O XADREZ DA EXTREMA DIREITA – Ackson Dantas

Esta partida não começou hoje, nem ontem, vem sendo jogada há algum tempo,  pois tem seu início com os primeiros desdobramentos da lava jato. Naquela época,  a extrema direita começava a se posicionar no tabuleiro, procurando armadilhas simples e com soluções rápidas, assim intentou o Dallagnol que, como um bispo, se armava para um “mate pastor”. Quase deu certo, mas o adversário no jogo, o estado democrático, mesmo lento movia-se em outras direções,  frustrando as investidas da república de Curitiba.

Para um melhor entendimento, vou apresentar para vocês as outras peças do jogo e suas funcionalidades. Nesta partida de um lado se tem a Extrema Direita,  que joga com as peças brancas e tem no seu primeiro front os peões bolsonaristas e toda militância virtual, além de peças descartáveis como Weintraub, Regina Duarte e outros do mesmo naipe. Na sua segunda linha a cavalaria tem como seu representante maior o audaz Augusto Heleno, seguido pelo bispado de Dallagnol e Damares. Ainda na frente de proteção,  os filhos de Jair se comportam como torres,  cercando e ameaçando ataques constantemente. Bolsonaro, pasmem! Não é a peça principal do jogo, se configura como a rainha, detentora de maior poder de fogo e movimentação, mas a figura mais importante deste time se chama Sérgio Moro, a este ser o conje da rainha lhe coube.

No lado adversário, representado pelas peças negras, os peões se configuram como a militância progressista, alguns setores da imprensa e alguns políticos. Do alto de seu castelo, o rei, a Constituição arvora-se na proteção de suas torres representadas pelo STF, acompanhada da cavalaria, que são as instituições como OAB, a maior parte das forças armadas e os movimentos sociais. Neste jogo o bispado é representado pelas casas legislativas (Câmara e Senado) e as esferas estaduais executivas, os governadores.

Pois bem, o jogo já se arrasta há alguns anos, mas entramos em 2020 na situação mais crítica até agora. Depois de algumas trocas de peças,  a Extrema Direita avançou demais no tabuleiro e busca uma solução final para a partida, o xeque mate na Constituição. A estratégia utilizada foi desgastar o adversário na troca de farpas e peões, assim se foram os infantes em riste, pulverizando as redes sociais de fake news, promovendo achincalhes e deturpando a realidade. Por esta estratégia os descartáveis Bebiano, Alexandre Frota, Ricardo Velez, Joice Hasselmann, Roberto Alvim cortaram a própria pele numa batalha sangrenta de desinformação e ativismo facistoide. Nota-se que outros do mesmo naipe estão guardando posto e prontos para o sacrifício: Weintraub, Regina Duarte e Sérgio Camargo são os principais expoentes no momento, posicionados em trincheiras importantes da batalha servem de escora no tabuleiro.

Em outra frente, Augusto Heleno, o da cavalaria, precipita-se a galopar sobre as instituições. Sabe ele que o bispado, Senado e Câmara e as torres do STF, são pilares necessários na estratégia da defesa. Assim, deseja tomar de assalto novo espaço no tabuleiro, posicionar sua infantaria — e aqui existe uma relação direta com pequena parte das forças armadas, acredito eu, já que o governo é sitiado por estes, uns inclusive ainda na ativa — e empurrar o adversário para trás numa tentativa de sufocamento ocasionado pela falta de espaço.

Damares, ministra do que ela acredita ser o direito da família e da mulher, funciona como ponto de fuga e distração. Suas aberrantes ideias e falas têm o propósito de levantar cortina de fumaça sobre o jogo e dificultar o entendimento do adversário sobre como e por onde acontecerá o ataque. Também é função da “bispa” induzir ao erro e provocar irritação no adversário com movimentos inócuos, fazendo o tempo passar sem ser percebido.

Bolsonaro se comporta como a rainha do jogo, a peça que detém maior poder de fogo, com sua hábil capacidade de ser hostil, se movimenta para todos os lados em tom de metralhadora giratória. Seu objetivo é criar ambiente de guerra, testando os limites da democracia, insuflando os peões ao combate. Seu déficit intelectual corrobora com o jeito atabalhoado de ser presidente. Seus arroubos intempestivos pretendem desbravar matas virgens destruindo os alicerces democrático do país.

