O ridículo ululante

A política tem o condão de propiciar situações ridículas em profusão, e a mutação social decorrente da dialética do movimento social se encarrega de demonstrar aquilo que originalmente poderia parecer heroico, mas que era essencialmente ridículo, ainda que trágico.

Há coisa mais ridícula hoje do que o gestual hitlerista tão bem caricaturado por Charles Chaplin no seu antológico filme “O grande ditador”?

Ainda ontem assistimos no Brasil a um Presidente eleito pelo voto afirmar que as eleições no Brasil foram fraudadas por mecanismos eletrônicos, questionando a sua própria legitimidade governamental, e pasmem, para uma plateia de embaixadores internacionais por ele convocados e que aqui representam seus países.

À medida que as mutações sociais ocorrem elas promovem a obsolescência de determinados tabus, e é quando vemos quão ridículos eles eram.

O que dizer do apedrejamento de uma mulher acusada de adultério, criminalização ainda vigente em algumas regiões onde predomina o fundamentalismo religioso anti-civilizatório?

O que dizer de uma escritura pública de propriedade de um escravo negro recém-comprado num cais de porto brasileiro a um traficante de escravos num navio negreiro?

O que dizer da ridícula (e perigosa) adesão governamental brasileira às teses do recém-falecido Olavo de Carvalho, um misto de filósofo com astrólogo defensor de teses como existência de uma conspiração comunista mundial (ele se referia ao marxismo tradicional capitalista de estado ultrapassado), e que influenciou os bolsominions a ponto de termos um Ministro das Relações Exteriores sob tal orientação e que mais parecia um detrator dessas relações e que considerava a China, o país que pratica o mais selvagem capitalismo do

Planeta, como comunista; e sem falar em alguns que afirmavam que a terra era plana?

O que dizer do ridículo argumento de Vladimir Putin em promover uma matança indesculpável do povo ucraniano (também dos incautos soldados russos) em nome de uma hipotética contenção do avanço do nazismo na Ucrânia?

O que dizer do segmento militar das sociedades ditas modernas, que tem formação preponderantemente belicista, querer se auto atribuir funções político-econômico-sociais? Aliás já se disse que até mesmo a guerra é questão tão grave que não pode ser colocada apenas nas mãos de generais.

O que dizer de alguém que considerou que as eleições estadunidenses foram fraudadas e orientou a sua turma para um putsch no capitólio tentando dar um golpe de estado sem considerar o ridículo de tal proposição por esta forma, como o fez Donald Trump?

Mas o senso do ridículo teima sempre em vir à tona.

Como a memória social é amnésica, ressurge em muitos lugares o ridículo representado por teses neonazistas nacionalistas dos supremacistas raciais cujos músculos bombados não estão em simetria com o cérebro atrofiado.

O capitalismo está se colocando na condição de fato social apenas ridículo, se infelizmente não fosse trágico, concomitantemente.

A tecnologia moderna é incompatível com uma lógica que surgiu num momento em que a força de trabalho humana era largamente necessária e a única possível para a execução de todas as ações indispensáveis à vida.

O embrião do capital (riqueza abstrata) decorreu do sistema de trocas quantificadas de objetos transformados em mercadorias (o escambo original, mensurado pelo tempo de trabalho dedicado a cada produto produzido) que gerava a cobiça de obtenção de braços escravizados funcionando como meras máquinas capazes de promover a acumulação da riqueza imperceptivelmente transformada na forma abstrata (originalmente material, os objetos in natura que então adquiriram valor de troca na mercantilização como mercadorias) nas mãos dos senhores escravistas.

Ora, a contradição capitalista e sua inconsciência autodestrutiva, promove a obsolescência da força de trabalho humana aplicada ao sistema de produção e de trocas no mercado, e aí reside a evidência do ridículo (e contraditório) que representa a escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor no estágio atual da produção tecnológica.

Então, com a explicitação da incompatibilidade entre forma e conteúdo, ocorre a concretização prática da fábula da galinha dos ovos de ouro, na qual

a ganância promove a morte do que é fonte de riqueza predatória: o capitalismo se autodestrói!

É sábio o dito popular que afirma que o mal por si se destrói…

Mas o problema é que no seu processo ridículo de autodestruição enquanto forma de relação social, ela arrasta para o abismo todo a sociedade, aí incluindo até os seus submissos agentes beneficiários (os capitalistas).

Exemplo dessa generalização não seletiva de destruição dos seres humanos criadores do próprio capitalismo constatamos na agressão capitalista ao meio ambiente.

Na sua sanha de busca insensata do lucro capitalista emite-se gás carbônico em níveis avassaladores na atmosfera causando o aquecimento global que não atinge apenas os povos pobres que se situam na linha do Equador ou abaixo dela, mas todos os ricos capitalistas situados nos países que detêm hegemonia econômica mundial.

A crise ecológica não é totalmente seletiva, ainda que atinja os pobres com mais virulência. Ainda hoje a Europa arde num calor insuportável que promove a queima das florestas que retroalimenta a emissão de CO² na atmosfera de modo suicida.

Não é ridículo que se proponha o desenvolvimento econômico (todos propõem, direita e esquerda institucional) sob bases capitalistas que não pode dispensar os combustíveis fósseis poluentes?

Não é ridículo que todos os candidatos no Brasil defendam a expansão e a preponderância da Petrobras como suporte econômico da economia brasileira?

Todos querem democracia como objetivação da vontade coletiva; até os ditadores ou aspirante a ditadores dela se aproveitam.

Não é por ela que Boçalnaro, o ignaro, chegou ao poder estatal (com apoio do poder econômico, que hoje desconfia da sua competência em entregar um gerenciamento capitalista estatal eficiente) e agora sonha com um golpe ditatorial que lhe desse a perpetuidade nesse mesmo poder?

Foi assim que Hitler chegou ao poder e incendiou o Reichstag, o parlamento alemão, e paulatinamente se assenhoreou de modo absolutista do poder; é assim que Vladimir Putin vem se perpetuando no poder diretamente ou indiretamente há 23 anos.

Da mesma forma o parlamento brasileiro, cuja composição fisiológica do Centrão é predominante, também está por lá ridiculamente (e de modo predatoriamente fisiológico) ungido pela democracia eleitoral burguesa.

Denunciamos as ditaduras como exercício arbitrário do ridículo poder no qual se investem; mas consideramos democrática a escolha pelo voto, mesmo sabendo da manipulação do poder político-econômico que é o que define a pretensa vontade (ou falta de livre vontade) eleitoral pelo voto.

Em cada nível eleitoral tudo se processa sob circunstâncias ridículas especiais.

Nos municípios interioranos do Brasil profundo é o cabresto eleitoral municipal o que predomina;

– nas grandes cidades é a mídia local atrelada ao poder político-econômico, e as corporações defendendo cada interesse específico e excludente, quem manipula as inconsciências eleitorais;

– nas eleições Presidenciais é a economia o que comanda o efeito manada, razão pela qual ciclicamente os governantes são defenestrados do poder após repetidos fracassos, ou se eleva à santo o governante que momentaneamente entrega resultados econômicos eventualmente satisfatórios que sucumbirão logo adiante por conta da inevitável insustentabilidade governamental estatal capitalista.

As ditaduras são explicitamente ridículas; mas a democracia burguesa enquanto farsa de representação da livre vontade popular representa a ridícula manipulação dessa mesma vontade.

Há uma falsa dicotomia entre ditaduras burguesas e democracias burguesas. Mesmo que a primeira seja tiranamente ridícula, a segunda também o é, ainda que de forma socialmente consensual até certo ponto e sejam respeitados determinados cânones de civilidade.

Como temos dito repetidamente, a verdadeira antítese às duas espécies que pertencem ao gênero capitalismo é uma sociedade cuja relação social se dê por meio de uma produção voltada para a satisfação das necessidades coletivas sem a mediação pela forma valor e estruturadas a partir de organismos jurídicos de base, com poderes administrativos, legislativos e judiciários.

Mas como sempre ocorre ao longo da história, um dia, se sobrevivermos como espécie ao capitalismo, consideraremos todos os saberes e sociabilidade hoje existentes como primários e incipientes, e esta última forma social como ridículo modus vivendi em relação a esses momentos futuros.

Haverá um tempo futuro em que consideraremos inaceitáveis e claramente ridículos conceitos que hoje admitimos como seriamente válidos e aceitáveis.

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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