O palhaço, o Circo e os outros, de RENATO ÂNGELO

Surge o palhaço
No centro do picadeiro
A platéia atônita
Trôpega de raiva e medo
E mesmo com esse sentimento
Tira o chapéu do palhaço
E põem-lhe a nova coroa

Em sua coroação não puderam faltar…
O banqueiro da cidade
O pistoleiro da cidade
O pastor da cidade
Todos sedentos de sua maldade

O palhaço, entretanto, nunca sorri
Mimetiza armas invisíveis
Tem o rosto funéreo
Sua face pintada a sangue
Olhar de fera, cabeça de bufão
Mas não carrega coração

Seu número
No centro do picadeiro
Não tem tortas na cara,
Mas tropeços e recuos
Vergonhas e venenos
Cospe na cara
Da professorinha da cidade
Aquela que o aplaudira
Desde a platéia-novidade

Não há cores no terno do palhaço
E pelas armas revela seu ódio
Contra dispersas cores
Que resistem a ver graça
Na desgraça de seu número

Só o Diabo sorria
Ao ver o palhaço
Armando crianças
Mas falando de Deus

E lhe falava, o Diabo:

“ – Palhacinho, palhacinho. . .
Tens o Cristo na fala
E Belzebu na cabeça
Tão depressa o povo te quis
Tão depressa que ele te esqueça!”

Mas ao palhaço lhe deram voz
E a voz nos foi calada
E ao palhaço lhe deram armas
E a paz nos foi tirada
E ao palhaço lhe deram dólar
E a pecúnia nos foi roubada
E ao palhaço lhe atribuíram saber
E a educação nos foi cortada
Ao palhaço lhe deram fuzil
E a cabeça do povo… ensangüentada
E ao palhaço lhe deram crédito
E a cidade, desacreditada
(em todas suas redondezas…
E mesmo outras distantes moradas)

Ao palhaço lhe deram uma corte
De “nobres” bufões de fachada
Também outros palhacinhos lhe seguiam
Atrapalhando ainda mais o número
Que de tanto atrapalho já ia
Que a platéia assustada não ria

O palhaço retorquia que era Nova Piada
O que certo, piada, não era!
Nem nova…
Nem nada…

Saíram da platéia, então
Revoltosas crianças
Daquelas que não usam pistola
Daquelas que se defendem com letras
Daquelas que têm livros como escudo
Usando suas palavras como lanças
Tomaram, de súbito, o picadeiro

E o palhaço sumiu!

Outras revoltas, entretanto, vieram
De outros palhaços ferozes também
Mas apoiando o primeiro palhaço
Alimentaram seus próprios algozes

Mas o palhaço sumiu!

No meio do protesto, porém
Com cínico sorriso na boca
O dono do circo em meio às coxias
Preparava, sinistro, sua nova jogada

– Trapezista? Mágico? Contorcionista?
Não! Não! Não!

Aquele que vem…
É o domador de leões!
Chicote nas mãos
E terror em seus olhos
Tratava agora a platéia
Como se de feras ela fosse formada

[ Bem longe dali
Da cadeia da cidade
Acenava, triste, o velho
Encantador de serpentes
Tão vilmente banido
Do espetáculo do circo ]

E tu, leitor?
Que papel jogas sob o peso dessa lona?
A lona que nos toma . . .
A lona que nos une . . .
Une a todos, mas não nos soma?

E tu, leitor?

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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