O silêncio de Acácio – CLAUDER ARCANJO

Tive que viajar quinzena passada e, confesso, antes de partir não me despedi de Companheiro Acácio.

Sábado último, em meio ao feriadão da República, mal pus os pés em casa, resolvi visitar meu amigo, saudoso que estava de sua prosa, sedento que me sentia dos seus achados sócio-filo-político-literários.

Qual não foi a minha surpresa quando, mal venci a entrada do seu pequeno escritório, encontrei-o em silêncio descabido. Uso tal adjetivo por não encontrar um que melhor se coadune àquele modo de sentar-se, a olhar tão metido pelo ermo da cumeeira, àquele corpo em jeitão largado por entre tantos livros de mão.

Sim, Acácio estava sentado em sua indefectível cadeira de balanço, com os braços dispostos sobre seus livros mais preferidos, além de arrodeado dos milhares que compunham o seu patrimônio de bibliófilo… porém os seus lábios estavam murchos de verbo.

De início, saquei meu regalo, proferindo alguns versos de Pessoa. Companheiro mal levou os olhos em minha direção, mesmo sabendo que o presenteava com uma edição rara de Mensagem. “Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal…”

Em tempo de ares limpos, Acácio completaria “Mar português” com a sua voz altissonante, recheando-o e pespontando-o de entonações de alumbramentos mil. Nada disso se deu. Tão somente o vazio, sem o menor eco ao meu recital.

Puxei, em seguida, os verborreicos destemperos últimos da política nacional, destilei minha opinião, pontuei-as com máximas de Cícero, de Machado, de Shakespeare, de Rousseau… Tudo em vão.

Em quase desespero, resolvi apelar. Explico. Meti-me na cozinha, preparei um café donzelo, deixando os cômodos acacianos serem aspergidos pelo perfume inconfundível da rubiácea, pois lembrava-me da máxima de um parente distante que sustentava, aos mais ressabiados, que tal cheiro levantava até os defuntos mais apegados às covas do Além.

No entanto, quando retornei com as duas xícaras e servi-o, dei com a sua pupila dilatada e, pior, direcionada para bem longe de onde nos encontrava. O café esfriou muito rápido, posto que o calar é vento por demais friorento.

Fiz, então, menção de me levantar e cair em retirada — sempre funcionava nas vezes outras. Assim sempre o fora em pretéritas vezes, a minha companhia lhe agradava sobremodo. “Somos carne e unha, almas gêmeas” — Acácio detestava tais rompantes, enquanto flagrava um riso a escorrer pelos lábios finos, regando-lhe os fios do bigode sempre bem aparado.

Desta vez, dei com o discurso n’água. Sem ter como agir, a cabeça metida num torvelinho de provações novas, abaixei a cabeça; e, quando dei por conta, afundara-me em águas silentes, em profundezas abissais.

Em câmera lenta, a vida desfilou em frente a mim. Uma infância de gritaria, uma juventude de batuques, uma madureza de gritos sem rumo, um escrever sem…

— Clau-der Ar-can-jo?!…

Aquela voz longínqua, em acento de monge budista, como se a me conclamar por entre uma sinfonia de descobertas, de novos mundos, revelando-me coisas que, antes, nunca…

— Clauder Arcanjo?!… Companheiro… Acor…

De repente, um tabefe na minha face esquerda. Antes de oferecer a direita, pois nunca fui Cristo, pus-me em posição de revide, e armei o meu contra-ataque de ninja licaniense.

De olhos arregalados e com a face da cor de pimentão maduro, bem como a latejar e a pulsar, escutei o rompimento do dique do silêncio acaciano.

— Companheiro, seu silêncio é um perigo!

— …

— Não vá se meter nas arapucas das reticências, nem da ioga ou coisa que o valha, meu amigo. Do hipnotismo, Clauder Arcanjo, só passe na calçada distante légua e meia. Fui claro?

— Mas…

— Não tem mas, nem mais, nem entretanto… Seu silêncio é coisa de lesa-pátria. De lesa-amizade. De lesa-escambau… Ô meu Deus! Ó Deus dos desgraçados! Deixe estar… Explico-lhe, seu filho de uma mãe: nunca vi uns olhos tão medonhos, uma língua tão viperina, um jogo de mãos tão assente ao crime de vingança como os seus no instante em que mergulhou no vale do silêncio… Enfim, se eu fosse você, amigo Arcanjo, pedia aos céus uma insônia eterna. Não sei se me entende. — Enquanto vomitava tais orientações, soluçava tal qual um menino assustado, ao tempo em que me sacudia como um possuído.

— Não sei o que o assustou tanto, Acácio. Até gostei do meu novo estado de espírito! — observei.

— Como?

— Fique quieto, Companheiro, que eu agora vou me recolher ainda mais profundamente nos desvãos dos meus silêncios espirituais. E você, cá aqui fora, cuide de me esperar… trarei novidades.

Mal proferi tais palavras, notei que o pouco cabelo de Companheiro Acácio arrepiou-se no cocuruto, os olhos esbugalharam-se como se estivessem prestes a presenciarem a demonstração definitiva da existência do quinto dos infernos. Com pouco, a sua boca abriu-se num grito medonho, enquanto suas pernas finas meteram-se numa fuga desenfreada de cachorro doido na direção do rumo das ventas aflitas.

Antes do refrigério da minha cândida reflexão silenciosa, colhi o último desabafo acaciano:

— O silêncio para alguns é o inferno para outros.

Esta manhã, as redes sociais deram-me notícias de sua ruidosa presença nos protestos de rua em Santiago do Chile.

Postei-lhe uma curta mensagem: “Volta, Acácio!”

Respondeu-me… Preferia nem aqui mencionar, mas o faço, em respeito à liberdade de imprensa. Sapecou-me na cara (do meu computador) um lacônico: “Aí dentro!”

Acho que alguém invadiu nossas redes sociais, passarei o caso para investigação, mais um caso de quebra de sigilo, por parte do Supremo.

(Fotografia de Carlos Otávio).

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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