O inimigo da Arte, por Alder Teixeira

​Em linhas gerais, considera-se a Estética o campo da Filosofia que se ocupa de uma teoria da sensibilidade. É com este sentido que a palavra aparece na Crítica da Razão Pura (1787), de Immanuel Kant. Mas é com a publicação da obra Aesthetica, em 1750, de outro alemão, Alexander Baumgarten (1714-1762), que se convencionou fixar o termo estética no campo de exame do belo subjetivo. Mesmo assim, a questão não é tão simples o quanto parece, e muitas páginas foram e continuam a ser escritas sobre o tema, sem que se chegue a uma definição absolutamente aceita ou considerada irretocável. O que não é de todo mau, diga-se de passagem. Afinal, a Estética, qualquer que seja a teoria que tomemos como base, define-se, em parte, pela própria etimologia da palavra: originada do grego, significa “sensação”.

Não é sem razão, contudo, que se deve lembrar o que afirma o próprio Kant sobre a tentativa, segundo ele malograda, levada a efeito por Baumgarten, “de submeter a avaliação crítica do belo a princípios racionais e assim elevar suas regras à categoria de ciência”.

          Para Baumgarten, o objeto do conhecimento lógico é a Verdade, enquanto o objeto do conhecimento estético é a Beleza. Aquele é o “perfeito” aos olhos da razão; esta, o perfeito aos olhos dos sentidos. Mas sua teoria vai de encontro ao que professaria Kant, pois, para Baumgarten, a beleza existe na proporção das partes do objeto e nas suas relações com o todo. Há, como se vê, uma tentativa de tornar a avaliação crítica da beleza uma ciência.

Polêmica à parte, deve-se observar que  nenhum dos dois pensadores alemães aqui citados deve ser considerado o pai da matéria, uma vez que, desde a Antiguidade, muitos filósofos manifestaram-se sobre a natureza do Belo e, até mesmo, sobre sua presença no rol do que se considera hoje as belas-artes: as artes visuais (pintura, escultura etc.), a música, a arquitetura e a literatura. Mas, no que, grosso modo, chamava-se de Filosofia do Belo, além da arte tinha lugar o belo da Natureza. Aliás, nessa perspectiva tradicional, este era considerado superior àquele.

Se a alguém interessa saber, contudo, quando terá nascido a Estética moderna, parece um consenso tomar-se o início do século 18 como referência, notadamente os primeiros vinte ou trinta anos. É a partir daí, com a contribuição dos idealistas alemães, Hegel à frente, que o Belo da Arte passa a ser considerado superior ao Belo da Natureza. Aqui deparamos com uma obra incontornável, base consistente para qualquer incursão pelo território da arte e de sua essência do ponto de vista filosófico. Nenhum tratado de estética, nenhuma outra obra pode se igualar a essa em termos de profundidade e rigor analítico. É aqui onde se pode encontrar aquela que é, quando menos, a mais completa averiguação da arte e do belo artístico: “[…] o belo artístico, diz ele, é superior ao belo natural por ser um produto do espírito, que, superior à natureza, comunica esta superioridade aos seus produtos e, por conseguinte, à arte, por isso é o belo artístico superior ao belo natural”.

Aos governantes, portanto, cabe o papel de proteger a Arte e os artistas, seus realizadores; incentivar a sua produção e a sua veiculação; criar mecanismos que tornem possível a todos o acesso à arte e condições para que, no âmbito da escola, a arte constitua matéria de exame e veículo de expressão do pensamento, da criatividade dos jovens, tornando-se objeto do gosto, da admiração e da paixão de todos.

Quando age em contrário, perseguindo os artistas e tomando-os por seus inimigos, o governante comete um tipo de crime que deve ser denunciado, combatido e abominado em todos os seus sentidos. Por trás disso está, quase sempre, um fascista.

O Brasil de Bolsonaro exemplifica, despudoradamente, o que estamos falando.


[i] No que respeita à estética, é fundamental ir à Crítica da faculdade do juízo (1790), na qual o filósofo de Königsberg debruça-se, decisivamente, sobre a Arte e o Belo. Nessa obra, depara-se com o que em linhas gerais pode-se chamar de teoria estética kantiana.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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