se inserem os mais variados segmentos políticos entendidos como mais à esquerda ou mais moderados, que chamam aos outros de radicais, cujas diferenciações cosméticas apenas ratificam as suas identidades mais substantivas e profundas; são conservadores travestidos de mudancistas que se inserem no bloco denominado “progressista”.

Os dois últimos séculos de práticas capitalistas e desenvolvimento de toda a sua entourage institucional colaboracionista, dita civilizatória (apesar de alguns avanço neste campo, que não raro retrocedem barbaramente quando as circunstancias o exigem, como agora ocorre), demonstraram a incapacidade de solução do grande apartheid histórico da humanidade nos últimos milênios.

Mesmo nos países que fizeram a revolução marxista-leninista as categorias capitalistas estiveram sempre presentes, ainda que sob o falso discurso de luta pela transição para uma sociedade sem classes sociais distintas. Nestas, o que se viu foi uma recuperação econômica de seus retardamentos industriais e desenvolvimento de práticas capitalistas que desembocaram no mais selvagem capitalismo de mercado.

O que se observou ontem, dia do protesto contra o governo genocida que aí está, foi uma explicitação prática do que seja o tipo de oposição manca praticada pela esquerda institucional beneficiária das migalhas que a constituição burguesa lhe concede: o PT ficou contra as manifestação “#fora Bolsonaro!”.

As direções dos eleitoreiros partidos de esquerda se mostraram mais preocupadas com as eleições de 2022 do que com o necessário estancamento do processo de genocídio em curso no Brasil graças à desídia governamental.

O desgaste sofrido pelo atual governo é entendido pela esquerda institucional como a possibilidade de um perdão popular ao mensalão e ao petrolão, bem como ao servil alinhamento ao que há de mais podre na política brasileira.

Justificam a ausência ao ato contra Boçalnaro, o ignaro, apegando-se à desculpa de um pretenso paroxismo por criticarmos as aglomerações boçalnaristas e incorrermos no mesmo erro. A alegação é oportunista e incorreta!

A verdadeira esquerda de hoje não precisa de bandeiras e de um vermelho desbotado, mas da multiplicidade de cores que traduzem a diversidade comportamental do pensar revolucionário que está a exigir uma nova ordem de produção social e de organização horizontalizada da vida social; que está a propor um anti-poder contra o poder institucional vertical e segregacionista!

Ir às ruas contra a falta de vacinas e pedir o afastamento do Boçalnaro, o ignaro, além de sua punição por crime de lesa humanidade, seja por prevenção ou por exemplo histórico contra a impunidade de quem acha que deveríamos ter matado 30.000 ditos subversivos pelo golpe de 1964, e que considera o torturador Coronel Brilhante Ustra, assassino de presos indefesos, como herói a ser cultuado, é agir em legítima defesa da vida!
Ir às ruas mesmo sabendo que isto implicará em mais infecção e morte por propagação do vírus é lutar contra as muitas e mais volumosas mortes que adviriam (ou advirão) se não mantivermos uma estratégia de isolamento social responsável que ampare a população nos seus vários níveis de subsistência (e que se dane a contabilidade da economia genocida e dissociada do respeito à vida) e que force a compra de vacinas onde quer que elas possam ser adquiridas, é agir em legítima defesa da vida!

Ir às ruas demonstrando a força da mobilização popular é deixar claro para os que defendem a força das armas em contraposição à força da razão, é agir em legítima defesa da vida!

Ir às ruas e demonstrar que a manipulação da vontade popular por discursos conservadores veiculados massivamente por fake news não é capaz de promover uma lavagem cerebral entre a maioria que sabe distinguir o justo do injusto;
– o certo do errado;
– o escravismo da liberdade;
– o civilizado do retrógrado;
– o verdadeiramente moderno do que é atraso conservador nos costumes;
– do que é heroico do que é covarde;
– do que é ecologicamente preservador do que é predador;
– do que humano do que irracional,
É agir em legítima defesa da vida!

Dalton Rosado

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.