O que resta (eleitoralmente) do PSDB no Ceará? por Emanuel Freitas

Passadas as eleições de 2018, muitos balanços podem, e devem, ser feitos. Em se tratando de Ceará, um dos mais importantes é o que o pleito resultou para o PSDB, partido que governou nosso estado por 20 anos, perdendo somente para o estado de São Paulo, onde o mesmo partido hegemoniza a política há quase 3 décadas, podendo ser qualificada como uma “hegemonia fechada”, para usar os termos do cientista político Robert Dahl (regimes em que há quase nenhuma competitividade ou chances de a oposição vencer eleições).

Por aqui, a hegemonia tucana começou a desfazer-se com a apertada vitória de Lúcio Alcântara, em 2002, e parece ter-se consolidado com a chegada e manutenção no poder estadual do grupo dos Ferreira Gomes, com  as duas vitórias de Cid (2006 e 2010) e  de Camilo (2014 e 2018), permitindo-nos, ainda nos termos de Dahl, falar da constituição episódica de uma “hegemonia fechada”, com rápidos contornos de uma “oligarquia competitiva”, nos dois momentos em que os “ciclos políticos” liderados por Tasso e Cid  foram ameaçados pela possibilidade de vitória da oposição: os pleitos de 2002, com a expressiva votação de José Airton (PT), e de 2014, quando Eunício Oliveira foi derrotado por pequena margem.

Desde a saída de Tasso Jereissati do comando do governo estadual o PSDB atravessa uma incessante diminuição de seus quadros: na Assembleia, por exemplo, passou de 17 em 2002, 16 em 2006, 6 em 2010 (com dois suplentes), para apenas 1 em 2014 e 2 em 2018. Para a Câmara dos Deputados, os resultados foram: 7 em 2002, 4 em 2006, para 1 em 2010, 2014 e 2018. No período, ainda perdeu uma eleição para o Senado (2010), retomando a vaga em 2014.

Por certo, esses números escondem a mudança partidária de alguns parlamentares, que migraram para a base de apoio a Cid Gomes (como Fernando Hugo) ou para outros partidos (como João Jaime), ou mesmo, o mais importante, as consequências da saída do comando do poder estadual para um partido que, por tanto tempo, dominou a máquina pública e vê-se sem ter o que oferecer a parlamentares, prefeitos e bases eleitorais em troca de apoio. Rei posto, rei morto, diz o ditado. Sem sombra da luz do trono não se consegue reunir “amigos”.

O PSDB tentou retornar, diretamente, ao governo em 2010 (Marcos Cals) e 2018 (General); e indiretamente em 2014 (apoiando Eunício Oliveira). Em nenhuma obteve êxito. Ainda na corrida eleitoral deste ano, foi ele o maior responsável pela retirada do nome de Capitão Wagner da disputa pelo governo, ao vetar qualquer possibilidade deste pedir votos para Bolsonaro. O capitão sobrevalorizou o apoio de Tasso, o que parece ter sido um erro, uma vez ter-se saído como o deputado federal mais votado, levando consigo outro eleito e ainda colaborando, sobremaneira, para a vitória de Eduardo Girão.

Ao comando da capital, viu suas empreitadas frustradas em 2004 (Cambraia), 2008 (como vice de Patrícia), 2012 (Marcos Cals) e 2016 (como vice de Wagner).

Tasso foi listado entre os senadores que mais cerraram oposição durante os governos de Lula e, por isso mesmo, foi representado como um dos inimigos a se abater, fazendo-o incorporar, junto com o PSDB, aquilo que deveria ser alijado da cena pública. E assim foi feito no Ceará, um dos estados que mais concentraram votos a Lula, Dilma e Haddad.

O partido, que foi o maior perdedor estadual durante a era de ouro do “lulismo”, saiu das urnas de 2014 com a vitória de Tasso ao Senado, com Raimundo Matos na Câmara e Carlos Matos na Assembleia. Era de se esperar que, sob o espectro do antipetismo, pudesse capitalizar uma certa vitória. Ledo engano: a derrota nacional do partido também se repetiu por aqui: seu candidato ao governo foi derrotado (amealhou apenas 11% dos votos), sua candidata ao Senado, que usava o mesmo número de Tasso (456) perdeu duas vezes (não conseguindo derrotar Eunício e perdendo para um “desconhecido sem padrinho político”, Girão, ficando, também com 11% dos votos), os dois nomes que ocupavam cargos legislativos (Raimundo e Carlos) foram derrotados e os nomes eleitos para a Câmara (Roberto Pessoa) e para a Assembleia (Fernanda Pessoa e Nelinho) são nomes sem ligação histórica com Tasso e, por isso mesmo, sem identificação com o partido. Roberto, como ex-prefeito de Maracanaú, tem seu próprio capital político, do qual Fernanda (já com um mandato de deputada estadual) é herdeira, e Nelinho construiu-se como liderança no setor empresarial.

Longe do poder estadual, situação na qual permanecerá pelos próximos quatro anos, o PSDB viu sua capilaridade minguar e a influência de seu líder maior (e único), também, o que sinaliza uma recomposição das bases eleitorais no estado.

As recentes nomeações dos dois principais nomes do partido derrotados na última eleição (Mayra e Theophilo) podem vir a recompor os quadros do partido no Ceará, e fazer, sobretudo de Mayra, uma nova liderança, com perfil bastante distinto do de Tasso. Mas isso é outro assunto.

Eleitoralmente, não “resta” muita coisa ao PSDB. Apenas 4 nomes, de um partido que hegemonizou a política cearense. Frente a novos nomes advindos das urnas (sobretudo, o de Wagner) e com a derrota de Eunício, o partido parece ter sido, também aqui, tragado pela onde em torno da suposta “novidade”.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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