O impasse cresce de proporção

Os exemplos dos acontecimentos nos Estados Unidos com Donald Trump, o destrumpelhado, e com Boçalnaro, o ignaro, devem servir de análise do que está a acontecer no mundo político nesta fase de ocaso do sistema capitalista.

Mas o governo de Joe Biden, Emanuel Macron, Alberto Fernandes e Lula podem, também, servir de referências de análises.  

São estilos de governos diferentes nas concepções da condução do poder político diante da crise do capital; ambos ineficazes.

Houve uma inquietante similaridade entre o que ocorreu nos Estados Unidos de Trump e no Brasil de Bolsonaro e que pode nos servir de exemplo.
Lá, um governante fanfarrão que aparecia na mídia como um lutador e valentão de briga de rua; aqui, um tenente promovido a capitão por afastamento das fileiras do exército por insubordinação terrorista que teve como símbolo de campanha as armas ostensivamente empunhadas em comícios (Milei e sua motosserra seguiu o mesmo padrão e foi eleito).

Lá, o Presidente em exercício denunciou possível fraude eleitoral pelos eleitores cujo votos seriam dados pelo correio na disputa presidencial antevendo a possibilidade de derrota e premeditando um golpe; aqui, o Presidente em exercício denunciou as urnas eletrônicas que o elegeram antes (1918) e depois os governadores dos principais estados brasileiros (Minas, Rio de Janeiro e São Paulo em 2022) e a maior bancada conservadora da história do Congresso Nacional como passíveis de manipulação, e com a mesma intenção: golpe de estado.

Lá, o Presidente derrotado nas urnas, orquestrou a invasão do Capitólio, sede do Congresso dos estados Unidos, com pessoas fantasias com bandeiras dos Estados Unidos e outros modelitos mais estilizados, e com a violência que sempre marca a vida estadunidense num putsch no qual morreram 6 pessoas; aqui, desde a derrota, os seus fanáticos defensores se postaram diante dos Quarteis do Exército em várias capitais e no Distrito Federal a pedir intervenção militar contra a posse do eleito, para, após a posse do eleito, perpetrar um violento putsch contra as sedes vazias dos três poderes da República num dia de domingo, 08.01.2024, esperando que houvesse uma adesão militar a partir da decretação da GLO – Garantia da Lei e da Ordem.

Lá, foi eleito um socialdemocrata da ala mais conservadora do partido; aqui um socialdemocrata mais à esquerda da socialdemocracia, mas que faz alianças e concessões até com o diabo, se ele garantir a sua elegibilidade, e governa como qualquer socialdemocrata à direita governaria.  

Acho até que tem muitos bravos militantes remanescentes do PT de outrora (que abrigava incômodas correntes marxistas que foram expulsas pelo anticomunismo e  centralismo lulopetista), e que ainda estão por lá, que devem sentir incômodos de terem que engolir tantos sapos ideológicos em nome de uma governabilidade que apenas faz mudanças cosméticas que mantêm a essência do corpo inalterada.
Mas o que podemos inferir de um extrato analítico mais profundo destes dois acontecimentos políticos?  

A primeira constatação é a de que há uma insatisfação popular contra os governos e que se expressa no pêndulo eleitoral entre posições políticas administrativas de direita e de esquerda como busca de solução para os problemas que se agravam socialmente, sem a compreensão que tais governantes e governos são espécies políticas de um mesmo gênero: a relação social capitalista.  

Mas os governantes têm um problema a resolver: a ingovernabilidade do estado falido e a depressão capitalista que os impedem de promover a tão sonhada retomada do desenvolvimento econômico, que faria os governantes posarem como defensores liberais ou keynesianos das causas populares e dos trabalhadores, desde que estes continuem dependendo das esmolas do estado (cada vez mais precarizadas) e precisando de advogados na defesa ante o escravismo indireto do trabalho abstrato.    

Nos países da periferia capitalista a governabilidade é ainda mais difícil porque o poder político está submetido à chantagem do capitalismo internacional hegemônico e ao poder econômico das elites burguesas poderosas que esperam resolver tudo pela força militar, quando a pressão for insurgente.
A África com seus déspotas militares corruptos e sanguinários serve de exemplo irretocável do que estamos falando.  

No Brasil, o mesmo Supremo Tribunal Federal que condenou os corruptos do mensalão, e deixaram ileso o Presidente Lula, foi a corte suprema que encontrou uma série de desvios processuais patrocinados pela direita raivosa e ambicionando a volta ao poder político de seus membros serviçais (um juiz federal parcial de primeira instância guindado a Superman e Ministro da Justiça com aspirações presidenciais e que hoje é Senador).

Diante do temor da vitória eleitoral de um fascista tupiniquim genocida, pretendente a ditador supremo nos seus desvarios de plutocrata, que prometia o fechamento das instituições e substituição dos seus membros por gente da direita terrivelmente obediente, trouxeram Lula de volta, o único candidato capaz de vencer toda a máquina governamental dispendiosa colocada a serviço do candidato presidente.  

