Ontem eu vi a esperança

Sabe-se que a tripulação das caravelas que por aqui aportavam trazia toda espécie de gente. De padres e religiosos para catequizar até gente sem escrúpulos disposta e saquear o que viam pela frente.

Esses estavam autorizados pela coroa a cometer qualquer crime em nome do saque. Esse tipo de gente, sendo humano, não conseguia ter humanidade. Sendo cristãos, não enxergavam Cristo no outro. Ao contrário, feito fariseus, roubavam e matavam em nome da fé. Porque tal fé somente servia para justificar seus roubos, saques, estupros e toda sorte de criminalidade.

Depois, já estabelecidos, esses crápulas trataram de organizar o Brasil em forma de colônias. Impuseram o mando patriarcal, e todo o sistema econômico e político foi reorientado para suprir suas necessidades.

Atualizando o debate, sabemos que nos últimos anos o povo brasileiro viveu nos estertores da morte. Instalou-se aqui uma onda miliciana a impor medo a sua economia da morte. Arquitetou, com requintes de crueldade, um não-combate à pandemia e, como se não bastasse, desdenhou das vítimas da Covid-19.

O Brasil, sob o governo de Bolsonaro, reeditou o que de pior veio nas caravelas.
No Brasil da casa-grande nunca houve espaço para a liberdade e para direitos. Sempre foi lugar da escravidão. Nesse Brasil, a universidade sempre foi garantida para os herdeiros do senhoril, nunca para a senzala. Os melhores cargos estavam reservados desde o berço para os filhos da elite.

No entanto, a resistência nunca acabou, porque nunca acabou a esperança. Aos poucos ela foi ganhando força e começaram a surgir os primeiros quilombos. Alguns padres, compelidos por suas vocações, encorajaram-se a tomar o lado dos oprimidos.

Faz pouco tempo que foi instituída a lei das cotas raciais. Ainda se conta nos dedos o tempo em que a empregada doméstica passou a ter direitos trabalhistas. Não está distante no horizonte o dia em que a universidade formou o primeiro negro, e seus primeiros professores(as) universitários oriundos das periferias acabaram de cumprir seus períodos probatórios.

Isso para não falar de avanços, menos consistentes, mas que se revelaram de grande importância, como o programa de distribuição de renda que retirou da linha da pobreza mais de 40 milhões de pessoas. Como não lembrar o tempo recente em que havia uma agenda econômica a garantir acesso a médicos e medicamentos a populações mais empobrecidas? Parecia finalmente que o pobre entrava de vez no orçamento público.

No entanto, tudo isso foi reduzido a pó. Tramaram para golpear a presidente Dilma Rousseff em 2016, justamente para retirar da classe trabalhadora seus parcos avanços. Não esperaram o processo eleitoral e forçaram a mão grande para saquear novamente o país. Foi com “o supremo e tudo” o combinado para retirar da vida pública Luiz Inácio Lula da Silva. O esquema parecia perfeito. Sem o Lula, o caminho ficaria aberto para refazer a economia segundo seus interesses.

Só não imaginavam que o espírito das caravelas reside intensamente em grande parte dos Brasileiros. E ao invés de uma agenda meramente liberal e burguesa, tal espírito de porco reeditou o que de pior poderia existir.

De um lado há fundamentalismo religioso tosco, barato e vagabundo. Do outro, um patriarcado assentado na mentira e no ódio. Tudo isso sustentado por laivos moralistas vistos apenas na pior edição de Mussolini e Adolf Hitler. Deste último, o representante mor das trevas, ao dançar sobre os ossos das vítimas da pandemia, foi capaz inclusive de adaptar seu principal jargão “Deus acima de tudo. Alemanha acima de todos”. Aqui só se deu ao trabalho de mudar o nome do país. Suas frases não precisam ser aqui repetidas, são facilmente encontradas nas redes e não raras as vezes seu autor torna a repeti-las. Esse tipo de coisa que emergiu pós-golpe já estava aí. Foi se alimentando de esquemas durante muito tempo e seu jeito tosco tornou-se na realidade, o espelho para muitos. Não dá para dizer que é medíocre, porque estaríamos falseando a realidade. Ele sequer é mediano. No fundo, trata-se de fato de larápios do Estado sustentados por fundamentalistas! Aquilo que de pior já produzimos.

Mas há esperança, e eu a vi ontem à tarde.

Exatamente quando o crepúsculo da última tarde de setembro se anunciava, acessei a tradicional Praça da Bandeira em Fortaleza. Ali já havia algumas dezenas de milhares de pessoas que se abraçavam, trocavam opiniões e se energizavam como que belos girassóis sedentos de calor. Observei que aparecia gente de todos os cantos. Haviam trabalhadores das mais diferentes categorias, traziam com si uma bandeira, uma toalha ou mesmo pequenos ornamentos que lhes identificavam. Havia também muita gente humilde: desempregados, pessoas em situação de pobreza; mulheres e as crianças. Vi entre eles um senhor aparentando mais de 70 anos, a acompanhar a multidão ao passo que buscava equilibrar-se sob um par de moletas. Todos estavam a disputar um espaço no chão para pôr seus pés.

Mas o que atraia essa multidão em plena tarde de um dia normal? A resposta é a esperança. E ela não faltou ao convite. A esperança se traduz na mais potente possibilidade humana. Toda profunda transformação começa pela capacidade das pessoas alimentarem a esperança dentro de si e transformá-la em ação coletiva. Dessa forma as coisas irão acontecer.

Ontem, e nesses tempos, a esperança atendia por um nome: Lula. Dono de um olhar sereno e sorriso farto, Lula encanta pela simplicidade. De verdade ele é o mito das multidões. Foi retirante, operário, presidente e injustamente encarcerado, até novamente voltar à vida pública. Lula destila afeto. Tentei me aproximar do carro que o conduzia e rapidamente trocamos cumprimentos, mas depois percebi que deveria me afastar para observar a esperança daquela gente. Percebi um homem, negro, jovem, olhando para Lula como quem olha para seu futuro. Para sua possibilidade última. De forma racional, dizemos não ser para tanto… Mas é igualmente fácil entender aquele olhar, basta uma rápida observação no orçamento público e perceber a ausência de estratégias para acabar com a pobreza. Não há nenhum recurso para evitar a fome de 33 milhões de pessoas. A saúde pública está literalmente sufocada, e o projeto Brasil parece congelado no tempo. Aquele jovem rapaz está cansado de ver as mamatas do atual presidente. Cansado de ver esquemas de rachadinha, parcerias com milicianos, sem contar os gastos com passeios de moto ou jet-ski utilizados para falsear a realidade, enquanto seu povo é moído sem casa, sem alimento, sem educação.

Aquele jovem tem a esperança de que tudo mude. Ele sabe que a esperança é uma grande possibilidade e quando levada ao coletivo possui a incrível potência de tudo mudar. A mudança pode ser gradual ou radical. Penso que será gradual e não radical. Mas certamente voltará a possibilidade, pois será possível colocar novamente em rota a democracia e reimprimir um novo orçamento. Colocar ali o pobre, o excluído e o desvalido. Um orçamento que atenda aos mais vulneráveis, que apele para a vida e não para a morte.
Por isso aquele rapaz e outros tantos foram as ruas e vão as urnas: fazer sua esperança acontecer.

Ontem eu a vi e me disse que está voltando.

Rafael Silva

Professor da Universidade Federal do Ceará e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra - UC.