O móvel da guerra

“Se a guerra é uma coisa horrível, não seria o patriotismo a ideia-mãe que a nutre?”
Guy Maupassant

​A humanidade convive com a bestialidade das guerras há milênios; convive com isto desde as guerras com lanças até o aperfeiçoamento das armas que hoje têm a capacidade de uma hecatombe global.

​A capacidade de dominação e subjugação de uns sobre outros mudou de forma. Como forma, se antes se invadia com cavalos e espadas, agora se invade pela terra, pelo mar e pelo ar com veículos velozes e armamentos altamente letais.

Entretanto, a única coisa que não mudou foi seu conteúdo, ou seja, o móvel da guerra: a busca da hegemonia de poder político e econômico.

Na atualidade, as armas atômicas, de tão destrutivas que são, se mantêm como reserva de uso estratégico para um momento final, quando forem um último recurso capaz de satisfazer a sanha belicosa de um tirano vaidoso qualquer ungido ao poder político como resultante da tensão assassina da fratricida disputa por hegemonia econômica, também conhecida como “capitalismo”.

Sim, é isto! Demos nomes aos bois: o móvel da guerra é a busca da hegemonia econômica.

Não há nenhum santo nesta história. O país que invadiu o Iraque soltando bombas a uma distância de 10.000 pés e matando crianças dormindo em Bagdá, sob a alegativa de existência de armas químicas, como justificativa política contra uma agressão do fundamentalismo religioso desvairado, é o mesmo que hoje condena este absurdo que é a invasão da Ucrânia pela Rússia sob pretextos tão ridículos quanto cruéis.

O poder político-militar corresponde apenas à explicitação visualmente mortífera de algo que lhe é subjacente: a velha subjugação dos perdedores pelos vencedores, que assim passam à detenção da riqueza material ou abstrata em seu benefício.

A guerra é desumana porque é desumano o móvel de sua ocorrência.

O Império Romano e suas legiões de soldados a conquistar territórios e escravizar os vencidos faziam a grandeza escravista de Roma, que contava com 1 milhão de habitantes, sendo 80% de sua população submetida à escravidão.

Na civilização romana tanto as obras notáveis de grandes artistas plásticos, como o conhecimento científico (mesmo que ainda incipiente), tal como o direito e suas regras jurídicas que ainda hoje norteiam os cânones comportamentais modernos, estiveram sempre a serviço do mesmo móvel vigente na segunda natureza humana dita racional: a escravização do ser humano pelo próprio ser humano.

No momento atual se explicitam os limites internos da expansão capitalista, no qual os países componentes do G7 (Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Japão) sentem faltar chão sob os seus pés em face da incapacidade de manutenção da indispensável criação de volume de lucros e reprodução do capital em seus territórios em face da migração para outros países do capital aplicado na produção de mercadorias.

Fragilizam-se pelos próprios fundamentos econômicos sob os quais erigiram o seu poderio, e tal circunstância provoca uma recorrente busca por uma nova configuração de poder geopolítico mundial. Foi assim na primeira revolução industrial inglesa; na segunda revolução industrial fordista; e está sendo assim na terceira revolução industrial cibernética.

A China, como segunda maior potência econômica em termos de PIB – Produto Interno Bruto (ainda que seja relativamente baixa a renda per capita do seu povo) e detentora de um numeroso exército, alia-se à Rússia cuja pretensão é recuperar a influência da antiga União Soviética, que foi perdida sem nenhum tiro graças à debacle do capitalismo de Estado que ali vigia, e que agora, graças ao seu poderio militar (mesmo que desproporcional ao seu poderio econômico) tenta recuperar.

Um bloco formado por China e Rússia, pode vir a representar uma vastíssima extensão territorial e um contingente populacional numeroso, capaz de transformar os novíssimos países do Leste europeu em repúblicas satélites, como na antiga União Soviética e com extensão de influência para todo o restante das Ásia.

