O RUGIDO DO POVO

O sucesso midiático dos atos públicos de ontem, liderados pela Faculdade de Direito da USP, tornou mais difícil a baderna programada pela ultradireita.

Na linha das inquietações de Washington, ficou evidente o receio do baronato financeiro diante da possibilidade de convulsões de consequências imprevisíveis.

A boa acolhida do ato pelos grandes jornais, certamente foi facilitada pela amplitude do discurso de Lula, que habilmente acalma temores dos de cima e alimenta os sonhos dos de baixo.

Estivesse Lula ameaçando os interesses dos grandes, não veríamos barões na festa democrática.

A festa foi bonita, mas não convém imaginar um ambiente eleitoral tranquilo. Como esperar ponderação de apavorados com a possibilidade de perder vantagens e ir para a cadeia em caso de derrota eleitoral?

A lista dos ameaçados é maior do que a família presidencial. Há políticos, religiosos, empresários e a turma que detém armas, fardada ou de pijama, regularmente ou não.

O respeito às regras democráticas não pode ser assegurado por instituições que, inebriadas de autonomia, não se deram ao respeito.

Afinal, quem, nos últimos anos, atentou contra o princípio segundo o qual o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido? Quem fraudou o último pleito presidencial apeando Dilma e prendendo o principal concorrente do atual mandatário?

Impossível ignorar: os braços do Estado não são confiáveis. A tragédia que experimentamos foi viabilizada por integrantes das Forças Armadas, do Judiciário, do Parlamento, do Ministério Público e das instituições policiais.

O respeito às regras democráticas depende essencialmente de uma ampla mobilização popular que ainda não mostrou a cara.

Nessa matéria, convenhamos, o campo progressista não têm ajudado. A maioria da militância de esquerda há muito não se empenha no desenvolvimento da cultura política dos brasileiros. Ao contrário, arrebanha votos através de expedientes clientelistas desenvolvidos pelas velhas oligarquias.

Buscando eleger-se de qualquer jeito, líderes de esquerda, através de alianças injustificáveis, contribuíram para assegurar o mando ao Centrão. Ciro Nogueira foi eleito com voto da esquerda, vale lembrar. Os recursos do orçamento secreto ensejam a parlamentares de esquerda chance de se apresentar como garantidores de benefícios aos seus “colégios eleitores”.

Muitos se emocionaram com as manifestações democráticas de ontem. Não cabe diminuir uma mobilização inibidora da baderna fascista.

Mas cumpre registrar seus limites. A noção de democracia é corroída quando prevalece a falsa ideia de que a soberania popular pode ser garantida através de eleições.

Lula mandou bem ao dizer que a democracia implica em que todos tenham direito à comida, educação, saúde, trabalho, remuneração digna, enfim, aos direitos elementares estabelecidos na Constituição de 1988.

Estes direitos foram negados em benefício do baronato presente na Faculdade de Direito de São Paulo.

Na verdade, em canto algum foram assegurados sem rugido do povo. Um rugido forte o suficiente para deixar salvadores da pátria de rabo entre as pernas.

Manuel Domingos Neto

Manuel Domingos Neto (Fortaleza, 5 de dezembro de 1949) é um historiador, professor, pesquisador, escritor e político brasileiro que foi deputado federal pelo Piauí. Em 30 de abril de 2010 lançou o livro O que os Netos dos Vaqueiros me Contaram, que destaca a criação extensiva de gado bovino na construção do Brasil, os problemas do desenvolvimento socioeconômico regional e a reprodução do poder político no meio rural nordestino.[5] Sobre seu livro Manuel Domingos relata: “ Eu busquei fazer uma reprodução do poder da época. Desde as figuras mais importantes da história do Piauí no século XX, até os seus grandes inimigos. Isso tudo partindo dos depoimentos colhidos em 1984, quando eu tinha aberto um laboratório oral em Teresina.

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