O MUNDO ACABOU

O mundo acabou e a economia não triunfou! O capitalismo, tão ágil em construir esquivas para as mais diversas adversidades, desta vez perdeu. Muito menos pela sua capacidade de driblar os arbustos no caminho, muito mais pelo imponderável, o improvável e o avassalador medo da morte.

A morte sempre foi uma constante na humanidade, aliás é pela consciência dela que nos tornamos o que somos. Por sermos sabedores que ela é uma das únicas verdades inexoráveis, construímos no espaço limite entre a consciência de si e o tal inoportuno momento, relações de valores, crenças, amores, desejos e tantas outras coisas. Como diz Viviane Mosé “a morte nos impõe a vida com valor”. E assim nos sujeitamos a esta corrida desenfreada por uma vida longa e repleta de alegria.

O homem se viciou tanto na alegria que foi capaz de tudo para garantir o paraíso na terra. Mas agora, a felicidade não está mais no poder, no ostentar suas riquezas, no desfrutar aquilo que o peso da moeda pode comprar. A felicidade, misturada de agrura e tristeza, consiste em a cada dia poder abrir os olhos, olhar para os seus familiares, apenas viver à espera do próximo dia.

O mundo acabou e deus não veio, talvez por ocupação maior, talvez porque nada poderia fazer, talvez por castigo. Não se enganem, o mundo, aquele mundo já não existe mais e nem voltará a existir. O mundo, aquele mundo, existiu até 2019. O mundo, aquele mundo, nunca mais existirá. O que virá não sabemos, que mundo será amanhã, daqui a um mês, um ano? Não se sabe. Alguns tolos intentam reconstruí-lo a partir de onde paramos, isso não será possível, aquele mundo acabou.

Em uma guerra, e é isso que estamos vivendo, não há vitoriosos. Há sempre os menos e os mais derrotados. Pelos braços da ironia o destino nos afrentou uma filósofa histriônica e tão desdenhada anteriormente, tinhas razão ela em sua flexão verbal: “…não acho que quem ganhar ou quem perder, vai ganhar ou perder… vai todo mundo perder”. O mundo acabou e todos estamos perdendo, alguns já perdidos, outros tantos tateando um caminho de regresso ao passado.

Não, meus caros e caras, não me tenham como um pessimista, não pretendo assumir a pecha de Schopenhauer. Se bem que, nestes dias, lhe dou certa razão quando diz “O destino é cruel e os homens são dignos de compaixão”. No entanto já vivemos uma nova era, um novo mundo, mesmo percebendo relutância de grande parte das pessoas. Compreensível, pois, imagino ter sido o desejo de todo o planeta apertar o botão que pausaria o tempo e só o devolveria à dinâmica da vida após tudo isso passar.  Infelizmente, a vida não é Netflix.

As relações sociais já apontam uma nova diretriz no comportamento humano. O distanciamento das ruas e a obrigatoriedade da convivência no lar reabrem o espaço para algo que há muito, desde o tempo do surgimento da televisão, se discutia: a degradação da relação familiar. Não que esta imposição vá retomar os saudáveis encontros de todos no café da manhã, almoço e jantar. Como falei, aquele mundo já passou e agora estamos experimentando o exercício de suportar os nossos familiares por mais tempo. Nos desacostumamos a este convívio, pois no mundo antigo não havia tempo para isso.

O novo mundo também nos apresenta o vazio da ideia de conectividade, ora, quem está suportando passar os dias inteiros pulando das maratonas de séries para o Instagram e Facebook? Mesmo os viciados nisso hoje sentem a perda do direito de poder fazer algo diferente, mesmo que na maioria das vezes tenham optado por não fazer. Mesmo o mais “caseiro dos caseiros” se retorce na cadeira da sala pelo simples fato de pensar: e se eu quiser sair?

As relações comerciais inauguram um novo tempo onde a presença física se torna cada vez menos necessária. É possível que proximamente experimentemos as lojas sem vendedores, os restaurantes sem sommelier, as fábricas sem funcionários — os famosos “chão de fábrica”. Quem, pois, precisará destes profissionais se aplicativos e robôs poderão desempenhar estas funções, automação! Meus caros e caras é verdade que aquele mundo já se inclinava a isso, mas o novo mundo o obrigará a existir num curto espaço de tempo. Aliás, enquanto escrevo, uma loja já disponibilizou aplicativo, livrarias já imprimem o livro desejado na hora a partir da tecnologia 3D… O que penso sobre isso? Não penso, será inevitável. Se gosto disso? Talvez seja bom, no entanto os graves problemas sociais que existiam tendem a se agravar.

