O fundamentalismo religioso no Brasil

“Marx foi o único que compreendeu que uma religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de política. . .”.

Albert Camus

​Quando ainda estudante de direito, tive um catedrático professor de direito processual penal que durante uma aula retirou do seu pulso o seu relógio e pediu para que cada aluno descrevesse em poucas linhas (mas não menos de dez) as características do dito cujo.

​A aula prosseguiu e ao final ele recolheu todos os escritos informando que na aula seguinte traria um comentário sobre a prova testemunhal, com base nas descrições do relógio.

​No dia seguinte, demonstrou que nos mais de 80 depoimentos sobre um mesmo objeto havia cerca de 80 diferentes formulações de opiniões, ainda que alguns pontos convergentes. Então ele afirmou: se diante de um objeto concreto, presente, havia tantas divergências opinativas, o que se dizer da narrativa de alguém com seu testemunho de um fato pretérito?

​Como disse o nosso querido Rui Martins, a Bíblia foi conjecturada a partir de relatos orais de 1.500 a 150 anos antes de Cristo, e numa época que não havia a escrita mecânica, somente criada por Johann Gutemberg no século XV desta era.

Assim, o livro bíblico se baseia fundamentalmente em relatos orais transmitidos por gerações e gerações e, portanto, com as imperfeições próprias à espécie.

​Os crentes das religiões monoteístas, islâmica, judaica e cristã, respectivamente, entendem que o Alcorão, o Torá e a Bíblia são textos enviados diretamente por Deus e, portanto, sagrados. Aceita esta premissa, as palavras contidas nos respectivas escrituras sagradas são leis divinas e inquestionáveis.

​Agora imagine o que representa uma citação das escrituras tidas como sagradas para alguém que sendo pouco versado na cultura gramatical, humanista ou científica, sem o devido enquadramento teológico-metafórico ali contido em quase todas as passagens?

​A leitura ao pé da letra de um texto tido como sagrado, inquestionavelmente, e com a subjetividade interpretativa e sentimento de injustiça social que normalmente sofre alguém com tais condições culturais, geralmente leva a conceitos e ações diferentes daqueles que poderiam sugerir o que está sendo lido.

​Fico impressionado com a quantidade de pequenos locais religiosos, autônomos, criados sob as mais diversas denominações, que existem nas periferias de todas as cidades brasileiras, gerenciadas por pastores evangélicos sem a devida formação teológica, a prometer aos fiéis a presença no paraíso a partir de determinados comportamentos e, principalmente, desde que paguem os dízimos previstos em tais escrituras tidas como sagradas.

​A primeira questão a ser levantada é a do conformismo obediente aos equivocados conceitos ministrados a partir de uma interpretação particular e fundamentalista, para que se possa alcançar o paraíso.

​A segunda questão, de cunho sócio-político-econômico-doutrinário, é a aceitação da usura como algo inquestionável, e tão natural e benéfico como o ato de se beber água e comer.
​Mesmo que se considere a existência de preparados e bem intencionados pastores evangélicos, podemos afirmar que não são poucos os indivíduos sociais de pouca instrução teológica que nas periferias das cidades brasileiras ministram interpretações bíblicas a seu talante e se aproveitam da fragilidade dos indivíduos sociais desesperados em face de um processo de mediação social que atinge o seu ponto de esgotamento pelas próprias contradições.

​A busca por uma recompensa espiritual e celestial para tanto sofrimento aqui na terra, e a promessa de prosperidade a partir de determinados comportamentos recatados e obediência cega, têm sido o móvel aglutinador e explicação do crescimento do número de seguidores de tais ensinamentos religiosos de cunho fundamentalista.

Não esqueçamos que foi a partir do desenvolvimento da vida mercantil há cerca de 500 anos, ou seja, do capitalismo em substituição paulatina ao feudalismo, que as religiões ditas protestantes ao catolicismo de então, que vivia de braços dados com a monarquia e aristocracia rural europeia, aquilo que deu substancia argumentativa à nova ordem social então surgida e em formação.

O protestantismo evangélico, que ganhou força nos Estados Unidos pelas mãos dos colonos europeus, tornou-se uma doutrina admiradora do pretenso progresso capitalista e seus ordenamentos jurídico-constitucionais, servindo de exemplo para as Américas do Norte, Central e do Sul.
Esta é a base doutrinária do fenômeno hoje existente no Brasil.

Entendo que as igrejas evangélicas têm um grande peso político-social no Brasil de hoje. Não é por menos que os políticos em geral fazem acenos de amizade e boa vontade aos fiéis evangélicos a ponto de seus próprios pastores se aventurarem na política, misturando religião, política e economia.

Mas não podemos dizer, que ipso facto, os evangélicos, em sua maioria, aderirão a projetos políticos conservadores ou não, de modo a definir o processo eleitoral de 2022.

Pelo contrário, entendo que a incursão na vida política brasileira pelos pastores evangélicos deverá representar um desgaste na credibilidade dos seus respectivos ensinamento bíblicos (vide caso do pastor Everaldo, que batizou Boçalnaro, o ignaro, e foi preso por corrupção) vez que o contraste entre a realidade das práticas políticas, obrigatoriamente nebulosas (para dizer o mínimo), entrarão em conflito com a subjetividade inquestionável da vida espiritual post-mortem.

​Aliás, entendo que o processo eleitoral, que é o canal de acesso político ao Estado opressor e subserviente ao capital, está fadado ao fracasso qualquer que seja o eleito, que terá que enfrentar as agruras de depressão econômica e problemas ecológicos impossíveis de serem resolvidos sob os marcos de uma lógica de mediação social esgotada a que estão constitucionalmente atrelados.

​Há uma descrença generalizada no segmento político e tal espaço é ocupado tanto por pregações nazifascistas de redenção social como pelo fundamentalismo religioso que prega prosperidade aqui na terra e escritura passada por um tabelião pastoral de um lote no Céu.

​O fundamentalismo religioso no Brasil ganha espaço perigosamente, e isso somente tem sido possível por conta do descrédito que bandeiras políticas atreladas ao capitalismo destrutivo e autodrestrutivo (ainda que a esquerda se afirme anticapitalista) atuam no cenário político eleitoral.

​Num meio social previdente e equânime, capaz de prover a todos confortavelmente, a questão religiosa tende a perder importância social, restringindo-se a questão pontual de transcendência existencial espiritual.

Qualquer discussão sobre o que é melhor ou pior como governante, ainda que entendamos que alguém com sensibilidade social é menos pior do que quem acha que a morte de seres inservíveis ao processo de produção do valor é solução, somente retira de foco a questão principal: como termos um modo de produção social e correspondente ordenamento jurídico-constitucional capaz de prover a todos em suas necessidades de consumo e de modo ecologicamente sustentável.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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