O MURRO DO GENERAL, por Alexandre Aragão de Albuquerque

​​O general Augusto Heleno, como se sabe, é pródigo em afirmações do tipo “direitos humanos devem ser para humanos direitos”. Em 2005 capitaneou a Força de Estabilização do Haiti numa missão da ONU. Em 06 de julho daquele ano liderou uma operação de invasão ao paupérrimo bairro Cité Soleil, em Porto Príncipe. Comandando soldados brasileiros e também de outras nações, o general esteve à frente do episódio que vários grupos de direitos humanos classificaram como MASSACRE. Foram entrevistados diplomatas, trabalhadores de ONGs, autoridades haitianas e moradores sobre o horrendo episódio. Naquele dia foram disparados mais de 22 mil tiros. Um relatório oficial da diplomacia falou em 70 mortes, mas estima-se que o número passou de centenas de mortos, muitos dos quais eram mulheres e crianças, conforme relatam diversos jornais da época.

 

No último dia 14 de junho, em um café da manhã oferecido por Bolsonaro a jornalistas rigorosamente selecionados pelo Palácio do Planalto, o referido general reverberou enfaticamente um trecho da entrevista concedida pelo Presidente LULA à Rede de TV dos Trabalhadores (TVT) no qual tece duras críticas ao comportamento de determinados generais nesse contexto golpista brasileiro. Esmurrando a mesa e em tom histérico, Heleno descontrolado, esbravejou contra Lula sentenciando que ele não merecera jamais ter sido presidente da República porque a presidência da República é uma instituição “quase sagrada”. Infelizmente nenhum jornalista teve a competência de questionar o general sobre o que entende por “instituição sagrada” e o por quê de Lula não merecer ser presidente do Brasil uma vez que foi eleito e reeleito pela maioria da população brasileira, em eleições livres e limpas, tendo saído do poder com 97% de aprovação dos cidadãos e cidadãs brasileiros, diferentemente da campanha de Bolsonaro que, entre diversas denúncias, contratou uma agência de marketing espanhola para fazer pelo Whatsapp disparos em massa de mensagens a seu favor, conforme reportagem da Folha de São Paulo em 18 de junho, configurando crime eleitoral passivo de anulação da chapa eleita.

 

Lao-Tsé em uma de suas magníficas passagens relata que um sábio general certa vez foi insultado por uma pessoa publicamente. O oficial que o acompanhava quis reagir dando ordem de prisão ao indivíduo, mas o general o impediu. O oficial então perguntou ao comandante como conseguia manter-se tão calmo e sereno diante daquela situação, sem expressar ira ou rancor. O general lhe respondeu: as palavras a ele dirigidas são mentiras, não há pra que reagir. Somente a verdade nos atinge, porque ela é infinita.

Mas que verdade teria dito o Presidente LULA na entrevista da noite anterior para deixar o general tão desorientado?

Lula afirmou em alto e bom som que o Brasil do tempo presente é vítima de uma grande mentira, de uma submissão vira-lata aos interesses dos EUA. Muito lhe causa espanto o fato de alguns generais aceitarem se subordinar a um indivíduo como Bolsonaro que bate continência para a bandeira americana. Segundo Lula, general que não é nacionalista não merece esse posto. É preciso que todo general tenha orgulho de nosso país, com a consciência de que eles existem para garantir a soberania nacional, que começa pela defesa de nossas fronteiras até a proteção de 210 milhões de brasileiros e brasileiras, estendendo-se até nossas riquezas materiais e imateriais. Não é para comporem com “moleques irresponsáveis” que manipulam instituições nacionais, nem com aqueles que estão entregando nossas riquezas aos estadunidenses. A quebradeira da Petrobrás, promovida pelos “moleques” da LAVA JATO, representa a quebradeira de centenas de fornecedores daquela empresa. Nenhum país do mundo se desfez do seu petróleo como o Brasil está fazendo com o seu, disse LULA.

Finalizando, expressou ter a plena consciência de que a eleição de Bolsonaro é resultado do clima de pânico criado pela Rede Globo ao demonizar a Política e principalmente o PT. Bolsonaro foi oferecido pela Globo como o candidato anti-sistema a uma sociedade enraivecida pelos meios de comunicação. Mas agora a sociedade está vendo que ele não é nada disso. Ele é o maior exemplo da política velha dos coronéis: além da presidência, ele tem um filho no senado, outro na câmara federal e o último como vereador do Rio. A família toda forma uma casa-grande política. E isso tudo sendo omitido à população. LULA conclui: “não é possível que uma empresa como a Rede Globo perca tanto o respeito pela sociedade que não tenha compromisso com a divulgação da verdade”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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