O vexame do coronel

“A vida é dura, camarada!”. Com frases extremamente econômicas, pouco ou nada descritivas, mas com grande densidade metafórica, Gabriel Garcia Márquez constrói o seu segundo grande romance de cunho realista, “Ninguém escreve ao Coronel”, baseado na vida de um coronel decadente, que já esteve no topo da hierarquia e que nada mais representa para os interesses da nação, vivenciando um forte isolamento político e existencial. Como diz o autor, “em vez de café, sobraram-lhe apenas raspas de ferrugem”. Encontra-se no tempo da escassez, de uma longa espera, no qual seu país vivencia a perda das liberdades políticas e civis, com o governo conservador fascista de Laureano Gómez (1951-1953) desembocando no golpe militar de Rojas Pinilla (1953), instalando a barbárie em toda a Colômbia e consolidando a violência de direita como um dos elementos estruturais da sociedade colombiana: censura à imprensa e à cultura, toque de recolher, estado de sítio, repressão à liberdade política. (SALDÍVAR, Dasso. La narrativa de Gabriel Garcia Márquez. Bogotá: Colcultura, 1991).

Para o historiador inglês Perry Anderson (1938), os romances latino-americanos, localizados na década de 1970, traduzem a experiência da derrota, da história que deu errado no continente: o descarte das democracias, a expansão das ditaduras militares, os desaparecimentos, torturas e assassinatos que caracterizam aquele período. As elites políticas e econômicas mantinham-se satisfeitas por não sofrerem com a violência de Estado maquiado de democracia, buscando perpetuar aquelas opressões. (ANDERSON, Perry. Trajetos de uma forma literária. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, número 77, 2007).

Na quinta-feira, 28/04/2022, ocorreu mais um vexame típico, envolvendo o paulista, natural de Pindamonhangaba, Ciro Gomes, candidato pela 4ª. vez (1998/2002/2018/2022) à presidência pelo PDT, ao visitar a 27ª edição da Agrishow, a maior feira de tecnologia do agronegócio na América Latina, realizada na cidade de Ribeirão Preto (SP), reduto de ruralistas brasileiros. Em 2018, na 25ª. edição da feira, o Inominável, então candidato à presidência pelo PSL, havia sido recebido com faixas pelos donos do agronegócio. Em seu discurso para os ruralistas, o capitão candidato afirmou, à época, que iria enquadrar toda luta do MST pelo direito à terra como atos terroristas.

Possivelmente, por incompetente desconhecimento deste fato pretérito, ou por fantasiar em seu espírito que Ribeirão Preto poderia por um instante vir a ser uma Sobral (CE), o pré-candidato Ciro adentrou, nesta quinta-feira, o reduto bolsofascista imaginando ser recepcionado com loas e louros presidenciais. Ledo engano. Gomes foi recepcionado sob intenso ruído de vaias e xingamentos. Descontrolado, não se conteve, partiu para o insulto verbal, no mesmo nível, chamando o Inominável de “nazista e ladrão”. Em determinado momento disse para um bolsominion: “Ele roubou tua mãe ou comeu ela? Não tem educação, babaca? Vai tomar no teu cu!”. E logo depois, pareceu querer entrar em um embate físico com outro opositor político.

Gomes, inexplicavelmente, em sua campanha política, decidiu ter como o foco a ser combatido vigorosamente, sem tréguas e sem pudor, o ex-presidente Lula. Todavia, também no mesmo dia 28 de abril, enquanto Ciro era vaiado em Ribeirão Preto (SP), Lula teve reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) a sua inocência diante do processo de lawfare (perseguição política e jurídica) contra a sua pessoa, instalado pelo Estado de Exceção vigente no Brasil pela estrutura persecutória coordenada por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol com a dita Operação Lava Jato (2014), que envolveu magistrados do Tribunal Regional Federal – TRF 4, além de juízes de outras instâncias jurisdicionais superiores. Devido a este reconhecimento, a ONU condenou o Estado Brasileiro, no prazo máximo de 180 dias, a ressarcir o ex-presidente Lula pelos danos morais e materiais a ele causados pelos crimes de lawfare do Estado Brasileiro.

Como diria Garcia Márquez, “a vida é dura, camarada!”. A campanha eleitoral está apenas no começo, “pero hay que endurecerse sin perder la ternura (y la educación), jamás”.  Será que ele consegue?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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