É fato, ainda há muitos crentes na ideia de que aquele mundo antigo encontrará solução rápida e tudo voltará ao normal. Muitos não perceberam ainda a devida importância dos acontecimentos. Estes homens transvalorados, parafraseando Nietzsche, apostam suas fichas na negação, traçam perspectivas para as próximas semanas, planejam olimpíadas e torneios de pôquer para os próximos meses. Pensam eles: é apenas mais um problema de saúde corriqueiro, com mortes de pessoas que um dia iriam morrer mesmo. Voltemos as ruas, ao trabalho, a economia não pode parar! O ser hedonista precisa alimentar sua carcaça diante do espelho.

Parando para pensar um pouco, qual a influência da bolsa de valores e dos mercados na sociedade atual? É possível viver sem futebol? É melhor neste momento, residir em uma grande metrópole ou em um vilarejo longínquo? Dinheiro no bolso para pegar avião? Serve ainda para este mundo? Você leitor, pode neste momento se perguntar, mas quando tudo passar isso não voltará ao normal? Qual normal? A sociedade se encontrava em declínio e destruição de sua própria forma de existir.

Hoje o capitalismo e a economia tentam salvar o mundo, mas foram eles que nos colocaram na fila do matadouro. Ou não é o preço que paga a Itália por colocar acima de tudo o interesse econômico? E os EUA, a maior potência econômica mundial, para onde vai com sua pujança monetária? A China e sua sanha econômica foi a pioneira nesta destruição, pois possibilitou o cenário perfeito para o aparecimento do vírus. Não! Não se precipitem no raciocínio, não falo aqui de um vírus criado em laboratório para destruir a economia de outros países. Este raciocínio é pequeno e desleal além de fora da realidade. Falo de uma China que vive uma ditadura “comunista”, mas que tem no capitalismo sua possibilidade de ser e existir como potência mundial. Que prefere e sempre preferiu o silêncio dogmático e explorador a proteger seu povo, aliás proteger o povo do próprio povo. De tradições ou culturas perigosas à sua própria existência como as inúmeras feiras a céu aberto comercializando animais silvestres vivos e mortos.

As duas maiores potências mundiais sucumbiram a um inimigo comum e invisível, sucumbiram ao fator econômico na frente de tudo, sucumbiram à escalada egocêntrica de serem os donos do planeta e decidirem através de seus mercados o que acontece com o restante do mundo, aquele mundo de 2019. Será que enfim chegamos a pós modernidade ou estaremos nós a desfrutar de uma nova era à frente, além da pós modernidade? Será que reentraremos nos tempos das cavernas? Notem, faço indagações que talvez ninguém saiba ou tenha precisão na resposta, os dias ainda são turvos.

O mundo acabou, mas para o Brasil há uma saída, transformemos o país numa imensa cesta básica! Esqueçam a indústria, ela vai se recuperar a longo e distante prazo, invistam no agronegócio, poderemos ser a cesta básica do mundo já que as populações ao saírem da crise precisarão se alimentar. O Brasil pode ser a grande árvore mãe universal. Seria uma saída melhor do que aquela do finado Guedes que, aficionado pela música de Raul Seixas, queria alugar o Brasil. A preço de banana, claro.

O Brasil poderia ser uma das grandes potências do novo mundo! Sim, porque teríamos poder de negociar, de ajudar na construção de um novo mundo, em troca de tecnologias, expertise em astrofísica, nanotecnologia e tantas outras coisas. Mas o problema é que Deus não veio, não houve arrebatamento nem a morte dos impuros, como preconiza a Bíblia nas grandes devastações da humanidade. Deixaram por aqui alguns cadáveres que empossados do poder, continuarão a insistir em um mundo que não mais existe.

Brasil… uma grande potência… por que não? Parece utopia, mas o que seria de nós se não fossem as utopias? Me recorro a Galeano que sempre defendia a utopia, não como o ponto de chegada, mas como o alimento da alma para que se objetive sempre chegar no ponto final. À utopia nunca alcançaremos, mas estaremos sempre nos caminhando em direção a este objetivo, é o que nos faz mover.

Lembro agora das minhas férias, iam ser em setembro, minha viagem… tinha tudo planejado. Agora não tenho mais o que planejar. É uma tragédia! Tragédia no sentido grego, trago, bode, sacrifício. E o que nos restou disso? O dançar dos dias! Como ditirambos dionisíacos vivendo cada momento envoltos em uma intensa dança que só acaba quando os corpos já não aguentam mais e se entregam ao descanso, ao desmaio.

Em toda tragédia há beleza! Porque o belo não necessariamente é o bonito, mas o sublime, aquilo que escapa, que não se tangencia, que não tem explicação. Este novo mundo é iniciado em uma grande tragédia, como sempre foram todas as outras mudanças de eras. No entanto, tens nela a potência da beleza, pois se é verdade que o fim do mundo anterior tem na ação do ser humano a mola propulsora do acontecimento. Também é verdade que este ser humano em si é potência, é desejo, é empatia. Espero que este novo mundo traga o humano pronto para o vir a ser, pronto para o ser além, um ser empático e estético, capaz de se realizar em coletividade.

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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