Tanto Boçalnaro, o ignaro, se deu mal, como seus filhos zero à esquerda, asseclas milicianos e colaboradores facciosos que vão desde alguns membros do Ministério Público até alguns membros energúmenos do judiciário.  

Já disseram que o Brasil não é para principiantes, e eles não aprenderam essa lição passada desde Jânio Quadros e Collor de Mello; a elite brasileira tem suficiente discernimento político para saber a quem deve temer à direita e à esquerda, e na hora adequada.

O quadro é de crescimento irrefreável da crise do capital. Até mesmo organismos internacionais criados pelos países que detêm hegemonia econômica, como a OCDE e ONU – Organização das Nações Unidas, divulgam dados insuspeitos.
 Afirma a ONU que cerca de 3,3 bilhões de pessoas – mais de 41% da população mundial – vivem em países que hoje gastam anualmente mais com o pagamento de suas dívidas do que investem em Educação ou Saúde. Essa é a principal conclusão do estudo “Um Mundo de Dívidas”, recentemente divulgado.

Segundo esse estudo, a dívida pública de todos os países do globo quintuplicou em 20 anos: saiu de 17 trilhões de dólares em 2002 e atingiu US$ 92 trilhões no ano passado – cerca de R$ 450 trilhões hoje, e não há lucros e extração de mais valia que possam quitar sequer os juros dessa dívida. As rolagens da dívida já apresentam sinais de insolvência incontornável.

Há um prenúncio claro de insolvência num ponto futuro cada vez mais próximo e que significará a bancarrota do sistema bancário mundial e suas graves consequências para o mundo capitalista e para a governabilidade do estado.  

A administração política da debacle capitalista está cada vez mais difícil, e, também, em países como o Brasil, apesar de toda a sua potencialidade em riquezas materiais que não se transformam em riquezas abstratas da economia mundial (valor monetário), senão vejamos:
– aumentar impostos, como fez Fernando Hadad, que serão repassados a uma população já exaurida economicamente, pode reduzir a escassez financeira do Estado, mas sacrifica na outra ponta sacrificar aqueles que já estão exauridos pela constante redução dos salários e da oferta de empregos mal remunerados ou não.
– pagar os pesados juros da dívida pública significa extrair do povo e da economia uma soma de valores absurdamente penosa (juros de 10% ao ano sobre um dívida que gira em torno de 84% de um PIBinho inexpressivo, e que se anuncia que será ainda menor em 2024);
– definir como meta o déficit zero nas contas públicas como quer o mercado e como já anunciou o Ministro da Fazenda, significa submeter o orçamento da União e seus gastos exorbitantes com a máquina pública (os salários de parlamentares e membros do judiciário são um escárnio diante do salário mínimo), a um critério no qual as demandas  sociais ficam sempre postergadas para um futuro inatingível;
– estabelecer como vitória a fixação de um salário mínimo (R$ 1.412,00) acima de inflação, mas que não dá para comprar duas cestas básicas, incapazes de alimentar uma família de 5 pessoas, é garantia de aceitação de menos ruim por medo do pior;      
– com um Estado que tem a conta do chá para manter o déficit zero, é impossível ter recursos para controlar os imensos gastos de combate ao tráfico de madeira, minérios, animais exóticos, biodiversidade vegetal, e de entorpecentes numa Amazônia onde a cobiça capitalista atua com olhos de exploração criminosa, e que corresponde a 41% de todo o território da Europa (Boçalnaro, o ignaro, havia dito que era maior do que toda a Europa, num arroubo de quem não tem a necessária precisão do que firma);  
– alocar recursos do orçamento para a infraestrutura capitalista (estradas e manutenção destas, energia, água, portos, aeroportos, combate à predação ecológica, etc.), numa pretensão de retomada do desenvolvimento econômico (leia-se mais exploração capitalista para fazer face à fratricida concorrência mundial de mercado), é algo assim como querer que o meu botafogo volte no tempo e retome o nível de vitórias do primeiro turno do campeonato brasileiro de 2023;
– e por aí vai.  

Somente a subserviência ideológica ao sistema;  
– o amor vaidoso pelo poder político e suas solenidades e reverências institucionais;  
– a comodidade do uso dos recursos da máquina pública em favor próprio ou de grupos e partidos;  
– ou uma ingênua ilusão de que a partir do aparelho de estado se pode mudar substancialmente a realidade;  
– ou ainda o interesse dos representantes políticos dos grandes interesses econômicos que os financiam, justificam alguém querer se sentar na cadeira governamental falida (ou todos os aspectos elencados juntos).

Há pessoas (poucas) que entram para a política institucional com propósitos bem-intencionados em servir à coletividade; estas, se não forem laçadas pela gravata e não se tornarem dependentes economicamente da máquina estatal, somente permanecem nela até quando descobrem a ingenuidade de tais propósitos.
Revolucionários verdadeiros são avessos ao poder vertical.

A Administração da crise do capital e da sua cidadela protetora e opressora do povo, o Estado, pela esquerda, é um contrassenso e uma contradição à essência dos seus postulados anticapitalistas, e uma capitulação que a história há de condenar.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;