O que quer o PSDB?

Eu não sei o(a) leitor(a) mas eu tenho dificuldades de entender o que o atual PSDB quer fazer politicamente.Antes dominante na centro-direita,importante e grande rival do PT, hoje apenas mais ajuntamento eleitoral que nada diz e até um dia desses surfou na onda Bolsonaro que se mostrou um verdadeiro tsunami contra a democracia brasileira, o partido me parece uma caricatura de si mesmo, preso num passado que não volta mais.O que quer? este texto busca refletir sobre esta pergunta, sem ter muitas respostas.

O partido nasceu no fim dos anos 80 surfando na onda da redemocratização e buscando ser uma espécie de terceira via no Brasil. Neste caso o rótulo terceira via era referente à corrente teórica e política que visava, sobretudo na Europa Ocidental, renovar a social-democracia e ocupar uma posição que pode ser definida como a esquerda do centro, como teorizou o Anthony Giddens[1]. Exemplo disso é o fato de Fernando Henrique Cardoso ter elogiado a terceira via na contracapa da publicação da editora Record do livro ”A terceira via e seus críticos” de Giddens[2]. A massificação e o sucesso eleitoral do PT, que ocupou a esquerda e a centro-esquerda de forma incontestável, fez com que os tucanos migrasem para a direita defendendo ajuste fiscal, reformas estatais e privatizações, eleitoralmente esta estratégia foi bem sucedida já que a sigla conseguiu se solidificar como a nêmesis do partido dos trabalhadores.

PT vs PSDB virou sinônimo de polarização, ”Fla-Flu” eleitoral. O eleitor de classe média com uma visão próxima do liberalismo econômico e rejeição ao petismo tinha uma certeza; em algum momento confirmaria o 45 na urna eletrônica.

As derrotas eleitorais presidenciais em 2002 (Lula ganha de Serra) 2006( Lula ganha de Alckimin) 2010 (Dilma vence Serra) e 2014 ( Dilma derrota Aécio), foram duros golpes, mas o partido mantinha a sua força e influência, conseguia governar São Paulo por décadas e ostentava uma boa base no Câmara e no Senado. Porém, o inverno estava chegando. Simbolicamente a ascensão de uma direita militante, ideológica e teoricamente preparada para defender suas ideias, constituindo o que Camila Rocha[3] definiu como a ”nova direita brasileira” que é ”ultraliberal-conservadora”, representou uma grande derrota para o partido que sofria com a pecha de ”neoliberal” atribuída pelo PT. Surge uma direita orgânica, que cria grupos de estudos de seus autores favoritos e lança textos e vídeos nas redes sociais, que em geral não quer nenhum vínculo com os tucanos e em alguns casos os rejeita como ”esquerdistas” e ”mais do mesmo”.

O governo Temer ocupou um espaço político que era historicamente tucano. A gestão de Michel Temer focou em políticas de austeridade e reformas e PECs de cunho liberal, ora, nada mais do que o PSDB prometia e sonhava desde muito tempo.Se o governo do momento faz exatamente aquilo que o antigo grande partido de centro direita prometia, qual a razão de existência desde partido? por que os eleitores votariam nele novamente? estas perguntas podem ter influênciado o raciocínio de várias pessoas que abandonaram o 45 pelo 17 na eleição presidência de 2018.Geraldo Alckimin, o candidato com mais tempo de televisão, prometia para o futuro…exatamente o que Michel Temer já realizava no presente!João Doria parece ter notado esta contradição ao apoiar o então candidato do PSL desde o primeiro turno.

A eleição de Jair Bolsonaro se configurou como mais uma derrota para os peessedebistas, Bolsonaro que já dominava incondicionalmente o campo da direita radical (principalmente nas redes sociais e no Youtube) agregou para sí a direita moderada, que antigamente ia de 45. O ninho tucano ficou dividido, incendiado e reduzido aos farrapos pelo novo predador que era tido como aliado na luta contra o antigo rival de fauna.O mundo animal, assim como o mundo político, é implacável com quem faz escolhas ruins.

Atualmente, Eduardo Leite e João Doria romperam com o bolsonarismo e ficaram pé numa oposição pública ao governo Bolsonaro, Tasso Jereissati é um significativo crítico do presidente no Senado.Essas medidas fizeram com que o partido voltasse a ter relevância e saísse um pouco da inércia. Apesar disso, deputados federais do partido continuam votando com o governo em várias pautas no Congresso Nacional. Fica claro que para se firmar novamente como um quadro relevante para a política nacional os tucanos precisam definir o que querem, evitando contradições e divisões internas.

O antigo ensinamento grego ”conhece-ti a ti mesmo” por vezes se adequa a partidos.

Referências
[1]GIDDENS,A, A terceira via: Reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia.Rio de Janeiro:Record,1999.
[2]GIDDENS,A.A terceira via e seus críticos.Rio de Janeiro:Record,2001.
[3]ROCHA,C. ”Menos Marx, mais Mises” uma gêneses da nova direita brasileira (2006-2018) Tese(Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,Departamento de Ciência Política,São Paulo,2018.

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.