O Ovo da Serpente – ACKSON DANTAS

Ingmar Bergman em 1977 lançava ao mundo um de seus filmes emblemáticos. Com um olhar peculiar sobre um momento delicado da Alemanha, Bergman realiza um ensaio potencial e atemporal de como as coisas acontecem. De que forma uma sociedade se torna totalitária sem se dar conta. O Ovo da Serpente trata do início da Alemanha nazista, como as coisas vão ocorrendo e como a sociedade vai se acomodando a tais situações até o ponto da banalização do mal e a justificativa do mesmo pela perspectiva de algo maior.

Transpondo o universo realístico do filme para os dias atuais no país Brasil, semelhanças encontraremos aos montes. Fato mais que preocupante na história de um país tão manchado de sangue e violência. Obviamente não chegaremos a um estado fascista, tampouco a uma ditadura, não é possível caminhar a tal propósito aos olhos do mundo, sendo o Brasil um país importante na economia mundial. No entanto, e mais aterrorizante, é que o tecido social brasileiro apresenta rachaduras e inclinação para um reacionarismo, propositalmente alimentado por um personagem que, mesmo no topo, se comporta como delegado de departamento de polícia repressiva.

Os atuais pronunciamentos do presidente da República não diferem dos anteriores enquanto atuava como deputado. A violência e a falta de responsabilidade com a palavra sempre foram suas armas de combate para a permanência no poder público. O fato, si já perigoso, se torna ainda mais grave pelo cargo que ocupa.

Talvez Bolsonaro não tenha plena consciência de sua arquitetura, talvez aja pelo impulso e pelo entendimento de que foro privilegiado serve apenas para dizer o que quer e não ser culpabilizado por isso. No entanto, tais atos acabam por acirrar uma população dividida entre o ódio a um partido político e a esperança de dias melhores. Bolsonaro flerta com uma sociedade totalitária, e para isso apela para jargões populistas e conservadores, apostando na descrédito da política e no inflamado “discurso cristão”.

Aliado à sua profusão de impropriedades proferidas, o silêncio retumbante dos políticos e o pouco caso da grande mídia para tal comportamento alimentam ainda mais a parcela da sociedade que pretende caminhar no sentido do autoritarismo, da imposição, da violência de seus entendimentos sobre as minorias.

O silêncio político tem motivo – as tais reformas que tanto o mercado almeja. Reformas já compromissadas com empresários e bancos, sob a alegação de melhoria para a população. A imprensa se esquiva dos desatinos presidenciais pensando em como manter e, em alguns casos, ampliar seus patrimônios. Na maior parte, se presta a fazer coro sobre outros temas, redirecionando aquilo de grave que ocorre. Quando se manifesta, não deixa de ser um simples apresentar de notícia, sem análise, sem criticidade, sem profundidade. Poucos canais de comunicação se insurgem com a ideia de que agora o importante são as reformas e tudo é aceitável em nome delas.

Bolsonaro compreendeu, desde as eleições, a importância de manter as pessoas com atenção presa ao seu show. Nada muito diferente do que seu ídolo Trump costuma fazer. Todavia, o descalabro do presidente fustiga comportamentos instintivamente animalescos. Ele e sua turma ensaiam o fim do pudor e do respeito às leis.

Talvez as pessoas ainda não tenham percebido a gravidade do discurso, sim, do discurso. É no discurso que se movem as massas, ou não foi pelo discurso que ele foi eleito? Ou não está sendo pelo discurso que as pessoas começaram a aceitar passivamente proposições antes rechaçadas? O armamento, a aprovação da reforma da previdência, a desimportância para assassinato de pessoas de ideias contrárias, a ordeira aceitação do exorbitante aumento do desmatamento na Amazônia estão se tornando assuntos sem importância social, banalizaram-se.

Investir em desinformação, em desconhecimento, desalfabetização é um dos poucos projetos existentes no governo que obtiveram êxito até agora.  A população o consome, mesmo quem é contrário e repudia, ainda assim o consome. As horas a fio de confrontos nas redes sociais exemplificam isso.

É um momento grave e sutil, olhos atentos não perceberão o que está a caminho. Muitos alegarão termos instituições fortes e que é impossível uma nova ditadura. O perigoso é este discurso incutido na cabeça das pessoas que, de armas na mão, começam a acreditar serem os donos da razão e da verdade, donos do direito de acusar, julgar e executar a sentença. Mário Sérgio Cortella fala que em momentos graves há possibilidade de momentos grávidos e nisso tenho plena concordância, todavia a gravidez atual me parece muito perigosa e pouco altruísta. Será o ovo da serpente em gestação?

Ackson Dantas

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor em curso de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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