O medo que o Brasil nos dá

“O país do carnaval”, “O país do futebol”, “O país do samba e do axé”…

O que poderemos encontrar nesta busca desenfreada pela nossa “identidade” que possa ordenar algumas premissas de futuro?

Revisamos o passado, demos-lhe as cores que nos agrada por vê-lo, assim, vestido em um manto da fantasia que nos rouba o futuro — e nos devolve um passado ralo de gestos heróicos e cheio de intenções inconsequentes.

A nossa cultura erudita foi sequestrada pelas elites, a cultura “popular” incorporou gêneros e temas decorrentes das tradições importadas, em um processo caracterizado pelo trânsito de duas mãos entre a cultura de gabinete, persignada pelas tradições exógenas recebidas e as tradições produzidas por outras vias de influência menos conspícuas.

Onde entra o medo alegado no início desta conversa, temor confessadamente assumido ?

Poderia parecer estranho e imaginário este sentimento, não fossem algumas evidências amargas que teimam e persistem em lembrar como fomos, nós, brasileiros, construindo este país, com a displicência de colonizados circunspectos e acomodados, escravos e apresados por europeus aventureiros, que por aqui chegaram e foram ficando, sem a vocação de ladrilheiros, arrancando, extraindo e mercadejando os bens da natureza, enquanto deitavam em solo fértil uma cultura pobre e os dogmas religiosos de uma cultura atrasada que nos mantiveram por uma larga quadra da nossa vida como povo e nação.

O Império e a República substituíram os colonizadores e as Cortes fugitivas, mas não os atores de uma prolongada pantomima civilizatória.

Povo e elite saíram de um mesmo forno amortecido, desvalidos de saberes e de obrigações contraídas, que não fossem as salvaguardas da fé que os mantinham sujeitos ao peso da autoridade desembarcada das caravelas.

Tudo o que pusesse em risco as garantias asseguradas pela ignorância foi banido, proibido e interditado. As universidades, as tipografias, as bibliotecas … A educação, confiada, por sua vez, a jesuítas, fez-se a matriz intelectual de uma elite ronceira, extasiada diante dos milagres da fé e de conhecimentos mais ou menos inúteis, mesmo para aqueles tempos distantes.

Pois foi assim, com este povo e com as elites ensaboadas com água-benta e assomos fatalistas teologais, que construímos por aqui um sistema de governo, geramos instituições mal copiadas, edificamos padrões éticos e consolidamos regras morais que nos mantiveram mergulhados no vazio ultramontano de irredutíveis persignações.

De repente, deparamo-nos com a pós-modernidade e as novidades do progresso, deixamos a solidez de crenças seculares e — vaput ! — pomo-nos a brandir novos votos de solidária adesão ao “empreendedorismo ideológico” que se abre aos nossos pés.

De políticos servimo-nos dos velhos serventuários do poder, dos chefetes das oligarquias originárias, de anspençadas cansadas de tão pouca guerra, dos partidos, os mesmos de sempre, de heróica trajetória histórica, dos usineiros de leis mal costuradas e, como se não bastara, dos senhores do arbítrio e mestres-hermeneutas — os bacharéis-de-direito sem os quais seríamos tudo menos cidadãos, conquanto carecidos de bastante cidadania.

O que esta gente propõe-se afinal construir? E com quem levarão a termo este desafio — com os mesmos, de sempre?

Ora, c’os diabos!

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

1 comentário

  1. Claumir Rocha

    Segunda Opinião deixa de ser segunda(2a)para ilustrar 1as.Opinioes, esse artigo de Paulo Elpidio,além de possuir uma escrita de fácil entendimento,com uma “Planta Arquitetônica” de amadurecidas sementes politicas e ideias que deixam as “veias”do leitor sem “trombose” e possuída de saber sem efeitos “colaterais” sobre as incertezas no território terras-brasis