O rádio, o jornalismo de serviço e a formiguinha, por Osvaldo Euclides

Nunca tive intimidade com as emissoras de rádio, mesmo tendo trabalhado quinze anos na área administrativa de uma empresa de comunicação. Sou filho de jornalista e sobrinho de um revisor, ambos do batente do jornal. Sintonizava o rádio em programas específicos de emissoras específicas. Como sempre fiz com a televisão aberta. Em compensação, devorava oito jornais por dia, meia dúzia de revistas por semana. Meu negócio com informação e opinião sempre foi ler, mais do que ver e ouvir. De uns tempos pra cá, os impressos caíram na tela do computador e meu envolvimento diminuiu. Me mantenho longe da televisão, mas me aproximei do rádio.

Moro na zona rural. Escolhi para eventual companhia  três emissoras de rádio e, há pouco mais de dois anos, eu as escuto, mudando a sintonia conforme o horário… Vamos direto ao ponto: descobri faz tempo um ponto exata e rigorosamente comum às três. Este ponto comum são as notícias de trânsito feitas pelos ouvintes, os moradores dos bairros da capital, coisa nova por aqui, pelo menos pra mim. Agora a moda pegou: chamem de interatividade, participação, cidadania, jornalismo de serviço, parceria, consciência comunitária, prestação de serviço, só coisas boas. O ouvinte entra no ar e coloca a questão, segundo ele a vê, e você se sente um real e vivo morador de uma cidade viva, que pulsa, mesmo na chuva, mesmo no engarrafamento, mesmo no sinal quebrado ou piscante.

A utilidade da informação de trânsito para mim é zero. Mas é bonito ver a comunicação em dois sentidos: rádio-cidadão, cidadão-rádio. É bom saber que as pessoas querem cuidar da cidade (quero crer que isso tem mais a ver com a cidade e com as pessoas do que com os automóveis). O prefeito e vereadores devem gostar, pois é uma contribuição positiva, efetiva. Creio que os profissionais das áreas de trânsito estão mais prestigiados e motivados, vale o mesmo para os policiais rodoviários federais. O trânsito é cada vez mais noticiado, isso é bom para todas as pessoas. Imagino as agências de propaganda e os fabricantes e revendas de automóveis, quantas oportunidades de marketing se apresentam todo dia, o dia inteiro…

Pois é. Mas não é do meu feitio ficar elogiando, por mais que possa gostar. Melhor olhar para a frente e propor, mesmo em forma de um simples palpite. Lá vai.

Algumas emissoras de rádio (essas três que acompanho, pelo menos) me parecem ter boa estrutura de talentos e grade de programação planejada, e indicam ter gestão profissional. Há, portanto, condições básicas para fazer mais e ainda melhor o jornalismo de serviço, demonstrar respeito e amor pela cidade e por seus moradores e dar uma colaboração à gestão pública.

A proposta é ir ampliando a pauta. O que se faz hoje no trânsito pode passar a ser feito também em outras áreas dos serviços coletivos de interesse dos moradores dos 119 bairros da capital. Quem sabe coleta de lixo, talvez iluminação pública, possivelmente a área de transporte (metrô, ônibus). O desenvolvimento tende a acontecer naturalmente, embora o planejamento possa ajudar. Nesse tipo de proposta, é a própria população que, ao aderir, aperfeiçoa suas escolhas (‘o caminho se faz ao caminhar’). E cada emissora sabe seus limites e possibilidades. Pronto, falei.

Repito a frase que ouvi de um amigo jornalista (sou apenas economista): o rádio é a formiguinha dos tradicionais veículos de comunicação de massa. Pensei nisso ao lembrar que ano que vem tem eleição para prefeito e vereadores. Eis um argumento para começar o avanço este ano ainda.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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