O PL DA MULHER COISIFICADA

De vez em quando, uma se separa do grupo. Já não sorri, já não tagarela… já não exerce o seu complexo de Cinderela, próprio da idade… já não desce ao rebuliço do pátio… Formas alteradas, olhar mortiço, unhas roídas até a carne; alheia a tudo principalmente às aulas, sua imagem de adolescente virou um espelho estilhaçado…. Solidárias, algumas amigas fazem rodinha em torno dela…. Tudo em vão. O que lhe resta agora é um canto de sala.
Tateando sensibilidades, o calejado professor, (para quem tudo é texto), pode ler como se fora numa tabuleta: GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA (A CRISE DENTRO DA CRISE) … Como dádiva da Providência, em toda escola, há sempre docentes docemente maternais. Só elas podem ter acesso; somente elas podem promover alguma calmaria naquele redemoinho de emoções.

A cena supra descrita foi uma constante na minha rotina de professor da rede pública na periferia… E por que tal não presenciei, nas escolas de alto padrão aquisitivo, por onde também passei?…

Quem queima etapas no olhar, quem não desce ao “é da coisa” de Clarice Lispector há de imaginar que a periferia seja um antro de promiscuidade e que, nos bairros de classe média, as meninas sejam mais pudicas, por receberem os tradicionais valores da família brasileira.

Triste ilusão, pois os valores cristãos e os tabus quanto ao sexo, antes do casamento, estão presentes em toda parte… O diferencial está na orientação e nos cuidados médicos para que a gravidez não se estabeleça…. Mais a mais, a extrema direita, secundada por correntes religiosas, tem promovido um verdadeiro boicote à educação sexual nas escolas. Tal retrocesso recai penosamente sobre o sexo seguro e sobre a saúde reprodutiva da sociedade brasileira.
Ora, se para uma mulher financeiramente emancipada, com suporte do parceiro e apoio da família, a gravidez já traz ansiedade e incerteza, imagine-se o estado emocional de uma adolescente que, por descuido, impulso ou sujeição, de repente se pegue grávida. De fato, é um pular de etapa: a menina mal começa a receber da natureza as graças adolescentes e logo se transforma numa mulher buchuda.
Aí, como o “Perdigão” de Camões “não há mal que lhe não venha”: o parceiro, que queria uma mulher para curtir, não quer filho para criar. Para a família é a maçã podre que contamina todo o resto; culpada por trazer para dentro de casa aquele tão nordestino “desgosto de filha”. … E tudo sairá pelo pior, se aprovado o tal “PL do estuprador”, porque aí será duramente castigada pela lei, em caso de aborto. É nesse contexto que surge o PL do pastor (deputado) Sóstenes, infame em múltiplas dimensões, inclusive no propósito: segundo ele, o seu projeto de lei visa a testar o Lula. De fato, o esforço de Sóstenes é para imprimir uma etiqueta de abortista na fronte do presidente. Desse modo, ele nem disfarça o escopo político de sua empreitada…. Enfim, este o valor que a extrema direita atribui à autodeterminação da mulher brasileira: um teste, um termômetro político-eleitoral.

Sóstenes arrasta certa tradição do macho ocidental (quiçá universal), para quem, o ventre da mulher é apenas uma mala de carregar neném. Fora disso, é só culpa, pecado e maldição…. Foi com esse desiderato que as nossas avós portuguesas, requisitadas pelos jesuítas, aqui aportaram. E, neste “quinto dos internos”, (ainda que, como ambiente natural não fosse, mas por ambientação social, sim), elas recebiam um macho como punição pelos eventuais crimes de além-mar. Aí, tristes, oprimidas, acabrunhadas…era só deixarem ranger o catre e despejarem meninos na tradicional família cristã.

Quando o pastor Sóstenes propõe 20 anos de prisão para a jovens estuprada, que venha a praticar o aborto, e omite o homem, nessa relação, ele está retrocedendo, num salto milenar, ao Velho Testamento, pois, desde os tempos adâmicos, quando se quer moralizar sobre costumes, todas as restrições recaem durante sobre as mulheres.

Para quem leu o ensaio “Ser Mulher” da escritora Ana Miranda, torna-se inescapável fazer uma relação com o PL do aborto. No texto, Ana critica a discriminação de gênero promovida pela religião e pelo estado, como uma união deletéria, com óbices adicionais à plenitude do ser feminino, pois elas ainda carregam os velhos anátemas da “saliva da serpente, do dardo do demônio, da peste das pestes…”, enfim um ser que aninha a perfídia no seio. Pois chora e ri quando quer…

Mas, diante de tanta opressão, submetidas a verdadeiros tribunais domésticos: “Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”… Caetano não lhes tira a razão.

