O Torcedor e o Juiz – uma crônica política do esporte. Por RAFAEL SILVA

Trago da época de esportista boas lembranças e muito aprendizado, o principal deles se traduz no profundo respeito ao torcedor. As viagens pelo país, as pessoas que encontrei e até as icônicas concentrações feitas quase sempre em gélidos hotéis ou mesmo em pequenas hospedarias, me faz lembrar Chico Buarque ao cantar “… partir pé ante pé, antes de o povo despertar.. 1”. Para vencer o tédio sempre mantinha ao alcance as poesias de Caetano Veloso, e a utopia de Gonzaguinha.

Pois bem, quem conhece o mundo do esporte de alto nível, sabe que a primeira regra que se aprende é respeitar aquele que torce. Por que? Porque é dele que vem o maior incentivo, e é para ele que vai a razão última do exercício da sua atividade. Se aquele que canta, respeita quem escuta, o jogador precisa manter-se irmanado com quem torce. Cria-se então uma relação quase umbilical. Uma narrativa corporal que se estabelece no ponto mais sensível da relação: a confiança. Esse estado é tecido feito um cristal no fogo, pois precisa de atenção, delicadeza e alta temperatura. Isso dá vida às arquibancadas, que entoada em cantos e multidões. ganham as ruas e vira paixão. Eis aqui os elementos centrais da relação torcedor/jogador: confiança e paixão.

Entretanto, o torcedor mais fanático sabe que há outro lado, imbuído por igual emoção, confiança e paixão. A tradição do esporte vai aos poucos ganhando contornos culturais, e não é raro observar a confiança e a paixão ocupando outros espaços da vida privada. Um se identifica com o hino, o outro com uma cor, aquele com o grupo, e assim vão tecendo aspectos não racionais das suas identidades. As diferenças ganham amplitudes sem precedentes atribuindo a uma simples competição grande importância. Aqui surge a necessidade de uma terceira figura, capaz de mediar a voracidade que impele ambos os torcedores. O Juiz, ou árbitro, ganha assim peso real. Nele é depositado o primeiro dos elementos de um torcedor dito acima, a confiança. Com ele a expectativa primeira é que haverá uma linha normalizadora capaz de segurar a paixão do outro, assumindo assim o papel de promotor da justa medida. Sem ele, aspectos medievais poderiam ser retomados e uma arena sem lei voltaria a sediar nossas emoções.

Ora, se a expectativa em um juiz reside no exato equilíbrio das forças, suas credencias devem deixar fluir o melhor de cada uma das partes. Espera-se que a volúpia do mais forte seja neutralizada em detrimento do adversário mais fraco, e este não use de subterfúgios para enganar aquele. Ao juiz não interessa o resultado, por definição, ele não pode ser torcedor sem abandonar sua função original. Nunca lhe é esperado qualquer gesto de paixão, ainda que se trate de um ser humano igualmente moldado, seu habitat não pode se distanciar da confiança. A razão é sua moeda e seu cartão de visita. É dele a res-ponsabilidade do resultado final, ou seja, o papel de dar resposta à possibilidade do resultado justo. Isso inclusive o mantém longe da neutralidade, que não deve ser confundida com imparcialidade.

Por outro lado, o torcedor é por princípio uma pessoa entusiasmada (aquele que possui um Teo – Deus dentro de si). O que fazer no dia do jogo? Há quem acorde cedo para reunir com os amigos? Há quem revele sua superstição? É preciso repetir os mesmos hábitos para dar sorte? Ou ir a igreja antes da partida? Talvez, se comprometer em promessas ao santo, ou apegar-se a um amuleto, ajuda? O certo é que ideologicamente o tecedor não titubeia nas cores da sua emoção, nem tampouco no hino que toma feito mantra desde a mais tenra infância. Muitas vezes ele é levado a conhecer a mais pura emoção que pode inclusive lhe atingir fisicamente, mas simplesmente se permite torcer. A herança emotiva é transfigurada num pedaço de pano envolto no corpo, e assim segue para o estádio, pronto para se deliciar com a vitória unicamente merecida. Aquela a ser registrada pela história e contada às futuras gerações. A soma e o resto dessas opções asseguram a esperança, posta no mesmo patamar da certeza de que o juiz irá desempenhar seu papel. Logo, só resta ao torcedor envolver-se emocionalmente com a disputa.

Então, o torcedor ergue sua bandeira, junta-se ao seu grupo e segue para o estádio. Rapidamente, o clima do jogo o envolve e por um segundo, no momento que antecede sua entrada nas arquibancadas, varias intempéries lhe passam pela mente. É razoável pensar que o goleiro possa falhar; que o treinador possa errar; que a sorte não está do seu lado. Logo, tenta livrar-se da imagem da culpa por ter rezado pouco. Talvez por ter repetido poucas vezes aquela mandinga, ou não ter sido um bom ser humano assim… Enfim, todo tipo de frustração pode ocorrer, e então ver-se criando um campo emocional para amortecer sua tristeza. Mas, o que não passou pela mente emotiva do torcedor?

Certamente, não passou por ele a possibilidade do Juiz influenciar no resultado. Caso isso lhe parecesse possível, teria um impacto colossal ao ponto de imobilizá-lo. Frustrado, simplesmente abandonaria a ideia de torcer. Possivelmente se daria por vencido, ou, na melhor das hipóteses espernearia, mas sem muito sucesso. Em ato contínuo baixaria sua bandeira, deixaria sua camisa no armário, não faria suas promessas, nem respeitaria suas mandingas. Tudo isso porque a desconfiança iria estabelecer pouso e frustraria suas expectativas. A razão total ocuparia o lugar da possibilidade e o ceticismo da certeza tisnaria de cinza o apelo da emoção.

Já na arquibancada, o tecedor vibrante empenha cada pedaço de unha. Não se importa com o amigo ao lado, ou mesmo se amanhã precisará voltar ao trabalho, se é que o tem. Seu desejo não comporta outra coisa que não a possibilidade da vitória… De repente, seu time leva um gol muito questionado. Feito um tirano, seu pensamento é invadido pelo sentimento da confiança amplamente depositada no  juiz. Este, por sua vez, confirma. Hummm… Mas há a segunda instância, popularmente chamada de arbitro de vídeo. Contudo, esse recurso também igualmente confirma. E o torcedor se vê impotente diante de tantas certezas. Num rompante, o jogo acaba! Com ele vem a amargura da derrota. Incrédulo, o nosso amigo busca chão para voltar à realidade. Chateado, ele precisa recompor sua razão. A fé que antes era espaço da promessa, agora serve de consolo.

Contudo, nada causará maior indignação no torcedor; nada será capaz de lhe afetar com tamanho impacto; nada testará mais seus sentimentos – que irão variar entre a raiva e a justiça, feito ponteiro desorientado – quando no dia seguinte, ao passar na banca de jornal se deparar com as capas dos jornais estampando uma figura afônica, tomada pelos gritos da emoção, envolvida na comemoração da vitória acachapante do seu adversário: o juiz.

  1. Letra e Música: Na carreira de Chico Buarque.
Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

Mais do autor

1 comentário

  1. Avatar

    Selma Serodip

    Meus aplausos, de pé! A realidade que hoje experimentamos em relação ao julgamento de Lula se faz aqui estampará.: o juiz comemora a derrota do seu inimigo político.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.