O Poeta Lobo Manso – DIMAS MACEDO

Antônio Lobo de Macedo (ou Lobo Manso, pseudônimo literário que o imortalizou) nasceu no Sítio Calabaço, município de Lavras da Mangabeira (CE), aos 29 de julho de 1888, e faleceu na mesma localidade, aos 20 de abril de 1960. Filho de Maria Joaquina da Cruz e do capitão Joaquim Lobo de Macedo, membro da Guarda Nacional da Comarca de Lavras.

 

Aspirou, quando jovem, à carreira das armas, mas o destino o fez agricultor e poeta, destacando-se, também, como líder político, vereador à Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira e cidadão de vida laboriosa e exemplar.
Versejou durante toda a existência, publicou diversos folhetos de cordel, e a sua produção literária adquiriu, com o tempo, impressionante relevância, sendo conhecido, hoje, como um dos produtores de cultura de maior destaque do seu município.

 

A ressonância da sua linguagem poética e a temática que abordou em sua obra literária fizeram de Antônio Lobo de Macedo um nome bastante conhecido, sendo de registrar que dois de seus filhos se fizeram escritores e patronos da Academia Lavrense de Letras: o historiador Joaryvar Macedo e o poeta José Zito de Macedo (Zito Lobo), pai, este último, do poeta, jurista e escritor Dimas Macedo.

 

José Lobo de Macedo ou Joary Lobo, que enveredou, em Lavras da Mangabeira, pelos caminhos da política, era outro filho do poeta que muito valorizou a poesia popular, acolhendo, em sua terra e nos recessos da sua residência, grandes cantadores de viola, do porte de Geraldo Amâncio, Otacílio Batista, Lourival Vilanova, José Laurentino e Oliveira de Panelas.
Ao lado do Padre Mundoca, João Ludgero Sobreira, José Gonçalves Linhares e Alexandre Benício Leite, Antônio Lobo de Macedo foi um dos líderes da oposição política em sua terra, fazendo fileiras na Aliança Liberal e em outros movimentos de democratização do município, destacando-se pela bravura e o destemor das suas convicções ideológicas.

 

Teve papel relevante, em Lavras, quando do ensejo da Revolução de 30, distinguindo-se qual o seu panfletário mais conhecido. Fez-se amigo e correligionário de Juarez e de Fernandes Távora e acolheu Virgílio em sua residência, no Sítio Calabaço. Era um tavorista convicto e um militante da UDN dos mais qualificados.

 

Tornou-se admirado Lobo Manso pelos seus adversários políticos, especialmente pelos Drs. Vicente Augusto e Aloysio Férrer, tendo este último advogado, por ocasião de sua morte, que ele devia ser enterrado de pé, face à retidão e à nobreza do seu comportamento.

 

Escreveu poemas de fervor político e canções de cunho social e amoroso e, entre os folhetos de cordel por ele divulgados, podem ser enumerados: A Seca de Quinze (1917), A Revolta de Sousa (1930), Injeção de Cuspe (1936), O Garrote Misterioso (1944) e Poesias Contra os Profetas e Profecias da Chuva (1960).

 

Em seu município de origem, além da sua vivenda de campo, no sítio Calabaço, manteve residência na cidade de Lavras, na casa que herdara dos seus progenitores, na então Rua da Praia; e, tempos depois, fixou-se, com a mulher e os filhos do segundo casamento, em residência localizada na Travessa São Vicente.

 

Luís da Câmara Cascudo, expressão máxima do folclore brasileiro, escreveu sobre ele o seguinte: “com muita simpatia, fiz amizade com o sertanejo Lobo Manso, que além de manso, engolira toda uma revoada de curiós e canários pela legitimidade da inspiração e, sobretudo, o vocabulário autêntico, Sertão de Pedra e Sol onde me criei, trazendo a naturalidade espirituosa da observação, comunicada num encanto de espontaneidade estonteante”.
Além dos estudos biográficos, que lhe foram dedicados pelo filho escritor, Joaryvar Macedo, O Poeta Lobo Manso (1975) e Antônio Lobo de Macedo: O Homem e o Poeta (1988), podem ser consultados sobre ele os livros: Sol e Chuva – Ritos e Tradições (Brasília: Thesaurus, 1980), de Altimar Pimentel; Trovas e Poemas (Fortaleza: Oficina, 1990), de Zito Lobo; Lavras da Mangabeira – Um Marco Histórico (Fortaleza: Tiprogresso, 2004), de Rejane Augusto; O Hóspede das Eras (Fortaleza: Edições Aceite, 2005), de Aírton Maranhão; Profetas da Chuva (Fortaleza: Tempo e Imagem, 2006), de Karla Patrícia Holanda; Anjo ou Demônio – 33 Homenagens (Teresina: Ed. do Autor, 2008), de Homero Castelo Branco; Histórias dos Sítios Baixio e Calabaço (Lavras da Mangabeira, 2010), de Jomata Júnior; Academia Lavrense Cearense de Letras (Fortaleza: RDS, 2012), de Dias da Silva; e Venda Grande d’Aurora (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2012), de João Tavares Calixto Júnior.

 

No Dicionário de Termos e Expressões Populares (Fortaleza: Edições UFC, 1982), de Tomé Cabral Santos; na Antologia do Folclore Cearense (Fortaleza: Edições UFC, 1983), de Florival Seraine; e nos livros de Abelardo Montenegro O Ceará e o Profeta da Chuva (Fortaleza: BNB/UFC, 2008) e de Alberto Galeno Seca e Inverno nas “Experiências” dos Matutos Cearenses (Fortaleza: Coopcultura, 1998) o nome de Antônio Lobo de Macedo reluz pela expressividade da sua produção.

