O infeliz crescimento da direita

Há um evidente e infeliz crescimento da direita que pode ser comprovado pela eleição de candidatos com pautas retrógradas, aqui e alhures, que há alguns anos seria digna e repulsa coletiva.  
Cabe a nossa análise do porquê de pautas da direita, como as que abaixo elencamos, conseguirem respaldo popular.

A direita liberal, reacionária às transformações sociais, conservadora nos costumes, condena o aborto, por considera-lo um crime contra um feto indefeso; mas quer um estado mínimo, que sirva apenas para manter as instituições que dão manutenção estrutural via cobrança de impostos a uma população já exaurida por uma relação social subtrativa do tempo-trabalho-valor dos trabalhadores abstratos, assalariados, que morrem na fila do SUS por falta de recursos financeiros que seriam capazes de dar às mães grávidas e à sua família a assistência médica de que necessitam.  
Considera a homossexualidade como uma doença ou um pecado diante de Deus, ou nega ou expulsa seus filhos homoafetivos de casa como se fossem possuídos pelo demônio e indignos da presença familiar; mas aplaude e vota em quem hipocritamente diz ser defensor da família mas muda de esposa a cada ciclo de idade como forma de manter o viço da juventude de suas parcerias (mesmo que ele envelheça longe das mães envelhecidas dos seus filhos), desde que o Messias imbrochável sirva aos interesses mesquinhos da segregação social econômica que diz ser a melhor forma de indução ao progresso.  

Faz apologia das armas como contributo para a paz, e condecora milicianos que exploram a população empobrecida e subjugada pela força das armas.
Diz ser paladina da luta pela honestidade com o dinheiro público, mas não se furta de usar o patrimônio público advindo de cortesias diplomáticas, como joias valiosas, como se suas fossem, e as vendem no mercado internacional, além de comprar imóveis caros com dinheiro vivo sem origem comprovada, aumentando o patrimônio pessoal sem declaração ao imposto de renda.  

Acha justo que o seu país pague juros diferenciados e caríssimos aos bancos e rentistas por sua dívida pública, mas quer retirar dos previdenciários e trabalhadores os direitos a que a legislação lhes concede, como forma de manter saudáveis as contas públicas (Milei que o diga).    

Acha que o governo de Israel tem o direito de retaliar a agressão do Hamas matando a população civil palestina da faixa de Gaza e destruindo prédios residenciais e instalações, ou submetendo-a a um êxodo forçado mundo afora, numa nova diáspora da qual os próprios judeus foram vítimas no passado ancestral e em perseguições nazistas na segunda guerra mundial.  
Não se pejam de usar a mentira como instrumento aceitável de veiculação dos seus propósitos inconfessáveis, seja por fake news robotizadas, ou por deliberada deturpação da verdade, como atribuir à esquerda a frase “somos mais populares que Jesus”, que havia sido dita por John Lennon num contexto e sentido bem diferente do que se quis dar à época.  
Agora tal mecanismo se repete como essa de atribuir uma ligação do miliciano Domingos Brazão, denunciado como mandante da morte de Marielle Franco, com a esquerda petista por ele ter apoiado Dilma Rousseff numa eleição na qual tinha interesse eleitoral pessoal específico. Ouvi de um motorista por aplicativo a certeza de que fora o PT o culpado pelo assassinato da vereadora.  
Seriam infindáveis a citação das fake news da direita via internet e que infelizmente calam nas mentes mais ingênuas ou em outras mais receptivas de endinheirados que querem manter a todo custo os seus interesses mesquinhos.  

Que os capitalistas e seus representantes políticos ajam assim é compreensível porque todo o edifício sob o qual acumulam privadamente a riqueza socialmente produzida se baseia na mentira segundo a qual é justa tal acumulação a partir da extração de mais valia, que nada mais é senão a criminosa apropriação indébita do tempo-trabalho mensurado pelo valor, que é representado pela mercadoria dinheiro.  
Mas quem é anticapitalista, e que tenha um mínimo de senso de justiça e compreensão sobre a mecânica da escravização indireta do trabalho abstrato produtor da abstração valor, não pode querer que haja uma forma política capaz de fazer justiça social a partir dos parâmetros da lógica autotélica do capital, dada a impossibilidade cientificamente comprovada de se fazer uma justa distribuição da riqueza abstrata pela subtração cumulativa pelo próprio capital de tudo que ele transforma em valor.  

Historicamente a esquerda, que se diz combativa na luta contra a injustiça social e procura defender as categorias capitalistas trabalho e trabalhador, incensando-as como dignas de suas defesas, e não de suas superações, e que o faz a partir de formas políticas aparentemente contrárias aos dogmas e doutrinas da direita, mas conservando os princípios de produção social capitalista, termina sempre por se desgastar perante os mais humildades e oprimidos.  

Os segmentos socialmente explorados pelo trabalho abstrato identificam nos políticos de direita e de esquerda como responsáveis pelo provimento de um equilíbrio social que seria representado por uma vida digna do ponto de vista do consumo, e capaz de dar a estes uma habitação confortável ao lado de uma boa e segura infraestrutura sanitária e rodoviária, boa e saudável alimentação, saúde, segurança e educação, vestuário, transporte e lazer de bons e permanentes níveis.

Assim, por delegação política, não sabem que a forma política apenas obedece aos comandos de uma relação social capitalista, e que sob tais pressupostos é impossível de existir uma forma política capaz de lhes dar o provimento de suas legítimas aspirações.  

Por entenderem (equivocadamente) que a solução dos problemas sociais passa pelo bom e honesto gerenciamento político dos impostos que pagam, promovem o movimento pendular eleitoral cíclico entre propostas políticas de candidatos à direita e à esquerda, sem compreenderem que o problema está na preservação daquilo que eles mais almejam: o emprego assalariado que os explora.  

Há uma revolta latente entre muitos jovens, principalmente entre os da periferia pobre das cidades socialmente cindidas, em verem seus pais trabalhadores e toda a sua família carentes de todos os confortos sociais de que necessitam e a que ora aludimos; tal revolta se transforma numa agressividade e violência catártica, quando não deriva para a criminalidade do lucro fácil e perigoso do consumo e comércio das drogas, ou ainda, para a cantilena conformista religiosa pentecostal da promessa de uma maravilhosa vida celestial futura.  

Não há uma correta indução pela esquerda dessa questão, que apenas coloca nos ombros de uma pretensa governabilidade com sensibilidade humanista de seus partidos políticos a solução de problemas sociais que necessariamente passam pela negação de tudo que a própria esquerda politicamente correta tem defendido.  

Já passou da hora da esquerda rever os seus postulados infrutíferos, sob pena de assistirmos impotentes ao crescimento eleitoral da direita, que também se desgasta a cada ciclo de administração política.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;