O SENTIDO DA VIDA COLETIVA

Uma das meta-narrativas contida na práxis política do tempo que estamos vivendo no Brasil é a busca bem definida da destruição dos valores e das solidariedades da vida em comum. Quando agentes do governo federal, a partir do seu chefe maior, desenvolvem uma gama pirotécnica de falas, de gestos, de desinformações e de ações  contra a imunização por meio da vacinação em massa, afirmando em “live” (https://segundaopiniao.jor.br/carnificina-brasileira/#) para todo o Brasil que não iria comprar a vacina sino-brasileira produzida pelo Instituto Butantã, do estado de São Paulo, demonstra-se a ponta do iceberg da visão de mundo da qual ele é portador.

É nisto que Bolsonaro tem investido o tempo todo desde a sua posse, na divisão dos brasileiros, na exacerbação das tensões, a exemplo do que fez o seu ídolo, Donald Trump, durante os quatro anos de mandato, até o último momento com a invasão do Capitólio, por ele programada, estimulada pelos defensores da supremacia racista branca estadunidense. Bolsonaro busca, por meio continuado da divisão social, uma “fidelização religiosa” do seu gado extremista. Como se sabe, a força de um fenômeno religioso reside no dogma (verdade de fé, não demonstrável) e na divisão entre o que é sagrado e profano, entre aqueles que são fiéis e os hereges.

A imunização pela vacina é um modo de nos prevenirmos como povo brasileiro, não só individualmente, mas coletivamente, afastando a contaminação do coronavirus da mesma forma que, por exemplo, em épocas passadas conseguimos combater a poliomielite ou a varíola. Portanto, a vacina possui não apenas um valor sanitário em si, mas carrega consigo uma força simbólica movente de favorecer a coesão social, a benevolência recíproca, pela alegria de haver-se alcançado a vitória coletiva da imunização.

A vida em comum se constrói de indivíduos em sua diversidade. A empatia é fundamento para uma pessoa ver os outros como sujeitos legítimos de experiências e não como objetos ou meios pelos quais podem ser atingidas metas egoístas. É a partir de experiências intersubjetivas – entre sujeitos – que cada indivíduo compreende a si mesmo e compreende o outro, tomando consciência da liberdade, da individualidade e da dignidade das quais são portadores para atuarem eticamente na vida coletiva. É, portanto, dever do Estado Democrático, como agência estruturante da vida coletiva de uma nação, favorecer a construção do bem comum, a partir daqueles que mais dependem das intervenções estatais.

A individualidade tem sua marca positiva para a vida social na medida em que ela aponta para quais devem ser os papéis das pessoas no sentido da vida coletiva. A transcendência da subjetividade para a intersubjetividade é o que sustenta uma vida comunitária sadia. Não é liberando impostos de importação de armas de fogo para a população, nem tampouco atiçando manifestações contra o Congresso, o Supremo Tribunal e pedindo a volta de atos institucionais da ditadura militar, como ocorreu por diversas vezes no primeiro ano de seu mandato em 2019, que o Estado brasileiro, na figura do seu presidente, irá favorecer o fortalecimento do vínculo social solidário. A tragédia pela qual estamos passando já estava anunciada desde as eleições de 2018. Muitos não quiseram ver, iludidos pela manipulação midiática dos órgãos de comunicação hegemônica deste país, cuja história os vincula às aventuras golpistas de ontem e de hoje.Portanto, essa mídia golpista tem ampla responsabilidade pelo contexto trágico – social, econômico, político e sanitário – pelo qual estamos atravessando.

No início de dezembro passado, a cientista Marta Arretche, professora do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), já havia denunciado que o que nos falta é governo federal. O plano de imunização anunciado pelo ministério da saúde, do general Pazuello, é um espetáculo, segundo a professora, por estar baseado apenas em intenções de firmar contratos. Denunciou que “em 2021 não haverá vacinas para quem queira e necessite de ser vacinado”. (https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2020/Qual-o-problema-da-).

Ontem, 20, a cientista da Fundação Osvaldo Cruz, médica pneumologista Margareth Dalcomo, ao receber o prêmio São Sebastião de Cultura, entregue pela Associação Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro, na presença do cardeal Orani João Tempesta(https://www.youtube.com/watch?v=2tNtqu28Mzs&feature=emb_logo), disse enfaticamente ser “absolutamente inaceitável a falta das doses imunizantes no país”. Para a médica, “a incompetência diplomática no Brasil não permite que amanhã ou nos próximos meses de acordo com o cronograma elaborado pela Fiocruz os brasileiros recebam a única solução que há para uma doença como a covid-19”. E concluiu: “É hora da sociedade brasileira mostrar realmente o que tenho tentado chamar atenção, como médica e cidadã de consciência cívica: é absolutamente inaceitável neste momento no Brasil a vacinas não chegarem da China e nem da Índia”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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