O PRIMEIRO CATECISMO NAZISTA, por Alexandre Aragåo de Albuquerque

​​Enquanto observamos as novidades desta semana no panorama político nacional, com a desastrosa viagem do presidente da República a Dallas (EUA), na qual insultou de forma rasteira, em vídeo amplamente divulgado pelas redes sociais, jornalistas que faziam a cobertura de sua agenda, além de agredir raivosamente milhões de manifestantes em todo o Brasil contra o corte de 30% das verbas para as universidades federais; acompanhamos o avanço das investigações sobre as suspeitas ações financeiras do filho do Presidente, Flávio, denunciadas pelo COAF; e surpreendemo-nos com a inconstitucionalidade da publicação do decreto (mais um decreto) 9.794/2019 que concede plenos poderes à Secretaria de Governo da Presidência da República para vetar ou aprovar a escolha realizada em eleição direta dos dirigentes máximos de instituições federais de ensino superior, contrariando o que dispõe o artigo 207 da Constituição Federal que confere às universidades brasileiras a autonomia didático-científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial, em mais uma tentativa de retrocesso institucional de nossa democracia, concluímos a leitura de alguns livros que tratam de política para continuar buscando entender o tempo presente brasileiro.

Achamos muito sintomático as primeiras linhas do livro Mein Kampf (Minha Luta) escrito por Adolf Hitler durante o tempo em que estava na prisão de Landsberg, na Baviera, após o fracasso de uma tentativa de golpe de estado em Munique, em 1923: é uma busca de divinização de si mesmo. Ele se define como um “homem escolhido pelo Céu para proclamar a vontade do Criador”.

Ao entrar para a política, após algumas derrotas na área profissional, Hitler expõe uma linha de pensamento fundada na convicção de que o triunfo no campo político só pertence a quem é brutal e intolerante: “a massa humana é semelhante a uma mulher que se submete ao homem forte, inflexível, fanático, que causa medo e aterroriza”. Portanto, uma política baseada no terror. Ele localiza o mal supremo em um tipo particular, o judeu, e nas obras por ele desenvolvidas: judaísmo e marxismo, doutrinas forjadas por judeus para estabelecer o domínio dos judeus sobre todos os povos. Tais doutrinas, segundo o ditador, ameaçavam a própria existência do povo alemão.

Entre os pontos programáticos por ele definidos está a reforma profunda de todo o sistema educacional, com a ideia do Estado inculcada na base escolar, buscando desenvolver corpos perfeitamente sadios e formando o caráter sólido em todos os estudantes, pois o Reich precisa de militares combatentes e não de intelectuais. A Ideia-Mãe, núcleo central do idealismo nazista a ser implantado na cabeça dos jovens, é a da Raça: “é preciso que nenhum rapaz ou nenhuma moça deixe a escola sem ter chegado ao perfeito conhecimento do que é a pureza do sangue. A própria alma da Raça deverá palpitar em cada alma individual”. Para Hitler, “a mestiçagem é um pecado supremo contra a vontade do Criador, a perda da pureza do sangue destrói para sempre a felicidade interior, rebaixando o homem para sempre. Desse ponto de vista, as Igrejas cristãs ofenderam gravemente a obra do Criador, tolerando matrimônios mistos, lepra moral e física. O dever fundamental das Igrejas cristãs é o de velar pela salvação do homem ariano”.

Sua concepção de Estado não é liberal. Para ele, o Estado nazista possui uma missão. É antiliberal, antiparlamentar, anti-partidário. É um Estado fundado sob o princípio e a mística do Condutor (Führer) e cujo motor é o partido-único, intermediário entre as massas e o Chefe. É um estado radicalmente anti-igualitário e hierárquico, obstinado em tornar agressivamente nacionalistas as massas humanas alemãs. Uma das ferramentas para se atingir esse objetivo é a Propaganda. Ela deve fustigar a alma da multidão, alavancando o fanatismo, visando a desenvolver uma violência histérica, dirigindo-se não tanto ao cérebro, mas aos sentimentos da massa humana.
Por fim, uma das missões mais importantes do Estado nazista alemão é a de “velar para que cesse absolutamente qualquer nova mestiçagem geradora de monstros intermediários entre o homem e o macaco. O Estado racista procederá de modo que só o indivíduo são possa procriar; dos outros suprimirá materialmente (esterilização) a faculdade de se reproduzir”.

Essa leitura nos deu a possibilidade de entender um pouco mais o Brasil do tempo presente. Deixando-nos apreensivos. Os crimes hediondos contra a humanidade cometidos pelo nazismo alemão não podem ser esquecidos jamais. Não se pode brincar com este tipo de ideologia. Com ela não se compactua. Não há meio termo.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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2 comentários

  1. Paulo Menezes

    Paulo Menezes

    Descrição incisiva e bem posta do perfil de um ditador em processo. De uma condenação de cinco anos, Hitler mal cumpriu cinco meses de sentença. Insultou os juízes que o condenaram, desmoralizou o judiciário, ganhou visibilidade, fez maioria no Bundenstag e foi designado Chanceler. Mussolini já fizera o mesmo trajeto. Essa figura de Salvador não é estranha a nós brasileiros. Vargas, Collor, Lula, Dilma e Bolsonaro fizeram a mesma caminhada. Outros virão. Ou retornarão. Ou não.

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      ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE

      Agradeço o comentário, prezado professor Paulo Menezes, que vem enriquecer nosso esforço reflexivo em busca do entendimento do tempo presente. Aproveito para acrescentar, por obrigação histórica e rigor intelectual, que tivemos de fato em nossa história recente governantes que ditaram o poder com base em instrumentos autoritários tais como a Doutrina de Segurança Nacional, os Atos Institucionais 1 – 2 – 3 – 4 e 5, a Lei Falcão, o Decreto 477, os Senadores biônicos, além de aparelhos repressivos em plena atuação como os DOPS e os DOI-CODI. Foram eles: o Marechal Castelo Branco e os Generais Costa e Silva, Emílio Médici e Ernesto Geisel.

      ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE