O SENSO DO DISSENSO OU OS SORTILÉGIOS DA FÉ IDEOLÓGICA

As esquerdas nunca selaram as convergências da unanimidade. São heterogêneas e discrepantes entre si, por necessidade e conveniência.

Nem em Saint-Petersburg com Lenin e Trotski aboletados no Palácio de Inverno dos czares, nem no Brasil com Marigella e Lamarca, acolitados por dominicanos rebeldes.

Os dessa grei presumem saber exatamente como agir diante de tantos e tamanhos desafios. Mas se o soubessem dissimulariam esses impertinentes pensamentos.

Salvadores do mundo e modeladores do “homem novo”, estão motivados por uma causa santa. O destino deu-lhes o fogo de Prometeu para a redenção dos humanos. São missionários em desobriga à cata da salvação das almas recalcitrastes, as que eles pretendem salvar, “malgré elles”.

Cada um da tribo tem a sua própria receita compartilhada com os seus seguidores fiéis. São, por hábito, índole e impulso irresistível, litigantes que defendem as suas posições porque não querem entender o que os outros pretendem…

Concordar com quem diverge da sua verdade significa perder espaço, ceder precedência na cruzada heróica de salvação da humanidade. Tudo menos socializar a glória alcançada com a salvação dos condenados da terra. Todos sonham, afinal, em compor o espaço dominante do qual façam emanar a sua visão particular do mundo.

Quando dois cruzados de esquerda se encontram e discutem entre si (os da direita têm os mesmos tiques e cacoetes ideológicos de se bastarem com as suas ideias…), nenhum deles intenciona concordar com os argumentos do interlocutor. Estão em busca de argumentos para contestar o que um e o outro usarão… Dissentem entre si — preventivamente, espécie de auto-defesa das suas íntimas hesitações.

Os falangistas de direita, apegados à ideia de preservação das suas verdades canônicas, diante da insegurança que o presente lhes traz e as ameaças do futuro iminente se mostram, convergem para uma certa unanimidade de ocasião. Apegam-se ao simulacro salvacionista dos ordenamentos da fé e da tradição, desenhados como estratégias de resistência — contra os perigos do mundo.

Já os auto-designados democratas, defensores do “Estado de direito”, pretendem concordar com o interlocutor, antes mesmo de saberem o que o dele ouvirão. Deixam-se possuir pelo espírito patriótico da conciliação de interesses e da cooptação ideológica das benesses do Estado…

Nós outros, idiotas contumazes, ungidos com ralas sobras de teimosia e senso crítico, aguardamos a imunidade de rebanho das punções ideológicas para a própria sobrevivência em meio a tanta utopia desvairada e louca determinação na luta pela conquista do poder.Por

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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