O mundo em depressão econômica

Milton Santos

Vários fatores conjugados estão formando uma tempestade perfeita em torno da relação social capitalista. São eles:

– a inflação que vem atingindo todas as moedas nacionais (até a China, que exportava deflação, com queda continuada de preços de mercadoriasestá sofrendo com a inflação), causada pela emissão de moeda sem lastro e sem conexão com a produção de mercadorias;

– as mudanças climáticas acentuadas, decorrentes do aquecimento global oriundo da emissão desenfreada de gases poluentes na atmosfera que provocam o efeito estufa;

– o desemprego estrutural causado pelo continuado aumento da obsolescência do trabalho abstrato produtor de valor e de onde se extrai a mais-valia que propicia a acumulação do capital;

– a guerra por hegemonia monetária entre o ocidente capitalista (dólar e euro) e a Eurásia capitalista (rublo, yuan e rúpia);

– a renitente guerra da Ucrânia que ganha contornos cada vez mais abrangentes entre os polos ocidental e euroasiático.

A resultante numericamente expressa de tais fatores conjugados é a queda do crescimento do PIB mundial, sem o qual o endividamento público crescente mundo afora se torna explosivo até para o pagamento do serviço da dívida (leiam-se juros extorsivos) dos países pobres, e rolagem de sua dívida colossal (leiam-se juros insignificantes, gratuitos ou decrescentes) para os países ricos.

O nome dessa tempestade perfeita é depressão econômica mundial, também traduzida como aumento da pobreza e da fome mundiais.

Estaríamos, pois, às portas de um fenômeno econômico havido há cerca de 90 anos denominado como a grande depressão de 1929/1930”, e sem os mecanismos de controle então usados de modo relativamente eficazes (a segunda guerra mundial veio da esteira de tal acontecimento)?

Por conta de uma depressão econômica e da pandemia mundial, o PIB mundial de 2019 já ficara em apenas 2,6%. Mas caiu para -3,4% em 2020, e tal negatividade colocou em polvorosa o mundo capitalista ciente de que a relação social mundial fundada em moedas fiduciárias não resiste e um abalo sísmico decorrente da inviabilidade de um necessário crescimento na produção da massa global de valor.

O dinheiro, mercadoria especial, a única sem valor de uso, e representativa do valor (em tese, porque só assim deveria ser, mas já não é), funciona como o equilíbrio de uma bicicleta em movimento, sem força de velocidade (seu aumento contínuo de valor válido) ele bambeia e cai.

Com demanda reprimida de dois anos e o surgimento das vacinas contra a pandemia dacovid19, que flexibilizou em parte o convívio social, a produção de mercadorias e o consumo, o PIB mundial cresceu em 2021 para 5,5%, ainda menor do que o que fora previsto, mas deu uma melhorada.

Mas com alguns dos fatores conjugados na cena capitalista, antes referidos, voltando (como o medo do alastramento da pandemia na China que provocaum severo lockdown por lá), ou outros surgidos (como o prolongamento da guerra da Ucrânia que se previa de solução rápida), a previsão de crescimento do PIB mundial já está sendo reduzida para 4,1% ao ano para 2022, ou menos disso, e para 3,2% em 2023.

Como dissemos em outro artigo e no início do conflito, a Rússia e seu Vladimir, o Plutinocrata, já perdeu a guerra econômica, ainda que esteja lutando pela valorização do rublo em face de seu poderio energético (petróleo, gás e carvão) do qual a União Europeia (principalmente a Alemanha) é dependente.  

E agora está sob ameaça de perder parcialmente a guerra de fato, militarmente, ainda que isto não seja de todo provável.    

A China foi buscar lã e saiu tosquiada. Enfrentando problemas internos no setor imobiliário e de produção de energia, está se vendo com um aumento da inflação para o setor produtivo de mercadorias de 10% no ano de 2021, e com isto perdeu competitividade no mercado mundial.  

Apesar de um resultado (até inesperado) para o primeiro trimestre de 2022, já enfrenta queda na produção e consumo em face de severo lockdownestabelecido para evitar o alastramento da transmissão virótica da covid19 em algumas regiões importantes, como o seu polo industrial e comercial mais forte situado na cidade de Xangai.  

A China está vendo profundas saídas de capital estrangeiro à medida que aumentam as dúvidas sobre sua capacidade básica de investimento”, disse Brock Silvers, diretor administrativo da Kaiyuan Capital, uma empresa de investimentos em private equity com sede em Xangai.

A China vem empreendendo ampla repressão regulatória para o setor privado desde 2020, o que tem deixado os investidores internacionais com as barbas de molho.

Definitivamente não é apenas o medo da pandemia que está causando problemas para a China, mas também o anúncio do seu alinhamento “sem limites” com a política do Kremlin.  

Os blocos do capitalismo one world e o Brasil – o capitalismo atingiu todos os poros das sociedades mundiais; não há nenhum país que não tenha a sua relação social mediada pelo critério da forma valor, ou seja, pelo trabalho abstrato produtor de valor e extração de mais-valia que proporciona a acumulação autotélica do capital nas mãos dos seus administradores que obedecem rigorosamente as suas ordens ditatoriais.