Mas será que, depois de Nísia Floresta, Patrícia Galvão (a Pagu), Mietta Santiago, Chiquinha Gonzaga, Leila Diniz e tantas outras que ousaram desafiar o mando dos machos, ainda se vai permitir o retrocesso de Sóstenes?
As igrejas evangélicas adentram a periferia e levam pela mão uma corrente política retrógrada, que se utiliza do terrorismo moral para exercer o domínio sobre os fiéis. Nesse quadro, qualquer iniciativa de educação sexual é rechaçada, silenciada como pedagogia imoral, ofensiva aos valores cristãos…. Assim a garotada fica à mercê do desconhecido. E o silêncio é sempre um mau conselheiro para coisas sérias.

Foi sob o manto do silêncio que a Igreja Católica, (com denúncias de abusos sexuais), contraiu sua maior nódoa, desde a Inquisição. E é sob a calmaria desse mesmo manto que, vez por outra, deixam-se escapar histórias de genitálias ungidas e de afogueamentos incontidos no seio de certas igrejas evangélicas.

Apesar de não me convir aconselhar a quem, por força do ofício, deveria aconselhar-me, vai uma sugestão:
Por que, em vez de se porem a “lacrar” sobre o aborto e a moralizar sobre a vida sexual das pessoas, os senhores não abrem um espaço nas suas pregações para alertar os fiéis contra a lábia dos abusadores sexuais, ainda que se digam religiosos e protegidos de Deus?…
Mas isso os senhores não fazem, porque não rende dividendos financeiros e eleitorais. Isso os senhores não fazem, porque poderia parecer papo de esquerdista, comunista… Não fazem, porque seria didático… E os senhores apostam na confusão; no caminho fácil das “lacrações” das redes sociais. Para os senhores, calha melhor apostar na hipocrisia do adúltero, que berra contra o aborto, mas leva a amante pelo braço para praticá-lo.

Ora! E não é que assim se deu com o patrono da nova ordem: “Deus, pátria e família”!… Pois é, o tal Zero Quatro de Bolsonaro só veio à luz porque a mãe resistiu. O garoto teve sorte. Fosse ela uma mulher humilde, fragilizada; ele não teria dado o ar da graça neste mundo. E o motivo nada teria a ver com o previsto em lei. Bolsonaro só não queria ficar mal em casa por contrair uma amante. De sorte que, se Sóstenes está à cata de abortista, nem precisa sair do seu próprio campo político.

Quando alguém me pergunta se sou favorável ao aborto, a minha resposta é um rotundo NÃO!… Ocorre que existem as escolhas médicas, e elas são dilemáticas. Daí a necessidade de um debate acurado e sério, por isso não pode vir de afogadilho, com ares de oportunismo político.
A caminhada da civilização promove encontros com desafios. Se tudo girasse conforme o estado de natureza, não haveria a necessidade de instituições… (nem mesmo do Congresso de Lira e Sóstenes) …Era só: engravidou, pariu e pronto!

Ocorre que as mulheres não são e nem podem ser tomadas como invólucros insensíveis, onde se possa pôr a germinar o sêmen de um estuprador. Daí o absurdo de se levar a votação em regime de urgência um projeto tão delicado, ainda que se apresente uma parlamentar como relatora.
Quem disse que não há mulheres machistas, assim como negros racistas e gays homofóbicos?… Entregasse o destino desse país aos desígnios de uma Damares, de uma Michelle, e elas transformariam isso aqui numa teocracia evangélica, a ombrear, em termo de costumes, com o pior dos califados árabes, com muita “pedra”, com muita “bosta” nas Genis esquerdistas, feministas. Exceto nelas mesmas, porque se auto definem como limpinhas e cheirosas… O ódio não tem gênero.

Quanto às estudantes, sujeitas a roerem as unhas, até sangrar, no desamparo de uma gravidez precoce, receberiam apenas, vez por outra, visita de um troglodita da escola sem partido para silenciarem os professores.
Então, Sóstenes, tu jogas o jogo dos oportunistas. Qualquer que seja o resultado do teu PL, tu terás feito o teu marketing político, em cima do corpo feminino. O teu projeto soa como salvaguarda ao macho inoculador de sêmen com o mesmo sem-compromisso dos cães e gatos vadios, porque tu e teus pares não conseguem enxergar as mulheres como seres humanos plenos…. Resta saber se elas vão dar esse salto no tempo, em direção aos tempos bíblicos, para (em função de um simples mover de olhos) virarem estátua de sal, como a mulher de Ló.

Francisco das Chagas Oliveira Macedo

Francisco das Chagas Oliveira Macedo (Prof. Macedo) nasceu em Picos, sertão do Piauí, em 1960. Graduado em Letras pela UFPI, leciona língua portuguesa e literatura, nas redes pública e privada, em Teresina.