O Paradigma: Entropia – Por Raquel Catunda

Olhos humanos espreitam o inefável, dão luz a significados breves e fazem chover onde a natureza disse que não. Duas linhas de vida em crescente paralela, que seguiam por rumos distintos, coincidem-se no mesmo ponto como avaliava a probabilidade entrópica de 1 para o Infinito, na curva da linha temporal. Aquele encontro se deu ali, reconheciam com entusiasmo a afinidade já abençoada pelos milenares signos do zodíaco, avistados ora em imagens, entre pontos e retas, num céu que era antes somente de longínquas e prosaicas estrelas. Encontraram-se no mesmo multiverso, Que sorte! Mas não foi nada disso que ela disse: 

– Mais um alarme falso do fim do mundo. – Encobria no tédio sua genuína frustração com o fato. 

– Vamos ter que esperar o evento do Cataclísma Solar. Ou é preciso reverter a entropia. – Ele falou.

Tudo o que conhecemos é imanentemente finito e temporalmente impermanente. Por isso, não se pode reverter a entropia, ela sabia. Mas não era assunto digno de um primeiro encontro.  Então respondeu pela tangente: 

– Você conhece a história do primeiro alquimista que tentou trazer a mãe de volta a vida a partir da combinação das moléculas que constituem a matéria humana? 

– Matéria! – Riram. 

Ela sempre teve medo de baratas, principalmente as que voam e são imprevisíveis. Por outro lado, é insensato o fato de que ela deixava as pequeninitas sobreviverem, pois não faziam mal a ninguém. A despeito do abismo conceitual, comparava as baratas ao como o amor, analisa, acha choco no começo, i-no-fen-sivo, quando nos damos conta, ele já cresceu ao ponto de nos tirar fugidos de dentro da nossa própria casa. Frente aos encantamentos eufóricos dos primeiros desvelos do universo do outro, a moça desconsiderava prontamente todo o seu conhecimento prévio sobre o crescimento natural de filhotes de baratas, até porque agora, que o mundo não se acabou, tal entendimento assumia ainda menor relevância.          

– Ele falhou em discernir o movimento temporal anti-entrópico. Aí ficou só a sopa cósmica mesmo lá, sem virar gente, exigindo uma compensação energética, ou coisa assim. Percebe que nem a magia é capaz de dar conta de reverter a entropia? – Ela insistia, infantilmente, que o caminho deveria ser reestabelecer o sentido permanente das coisas.  

– Tudo o que conhecemos tende a sumir, o que é vivo morre, a energia se dispersa, até o sol deixará de existir um dia. Absolutamente nada que conhecemos permanecerá para sempre, nada que significamos ou ignoramos na natureza, dos afetos aos fatos, tudo se transformará e deixará de ser. – Ô maravilha! – Pode não ter sido hoje, mas o nosso planeta, como tudo, também sucumbirá. – Ele continuou. 

– Isso porque nenhum alquimista, até agora, conseguiu palpar a energia motriz universal. Que, seja lá como ela for, tá em tudo, de dentro do corpo humano até no movimento da água que carrega a pedra de cascalho rio a baixo.  

– Por que será então que a vaca não é feita de grama compactada? 

Em tantos multiversos que poderíamos estar, em meio a tantas versões de nós que poderíamos ser: o Encontro. Tudo se transforma por conta da entropia, até as fezes da vaca podem virar alimento para o solo e depois para as plantas que alimentarão de novo a vaca; o cadáver da vaca, dentro do animal carnívoro, já não é vaca, nem muito menos grama, pode até ser Homem! A entropia destrói, ao passo que constrói outra coisa, em movimento continuo.  

– Pra congelar a entropia, seria preciso suprimir o Tempo da equação da existência. Aí grama continuaria a ser grama e a vaca continuaria a ser somente uma vaca. – Inquieta, insistia em perseguir o imutável.

– Faminta, por sinal. 

  A tal Energia Motriz Universal, terminologia fundamental para a compreensão astrofísica da vida, criada tão somente agora, no recente ato de fala, propiciava o encontro de risos e olhares dos jovens enamorados, cujo plano de fundo estampava ignóbil o fato de que o universo segue em desordem, porque o mundo não se acabou e foi deixado, naquele dia, a baratinha viver. Uma chance em infinitas, e já se apiedavam em segredo dos outros eus que não se conheceriam nos demais multiveros. Já não eram os mesmos. Olhos humanos mergulhados no inefável trazem à luz significados cada vez mais leves, fazendo chover onde a probabilidade dizia que ‘já não era sem tempo’, pois, afinal de contas, seria um desleixo querer parar a entropia.  

Raquel Catunda Pereira

Raquel Catunda Pereira

Raquel Catunda Pereira é romancista, dramaturga e contista cearense premiada com as obras "Historia entre Mundos", Prêmio Rachel de Queiroz; "Espetáculo de Você", Concurso Jovens Dramaturgos" e "A Equilibrista", Coletânea de Contos Ideal Clube. A escritora é também Mestre em Literatura Comparada pela UFC e exerce atividades como educadora em escolas de Fortaleza.

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