Paradoxalmente, justamente no seu ápice é que o capitalismo verifica o seu limite interno de expansão e se dessubstancializa.

Apesar de formarem blocos monetárioscapitalistas, por vezes geograficamente separados, com suas influências periféricas, em todo o Planeta, eles assim se distribuem;

a) bloco do dólar e do euro que abrange as Américas e o Caribe; a União Europeia; e o Reino Unido com sua moeda, a libra esterlina britânica;

b) bloco da Eurásia, que com 60% da população mundial e 1/3 das partes sólidas do Planeta, formado pela parte europeia da Ásia menor e pela Ásia Maior, tendo à frente a Rússia; a China; a Índia e alguns ricos países árabes. A Aliança da Rússia, da China e da Índia, com suas imensas extensões territoriais e populacionais, desejam deslocar a hegemonia do dólar, tornada moeda internacional desde o fim da segunda guerra mundial;

c) bloco da África, tem cerca de 14% da população mundial e sua divisão em diversos países com baixa representatividade no PIB mundial, e baixo índice de IDH, além de ser marcado por governos ditatoriais que via de regra promovem conflitos político-governamentais (e muitas quarteladas) com acentuado teor étnico e religioso;

d) bloco da Oceania, sob a hegemonia da Austrália e seus altos índices de IDH.

Quando se analisam os blocos populacionais em suas diferentes configurações sociais podemos concluir que somos pobres e, principalmente, que ao atingirmos o ápice do capitalismo, estamos empobrecendo ainda mais.

A conclusão a que se pode chegar é que os grandes bolsões populacionais do mundo sofrem com a pobreza, em que pesem os avanços tecnológicos que têm propiciado grande melhoria na vida dos seres humanos (e isto se deve tanto às pequenas e importantes descobertas, como às grandes descobertas dos cientistas, que descobriram as vacinas, por exemplo), como resultante das contradições da lógica capitalista e da segregação social que propicia.

Como se explicar o surgimento dos discursos de ódio à luz do dia e sem nenhum pejo ou reprimenda?

Da apologia de símbolos nazifascistasostensivos? Do crescimento do crime organizado?

Do aumento da violência urbana? Do recrudescimento do racismo?

Da xenofobia?

Da misoginia?

Da homofobia?

Da intolerância religiosa?

Da negação da virtude como valor da humanidade, senão como a resultante de um modo de relação social que ensina a prevalência da vantagem como regra de convívio social!!!    

O capitalismo faz água e ao invés de nos induzir à sua superação, incita ao abandono das virtudes humanas e as ridiculariza e ainda promove a aceitação da barbárie.

Esta é a conclusão que podemos inferir do fato de uma candidata conservadora como Marine Le Pen, com teorias retrógradas, racistas e segregacionistas ter obtido cerca de 40% dos votos num país que historicamente tem servido de vanguarda dos movimentos libertários (ainda que tenha produzido Napoleão Bonaparte no pós revolução republicana).

No Brasil não estamos distantes disto. O Brasil de Bolsonaro, o ignaro, tem números decepcionantes, mas assim mesmo detém uma surpreendente faixa de ¼ do eleitorado a seu favor.

Segundo Banco Mundial a previsão de PIB para o Brasil em 2022 é de 0,77%, o segundo menor para a América Latina, somente sendo superado pelo Haiti, com seus 0,4% de PIB para 2022;

– temos inflação de dois dígitos no acumulado dos últimos meses;

– temos altas taxas de criminalidade;

– conservamos altas taxas de desemprego;

– somos campeões de mortes por Civid19 por habitantes, e estamos ainda com média de 100 mortes diárias e caminhando para a incrível marca de 700.000 mortes a permanecer tais estatísticas;

– temos notícias de corrupção nos Ministérios da Educação e Saúde (e acabamos de ver um Ministro demissionário, evangélico, que é da turma adepta das armas ao invés de livros, ser flagrado em disparo acidental culposo num aeroporto ao embarcar num voo doméstico);

– temos um parlamento que produz um orçamento secreto, que mais não é do que um meio de se elaborar emendas parlamentares cujas administrações licitatórias das obras, serviços e compra de materiais (como os kits robóticos para Alagoas) nós bem sabemos como serão;

–  temos um governo cuja administração está tomada pela ocupação de cargos de confiança por militares, cujo critério de escolha é pertencer a uma corporação militar, sem a subjetividade de mérito profissional adequada para tais escolhas (é isto que produziu um General pretensamente conhecedor de logística para cuidar da saúde em plena pandemia);

– temos um Estado laico cujo Presidente escolhe Ministros da mais alta corte jurisdicional do país somente por ser devoto a um segmento religioso do qual faz parte (ou que é terrivelmente – que expressão mais inadequada – evangélico);

– temos um indulto presidencial que concede o benefício da graça do perdão da pena a um arruaceiro de quinta categoria, cujo curriculum e práticas devem servir de péssimo exemplo para jovens brasileiros;

– temos um alinhamento explícito ou vergonhosamente escondido a um belicista como Vladimir, o Plutinocrata russo que estarrece o mundo com sua beligerância genocida.

Ufa, será que merecemos isto???

Dalton Rosado.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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