 

Mas não apenas nos livros acima referidos, pois em reportagens e artigos publicados nos jornais Correio Brasiliense, Folha de São Paulo, Tribuna do Ceará e Diário do Nordeste, acerca da sua personalidade ou das profecias por ele combatidas, podem ser observados os traços da sua figura cativante e da sua riqueza de poeta.
A folclorista Tetê Catalão, por exemplo, chamando-o de “repentista de cepa”, destaca a sua “verve inflamada e ferina da maior qualidade”; assegurando-nos Abdias Lima que esse conhecido poeta cearense “deixou poesias sertanejas que, indiscutivelmente, enriquecem o folclore do Nordeste”.

 

Para Reinaldo Carleial, “a leitura atenta dos seus versos convence-nos da imortal presença de um poeta popular, telúrico”. E acrescenta Carleial: “o remanescente da sua produção, pela variedade do metro e dos temas, é bastante para configurar um paradigma do folclore caririense”.

 

“Cáustico na sua iconoclastia”, Lobo Manso teria escrito, segundo Gilmar de Carvalho, o mais curioso folheto de cordel sobre a temática das profecias da chuva, especialmente, porque colocou o seu enfoque no “campo da predestinação, negando ao homem a capacidade, não de contrariar o criador, mas de se integrar à natureza, dialogar com os sinais e nos dar uma leitura mais rica da realidade na qual está inserido”.
Na opinião de Altimar Pimentel, expressa no seu livro já referido, “os versos de Lobo Manso revelam-se de grande interesse”, porque são “produtos da lógica e de uma mente valente e corajosa”; e também porque o seu autor “enfrentou a cadeia de velhas superstições universais sobre o prenúncio das águas pluviais”, segundo Sílvio Júlio de Albuquerque Lima.
Fernanda Mara Oliveira de Macedo Carneiro Pacobahyba, bisneta de Antônio Lobo, presta a esse grande poeta uma de suas homenagens, na sua tese de doutoramento em Direito, chamando-o de poeta sábio e sensível, que não deixa calar a sua ancestralidade, cabendo destacar, também, a opinião de Batista de Lima, que fez sua defesa em artigo que merece ser lido pelos seus descendentes.

 

Abelardo Montenegro chama-nos a atenção para a sua coragem de desbancar velhas tradições, e argumenta que “entre os folcloristas, há os que se preocupam, apenas, com o biótipo, a constituição temperamental do profeta da chuva; e há, também, os poetas do porte de Lobo Manso, que procuram ridicularizá-los”.

 

O certo é que a sua poesia se fez reconhecida em todo o Cariri, como quer Homero Castelo Branco no seu livro 33 Homenagens, registrando-se, aqui, que Antônio Lobo de Macedo, no seio de sua família, foi a maior representação do seu tempo, preservando, assim, a tradição dos seus ancestrais em todo o Município de Lavras.

 

Sócio Honorário (post-mortem) da Sociedade Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel, sediada em Salvador (BA), Lobo Manso figura como personagem do romance Os Búfalos de Campanário (Fortaleza: Livro Técnico, 2003), de Audifax Rios, que lhe pesquisou, por igual, a obra de poeta, em livro premiado pela FUNARTE – Fundação Nacional de Arte.

 

Lobo Manso conheceu mais regiões e municípios do Ceará do que se pode imaginar. Sabe-se hoje que, acompanhado do seu filho, Wilson Lobo de Macedo, também amante da poesia popular, esteve em Assaré, em visita ao poeta Patativa; e que compareceu a torneios de poesia para além da sua terra natal, tendo inclusive visitado Juvenal Galeno, em Fortaleza.

 

Orgulho-me de ser autor de duas resenhas sobre Antônio Lobo de Macêdo, meu avô paterno e um dos ícones maiores de toda a minha vida. Os estudos referidos encontram-se nos meus livros: Crítica Imperfeita (Fortaleza: Imprensa Universitária, 2001) e Ensaios e Perfis (Fortaleza: Premius, 2004).

 

As referências sobre Lobo Manso, em todos os sentidos, são as melhores que se podem colher, tendo em vista o patrimônio ético e humano por ele semeado na velha Princesa do Salgado, não se podendo esquecer, aqui, as suas habilidades de mediador de questões conflituosas e de agente arbitral do Poder Judiciário.

 

Em Lavras, se houve Lobo Manso como agrimensor, praticante da ciência médica, inventariante e membro do Tribunal do Júri, honrando, também, a Câmara Municipal de sua terra e a memória histórica da sua família que, com dignidade, sempre defendeu.
Líder carismático e religioso da Paróquia de Lavras, com ressonância em toda a região, Lobo Manso foi integrante da Irmandade do Santíssimo Sacramento e da Conferência de São Vicente de Paulo, junto à Igreja de São Vicente Ferrer.

 

O que o distinguia, no entanto, era o ser humano que nele se fazia em grau de relevância e de serviço ao próximo, a todas as coisas se doando, com a prontidão e o amor de quem nasceu para servir.

In A Brisa do Salgado
Fortaleza: Editora Imprece, 2011

Dimas Macedo

Dimas Macedo

Poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

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