O REPTO DO FUTURO E O ACERTO DE CONTAS COM O PASSADO

Entramos em terrenos perigosos. Abandonamos os projetos de futuro e as aspirações de uma Pátria grande, esperança dos brasileiros, para um selvagem acerto de contas com o passado.

Demos as costas para os desafios da construção de um país em formação e nos voltamos, em um auto-de-fé condenatório, contra fatos e circunstâncias que nos fizeram, bem ou mal, afinal de contas, o que somos hoje.

Condenamos os descobridores e a sanha imperialista que favoreceram a ocupação e a penetração de uma imensidão territorial, em grande parte inexplorada e devoluta.

Nos desvios do “racialismo”, nova forma discriminatória de sinal contrário, denunciamos a miscigenação brasileira de brancos, negros e indígenas — portugueses, africanos e autóctones. Designamos coletivamente como “povos indígenas” os brasileiros nascidos antes de nós no Brasil, como se uma indesejável miscigenação lhes tirasse a condição de donos e proprietários legítimos das terras que lhes foram arrebatadas. Deploramos a violação da sua cultura ancestral, como se pretendêramos conservá-los “in natura”, a salvo do assédio civilizatório que os ameaça desde sempre, para exposição aos olhares apurados de etnólogos e a curiosidade dos contemporâneos.

Contra a solerte discriminação de alguns séculos de escravidão, ao contrário de buscarmos a integração de etnias diversificadas, trazidas pelos fluxos escravocratas e as migrações desejadas, fortalecemos a rejeição recíproca de laços que poderiam unir o que a rejeição transforma em reações culturais inamistosas.

Aprofundaram-se as diferenças regionais, por via de “consórcios” de estados, amparados por questões e pressupostos políticos e ideológicos — e até tributários —, em confronto com o pacto republicano, compromisso que, aparentemente, nos unia sob um mesmo sistema político, amparados pela proteção da autoridade e de poderes constitucionalmente definidos. Ao princípio federativo da República do Brasil opõem-se,por caprichosa resistência à Constituição, “conselhos de governadores” em abusiva desobediência a uma cláusula consensual celebrada pelos brasileiros.

Assistimos à desconstrução das instituições políticas do País, ao sopro do vendaval totalitário que confunde os cidadãos de boa fé e inocula falsas expectativas entre os jovens brasileiros.

A justiça e os seus doutos serventuários, dão-nos a impressão de terem abandonado a rotina maçante da engorda de autos fartos e copiosos para arquivamento por inapelável decurso de prazo. Motivados por generosos impulsos retóricos, puseram-se eles a falar, a deitar eruditas proposições em conferências proferidas nas praças de guerra ideológica das Academias. Falas, note-se, algumas vezes triviais, no formato de uma pregação missionária, em favor das modernas tecnologias “cyber”.

As eleições de outubro responderão a algumas das nossas incertezas. Dadas as circunstâncias atuais, entretanto, no confronto guerreiro de contraditórios pouco democráticos e muito menos republicanos, perdurarão as contingências de um crise em quarto-crescente.

Enquanto isso — a força dos paradoxos!— os conservadores, néo-liberais confessos, tentam de forma atabalhoada enfrentar o desafio do futuro; já os progressistas, socialistas de todos os gêneros e naipes, dispõem-se ao acerto de contas definitivo com o passado…

Corrigimos o passado com vagas intenções retóricas — e deixamos a reparação do futuro para “mais tarde”.

O adiamento de confrontos faz-se, ao gosto das nossas preferências, com reformas provisórias, nascidas de negociações e compromissos compartilhados. É da nossa índole.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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