O MIMETISMO METODOLÓGICO

Cientistas usam sem cerimônia argumentos morais e confessionais. Filósofos, por sua vez, socorrem-se da ciência na tentativa de fundamentar suas teses, citando, em alguns casos, teorias científicas pouco compreendidas pelo público não especializado, de modo análogo ao personagem de Lima Barreto (1881 – 1922) de “O homem que falava javanês”. O físico Jean Bricmont (1952 – vivo) e o matemático Alan David Sokal (1955 – vivo) publicaram, em revista acadêmica prestigiosa, um artigo deliberadamente cheio de alusões erradas à Física e à Matemática. Além de aprovado pelo conselho editorial do veículo de publicação, o texto foi largamente elogiado por filósofos que entendem haver afinidade entre suas teorias e os erros publicados pelos autores citados, que então revelaram a armadilha. Filósofos de grande nomeada alegaram que usavam a ciência como metáfora. Não tinha obrigação de conhece-la. A emenda saiu pior do que o soneto. A polêmica levou o físico e o matemático a publicarem o livro “Imposturas intelectuais”.

A forma de produção e validação do conhecimento varia de acordo com a natureza do objeto e dos fins pretendidos. Karl Raymond Popper (1992 – 1994) comparava a pesquisa científica com um cego em uma floresta, tateando com uma bengala a procura de um caminho. Não existe uma receita para a descoberta científica, apenas a exigência de falseabilidade. Mas nem todas as formas de conhecimento seguem os mesmos critérios. A ciência trata – ou deveria tratar – da dinâmica das relações entre fatores relacionados com os fenômenos cognoscíveis, sendo conhecimento da realidade fenomênica.

A Filosofia tem um campo ilimitado de cogitações, incide sobre o ôntico e o ontológico. Vai além do observável direta ou indiretamente. Nem sempre atende ao requisito de falseabilidade. Neste sentido é que valores, no sentido axiológico, continuam válidos quando não confirmados pela observação, ao contrário da ciência que perde validade em tal circunstância. A Filosofia não se debruça apenas sobre objetos materiais.

A vontade de potência, citada por Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) como crítica às ideologias que se apresentam como libertárias, está presente no debate científico, filosófico, político e teológico. Assim as diversas formas de conhecimento são usadas para legitimar o poder, conforme um certo sentido de ideologia. A cegueira dos paradigmas (Thomas Kuhn, 1922 – 1996) e os obstáculos epistemológicos (Gaston Bachelard, 1884 – 1962) contribuem para a confusão que se cria com a ideologização do debate.

Teólogos e filósofos saem dos seus respectivos campos e invocam a ciência; cientistas recorrem à Filosofia supostamente em nome de valores. O mimetismo metodológico é geral.

A modernidade, especialmente no campo da Filosofia e da ciência, pretendia ter como fundamento apenas a razão e a observação empírica. Até na Teologia houve uma louvável tentativa de restringir o argumento consagrador da autoridade à revelação. Mas a vontade de potência leva ao mimetismo metodológico invocando a ciência ou a autoridade. Cientistas alegam valores, filósofos citam a ciência que desconhecem, teólogos usam argumento de autoridade. Engenheiros geralmente apresentam solução para a rachadura no prédio. Sociólogos e economistas se dizem indignados em nome de valores. Teólogos buscam amparo em ortodoxias ditadas pelo centralismo (“democrático”?) instituído, enfatizando a impostura dos independentes, como se o cambalacho no atacado fosse mais virtuoso do que no varejo.

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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