Moro, a peça principal e mais perigosa do time, se esconde na função de ministro da Justiça. Age de maneira silenciosa, sorrateiramente flerta com movimentos extremistas, insufla motins e dá piscadelas para movimentos milicianos. De início não tinha o reinado do time, mas sua astúcia o credenciou a ser o principal representante da Extrema Direita. Assumiu o posto de rei, até então pretendido por Bolsonaro e aí mora o perigo.  Moro ainda é bem visto por parte da população, tem um esquadrão de míopes na imprensa que insistem em apontá-lo como o bastião anticorrupção. Se aproveita da fama constituída na época de juiz, fortemente estabelecida a partir da sua empreitada contra Lula, para ficar por trás de todas as barreiras, observando o engalfinhamento dos seus adversários. Aguarda o momento certo para se lançar como saída viável contra a corrupção e contra seu chefe tresloucado, seu fervor não é por justiça, mas por poder,  e para isso será capaz de enviar todos na cruzada mortal, até porque, não sobrando ninguém, restará o mesmo para autoritariamente reinar.

Neste jogo, a Constituição, o estado democrático e de direitos ainda não conseguiram compreender a tática dos Extremistas liderados por Moro. Estão sempre um passo atrás,  se esquivando das incutidas e em busca de diminuir a pressão na captura de seu algoz. Aliás, têm dificuldades em perceber quem é a peça principal oponente. Notadamente Senado e Câmara, como bons bispos, tentam amenizar todos os açodamentos do governo federal. Repudiam sem repudiar, praticam um discurso de enfrentamento bonito para a mídia, todavia sem qualquer ação concreta de contenção. Tenho a impressão de que é uma das piores estratégias.

A democracia perambula no tabuleiro tentando amotinar os seus defensores apenas como barreira para conter avanços inimigos. Sem uma reflexão estratégica,  vai observando seus defensores serem capturados sem reação alguma. Todo o jogo é observado, de cima, por empresários e grandes mídias, que pouco ou não se importam com o resultado final da partida, apenas contemplam de suas redomas. Não entendem que a derrocada da democracia representará a derrocada de seus negócios. Pelo contrário, apostam nesta para garantir maiores margens de lucros e crescimentos dos respectivos empreendimentos.

Augusto Aras, procurador geral da república é uma espécie de relógio a contar o tempo do jogo, não toma atitudes, não se posiciona em direção alguma, apenas silencia. Aliás, se pensarmos que o relógio, no xadrez, é sempre inimigo de quem está sendo derrotado, entenderemos que, ao silenciar, Aras se compraz com a Extrema Direita e se torna peça apenas figurativa diante do protagonismo que a função o exige.

Talvez a estratégia necessária do time da Constituição seja uma tentativa mais ousada para equilibrar melhor o jogo. Se posicionar avante tentando ocupar o meio do tabuleiro e protegendo melhor seu rei com um “grande roque”. Conclamando instituições a um debate ampliado e conciliador, construindo uma comitiva com as diversas esferas e partidos em um movimento que se queira nacional e apoiado por órgãos internacionais. O Primeiro passo nesta direção foi dado no enfrentamento do Governo do Ceará ao motim sofrido no estado, a vitória simbólica desta batalha foi muito maior do que se imagina. O amotinamento representava muito mais que uma disputa por melhoria salarial, se configurava como a insurreição de policiais, apoiados por Bolsonaro, Moro e seus peões que acreditam estarem acima das leis.

Certamente este passo terá efeitos revigorantes ao time da Constituição, no entanto é preciso atacar as torres adversárias, os bispos da Câmara e do Senado devem pedir impeachment dos filhos Flávio e Eduardo para mostrar que o país não pode ser aquartelado por uma família. O impeachment do Jair pode não ser uma boa estratégia, embora já tenha cometido vários crimes de responsabilidade, neste momento seria uma batalha perdida.

O alto comando das forças armadas tem de emitir nota desautorizando qualquer ser, real ou virtual, a proclamar fechamento das instituições democráticas. O governo do Ceará precisa continuar obstinado e incisivo na aplicação da lei diante dos amotinados e de desertores, além de investigar todos que, encapuzados, cruzaram as cidades na tentativa de intimidar a população e deixando os mesmos nas mãos de bandidos.

Outros movimentos serão necessários mais à frente, o julgamento do STF sobre o recurso do Lula diante da parcialidade do na época juiz Moro, a elucidação da morte do miliciano Adriano, a elucidação do caso Mariele e Anderson, as investigações sobre o laranjal do PSL e das rachadinhas do Queiroz, a CPI das fake news, todos em segundo plano, mas necessariamente urgentes. Assim o jogo fica mais equilibrado e teremos tempo para terminar esta partida que tem prazo de encerramento em 2022. Espero eu, com a vitória das Negras Constitucionais.

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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