O olhar desmistificador de Lilia M. Schwarcz, por Álder Teixeira

Desde as incontornáveis contribuições de Erwin Panofsky, para quem “a arte é um objeto feito pelo homem que pede para ser experimentado esteticamente”, os avanços no campo da investigação artística têm sido consideráveis. Estabelecendo que a História da Arte engloba três momentos irredutíveis, a saber, a leitura da imagem na perspectiva fenomênica; a interpretação de seu significado iconográfico e a penetração de seu conteúdo fundamental como expressão de valores, o estudioso alemão abriu possibilidades de novas importantes contribuições, na linha do que fariam Mikel Dufrenne, a partir do seu magnífico Phénomélogie de l’expérience esthétique (ainda não traduzido para português) e, mais recentemente, George Didi-Huberman, com o desconcertante Diante da Imagem.

Divergências à parte, observando o que se tem produzido nesse campo extremamente fértil, qualquer estudioso em dia com as novas metodologias de investigação haverá de buscar rupturas epistemológicas e operar em bases estéticas que não se circunscrevam às abordagens iconológicas tradicionais, no que, valendo-nos de Michel Foucault, poderíamos chamar de uma arqueologia crítica da História da Arte.

É nesse sentido, pois, que gostaria de ressaltar a presença da antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que esteve em Fortaleza para o lançamento do excelente Dicionário da Escravidão e Liberdade (Companhia Das Letras, 2018, organizado por ela e Flávio Gomes), no bojo da grande crítica de arte contemporânea, como o olhar a um tempo mais inquietante e mais sedutor da atualidade em termos de estética da imagem.

É nesse viés, portanto, que, numa das apresentações ao referido livro (em rigor deveria ser um artigo dos cinquenta verbetes do volume), Schwarcz propõe uma “leitura crítica da iconografia que cercou a escravidão no Brasil”. Para tanto, com a habilidade de uma estudiosa sensível e com um domínio de linguagem equivalente ao que se produz de melhor na literatura contemporânea, Lilia Schwarcz explora com rigor analítico o cânone das artes visuais do Brasil Colônia, aqueles pintores e desenhistas que povoam os livros didáticos e apontam para a construção de uma unidade nacional, num tipo de idealização que tende a construir no imaginário do jovem brasileiro uma visão paradisíaca do país: Albert Eckhout (1617-1666), Frans Post (1612-1680), Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Johan Moritz Rugendas (1802-1858), primeiros pintores-cronistas do Brasil, seus costumes, suas etnias e suas características antropológicas sociais e culturais.

Em seus estudos, a exemplo do que fez sucintamente em palestra imperdível na Universidade de Fortaleza, ontem (para um auditório repleto, diga-se em tempo), Lilia Schwarcz chama a atenção para o fato de que nenhuma imagem é ingênua, e todas trazem em si um repertório de intenções que mais encobrem a realidade que a revelam.

Na linha do que fizeram os primeiros cronistas naquilo que se convencionou chamar de “literatura dos viajantes” (e classicamente difundido pelo pensamento edulcorado de Gilberto Freyre tempos depois), Eckhout, Post, Debret, Rugendas e outros (ela cita ainda Elder, Chamberlain e Maria Grahan) produziram um “registro” muito pouco condizente com o Brasil de então, criando, artificialmente, um ambiente idealizado sob o qual se escondem grandes contradições. Obras encomendadas ou realizadas com motivações muitas vezes inconfessáveis. Por trás dessa iconografia, pretende-se passar para o Brasil e para o mundo “a sensação de ordem, paz e tranquilidade; o que certamente não ocorria no dia a dia da escravidão”.

O olhar de Lilia Moritz Schwarcz, que se soma a outras relevantes contribuições no campo da iconologia das artes visuais, vem, cada vez mais, revelando-se desmistificador em face do que nos vende a história oficial, quer na perspectiva dos textos, documentos e registros outros (que Schwarcz examina emblematicamente bem em livros já considerados clássicos da nova historiografia), quer na perspectiva do que nos “mostram” as imagens, elas mesmas “discursos influentes que se fixam na memória como tatuagens”. Sem esquecer, claro, sua importância enquanto arte propriamente dita, dimensão a que a Lilia M. Schwarcz deverá dispensar mais atenção em trabalhos futuros.

 

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *