O PESSIMISMO É UMA FORMA DE ESPERANÇA: AFINAL, PODERIA SER MUITO PIOR

O Coronavírus veio para demonstrar politicamente que o Estado não perdeu o seu papel em uma economia globalizada. Poderia, até mesmo, abusar um pouco mais dos seus poderes relativos.

O que parece insustentável e indesejável é que o poder do Estado e os aparelhos de governo estejam sob controle de tribos políticas, em nome de ideologias vagas e imprecisas.

A luta de classes tão festejada pelos fundadores marxistas como estratégia de assalto ao poder transformou-se em um jeitoso confronto entre agentes políticos e o que chamamos vagamente de povo. Fala-se em “movimentos sociais”, “campos dominantes”, “coletivos”, menos em classe operária, presentes as novas categorias dos “sem teto”, “sem empregos”, os que padecem e parece terem perdido o potencial de luta.

Foi-se a luta de classes. Sobreviveu o enfrentamento das corporações, das tribos maiores.

As corporações modernas não estão confinadas às lutas e as reivindicações de classes, como se pretendeu no passado. Elas são mais poderosas, assumem papéis políticos e econômicos com elevado pode de fogo. Encaram, enfrentam e imobilizam o governo e reduzem
O poder constitucional do Estado.

O Estado deverá ser internado, constitucionalmente, em um território de formato democrático bem traçado, dotado de governo apto, com competências bem fixadas, com poderes e condições definidas em função de propósitos sociais claros. Mandato e representação são os condutores dessa enorme energia coletiva canalizada pelo governo. O governo do Estado, parafraseando Clemenceau, é uma função muito importante para ser entregue aos políticos. (Clemenceau ajuizava por conta própria que a guerra era uma decisão muito séria “para ser entregue a generais”).

O Estado não pode transformar-se em um reduto de interesses de grupos políticos ou econômicos. E, como fosse assim tão pouco, dominado pelos atores, por vezes ou quase sempre ineptos e corrompidos.

A devastação trazida pela pandemia, em face da inépcia dos governos, da corrupção que os domina, da descrença na ciência e no apego a motivações de fé e hábitos ultrapassados, aponta para desdobramentos imprevisíveis e trágicos.

A caridade solidária do “vai passar” encoraja as pessoas em desespero, mas não reduz os riscos e ameaças identificados.

Os erros das políticas sanitárias dos governos se repetem, a desorganização não encontra controle sequer “manu militari”.

A nossa cultura “desorganizadora” é maior do que imaginávamos pudesse ser. Nestes novos tempos assustadores, de tantos equívocos teóricos e cognitivos, pedir ordem e organização para as ações de interesse coletivo é um propósito suspeito, incompatível como as nossas crenças e valores em
uma democracia em um estado de direito…

A ignorância impõe-se à razão.

O povo, recolhido às aglomerações, que as populações não têm como viver de outra forma, multiplica as possibilidades de contágio.

Entramos em uma segunda onda fatal de novas estatísticas estarrecedoras.

Enquanto isso, estatísticos disciplinados, e mais os ditos “influenciadores”
da mídia, os políticos e setores
“técnicos” do governo se engalfinham com os seus palpites e trazem a dúvida, o medo e o horror à população que já se contenta em recorrer às suas tradicionais abluções de fé. Afinal, a terra é plana.

A Europa, familiarizada há mais tempo com o conceito de Estado (afinal o Estado é uma criação europeia) entrou na terceira onda covidiana.

Enquanto o Brasil negocia a compra de vacinas e empurra o seu pesado aparelho de acreditação a aceitar as que vão surgindo a cada dia, para a segunda onda, nenhuma medida foi adotada para a terceira onda — o que fazer para prever o aprovisionamento de vacinas e a vacinação rápida, em 2022.

Com qual otimismo poderemos trabalhar?

O corporativismo entrou finalmente em cena e começam a ser revistos os critérios de prioridade para a vacinação de grupos chamados de risco.

Sindicatos, a mídia onisciente, categorias eminentes de profissionais que se autoproclamam “do Estado” determinaram quais as precedências: o ministério público, juízes de todas as instâncias, caminhoneiros, policiais, a população carcerária, as forças armadas, motoristas de ônibus, aeroviários, cuidadores de animais e de idosos, cientistas…

Há muitos anos, quando pessoas como nós eram adolescentes, houve uma lei que eximiu do imposto de renda os militares, juízes, professores, o clero, as igrejas, os profissionais liberais e, adivinhem — os jornalistas.

Para concluir. Como não sermos céticos, pessimistas em situações tão confusas quanto estas a que assistimos?

Quem sabe poderemos recorrer, sempre, afirmativamente, aos bons serviços de uma benzedeira bem dotada de fluidos e emanações espirituais.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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