A invasão da Ucrânia, país mais próximo da União Europeia entre os povos eslavos, é apenas a ponta deste iceberg.

Diante da ora anunciada represália ocidental à economia da Rússia, e da inevitável queda do PIB da China, que obviamente não pode se manter nos níveis anteriores graças ao limite mercadológico mundial, estabelecem-se dois grandes impasses:
– a questão da moratória ou simples calote da colossal dívida pública destes países em face dos credores internacionais; e esta é a grande questão que se coloca para os anos vindouros: o tsunami da bancarrota internacional da dívida pública e suas consequências para os padrões monetários hegemônicos, o dólar dos Estados Unidos e o Euro da União Europeia;
– a capacidade desta banda do Planeta que se desgarra da lógica capitalista ocidental para a formação de uma lógica capitalista eurasiana, também fadada ao fracasso.

A grande questão a ser levantada é como ficarão as coisas após a anexação da indefesa Ucrânia, dando sequência ao que já ocorrera com a Criméia, e com a possibilidade de autossuficiência deste novo bloco que se configura no que diz respeito aos recursos naturais (energéticos, minerais, e de produção de alimentos), e pretensão (difícil) de manutenção e melhoria do padrão de produção e consumo de suas populações sob uma nova ordem capitalista unilateral.

Como reagirão os povos do leste europeu após terem experimentado a autonomia política diante de uma nova subjugação?
Como reagirá o povo Ucraniano com suas feridas ancestrais causadas pela opressão russa (foi genocida o tratamento dado à Ucrânia por Stalin na década de 30 do século passado, razão pela qual a invasão germânica na segunda guerra mundial foi inicialmente saudada com vivas por grande parte do povo ucraniano, até sentir o que o nazismo era ainda pior) e convivendo com uma força de ocupação?

Por seu turno como sobreviverá a economia ocidental com a ruptura mercadológica com a Rússia, e caso se configure e evolução do apoio continental da China ao novo bloco, com uma possível moratória ou simples calote da colossal dívida chinesa?
A verdade é que a guerra que se inicia da Rússia contra a indefesa Ucrânia tem uma dimensão bem maior do que pode sugerir a neutralidade militar ocidental diante desse fato. Trata-se de um experimento cujas consequências não pararão por aí.
Tudo decorre, entretanto, de um velho interesse geopolítico no qual se observa que a perda de força de um lado corresponde à tentativa de ocupação por aquele que se sente mais habilitado em exercer a sua hegemonia geopolítica no espaço aberto.

Mas não podemos terminar a nossa análise sem a citação de um episódio grotesco e marginal neste cenário: tivemos um bobo na corte.

Temos um Presidente que até ontem considerava a China como comunista e a vacina da Rússia como capaz de metamorfosear os brasileiros por ela vacinados em jacarés ou em preocupante híbrido de gênero sexual, e que ainda foi capaz de levantar a hipótese de ter contribuído, com sua recente visita à Rússia, mesmo que por coincidência, para a promoção de uma paz entre russos e ucranianos.

Tal intervenção, patrocinada por um ridículo pretendente ao prêmio Nobel da Paz, é merecedora do prêmio “Pinóquio de Ouro”. A guerra estourou em pouco mais de uma semana após a sua ridícula declaração.
A solidariedade prestada ao plutocrata russo por Bolsonaro, o ignaro, é estrategicamente inoportuna, e somente serve para demonstrar a sua ignorância no que concerne aos interesses da diplomacia brasileira, bem como o seu alinhamento a um ditador que desde 1999 se conserva no poder diretamente ou por um lacaio, e tal qual Hitler em 1939, se desmente por atos praticados imediatamente às suas declarações que não convencem nem ao mais ingênuo dos crédulos. Nisto estes personagens se assemelham.

Nos próximos anos vamos conhecer fatos e desdobramentos na ordem capitalista decadente antes inimagináveis. Quem viver verá!

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;