O GRANDE LABORATÓRIO

O crime se fortalece. Países desenvolvidos, com tradição de ordem, como o Japão, não conseguem desbaratar o organizações criminosas como a Yakuza. Os EUA têm inúmeras facções desta natureza, Rússia, Itália, Guatemala, México, são exemplos disso nas democracias como nas ditaduras. O Brasil está dominado pelo crime, que despeja famílias de suas casas, faz a lei na periferia das cidades, domina os presídios e corrompe autoridades. Depressão, síndrome do pânico, suicídio, dependência química, exploração sexual de crianças, corrupção de agentes públicos, tráfico de pessoas, assassinatos e violência doméstica são verdadeiras pandemias.

Recursos técnicos facilitam investigações. Câmeras onipresentes, registros eletrônicos indeléveis, cheques obrigatoriamente nominais, acordos internacionais extinguiram os segredos dos paraísos fiscais, exames de DNA, aplicativos de reconhecimento facial, registros dos caminhos percorridos pelos celulares facilitam o esclarecimento dos crimes.

A eficácia da lei, todavia, depende de um mar de ética, segundo declaração de Oliver Wendell Holmes Jr. (1841 – 1935), da Suprema Corte dos EUA. A invencibilidade das drogas ilegais e do jogo do bicho confirmam o pensamento do jurista citado. As penas impostas pela Lava Jato e Petrolão não dissuadiram os agentes políticos das práticas ilícitas. Stuart B. Schwartz (? – vivo), na obra “Burocracia e sociedade no Brasil colonial”, descreve a corrupção nas nossas instituições desde os tempos de colônia. Sem a ética da sociedade a lei não tem eficácia. A decadência dos valores é um fenômeno complexo demais para ser analisado em poucas linhas. Mas, sem recorrer às simplificações reducionistas, ressaltamos um aspecto que nos parece pertinente ao fenômeno aqui abordado: o Iluminismo desdenhou dos costumes, baseando-se em um saber supostamente superior. Erro fatal.

O conhecimento humanístico não tem a previsibilidade das ciências duras. Não trata de fenômenos recorrentes, regidos por leis em sentido científico, como um conjunto de fatores que em condições definidas produzem necessariamente um resultado. A ação voluntária do sujeito,  não apenas um resultado possível e necessário. Efeitos inesperados fizeram fracassar todos os projetos dos saberes “superiores” que invocam em vão o “santo nome” da ciência, que abandonaram costumes ratificados pela experiência histórica por serem imperfeitos. A infelicidade induzida tornou os costumes insuportáveis e multiplicou palavras havidas como ofensas. A cidadania foi confundida com agressividade. A intolerância dos “tolerantes”, a conflagração dos pacifistas, o cultivo das mágoas e o multiculturalismo diferencialista que desencadeou lutas identitárias fragmentou e conflagrou a sociedade. O relativismo pós-moderno dissolveu referências. Ansiedade, desorientação, angústia e ressentimentos estimulados se misturaram.

A sociedade tornou-se um laboratório de teoriasAs cobaias somos nós, animais de experiência, que para não sermos ignorantes e preconceituosos aceitamos elucubrações de teóricos como uma ciência unívoca e dogmática; acolhemos o relativismo e paradoxalmente aceitamos como dogma devaneios “do bem” doesclarecidos; abadondamos costumes da experiência histórica havidos como estúpidos, desconhecendo lição dMarco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) que diz: não há pensamento  que não tenha um filósofo para defendê-lo. O resultado da reengenharia social não es sendo bom, exceto para os pescadores de águas turvas, que tiram proveito do ódio do bem” em nome do correto.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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