O fracasso da nobreza e a nobreza do fracasso

O Vermelho e o Negro é um livro considerado por muitos um romance sobre a ambição, aliás, como o romance da ambição por excelência. Era outubro de 2009 e eu morava em Porto Alegre com o meu então companheiro, o saudoso Valdo Barros, que concluía na PUC o mestrado em Filosofia. Numa das dezenas de passeios, entrei num sebo e comprei por 20 reais, ali na Cidade Baixa, e li no Parque Farroupilha ou simplesmente Redenção, ora regada a vinho,  em outras a chimarrão, a história de um jovem provinciano, de origens modestas, que parece destinado a ser um artesão numa pequena cidade, ou no máximo ser um padre. Quem não tinha a sorte de ser “bem nascido” arriscaria uma vaga no clero pra tentar enriquecer. Julien Sorel almeja uma vida grandiosa para si próprio. Até se inspirou, se identificou com Napoleão e desprezou os medíocres de seu ambiente.

 

Quando, na sequência da história, Julien se torna o secretário de um grande aristocrata em Paris – o que já representa uma promoção inesperada, colocando-o muito além do seu meio social – isto não é o fim, e sim apenas a primeira etapa de uma carreira que, como escrevi acima, ele espera ser grandiosa. Dito assim, parece apenas a descrição deste fenômeno tão universal quanto vulgar: a carreira, o sucesso, tornar-se rico e poderoso.

No mundo de Stendhal, que é também o mundo de Balzac e de outros escritores franceses da primeira metade do século XIX, este sucesso social está, então, entrelaçado com o sucesso amoroso: o jovem provinciano em carreira – belo e inteligente – deve conquistar os corações das mulheres de “alta” classe. É característico deste universo que não esteja claro – e os próprios protagonistas parecem não o saber claramente – se a carreira social serve, afinal, à carreira amorosa, ou se a carreira amorosa serve à carreira social. Na verdade, as duas carreiras remetem continuamente uma à outra, numa espécie de círculo virtuoso ou vicioso, dependendo das circunstâncias. Cada uma das duas atividades é, ao mesmo tempo, um jogo e uma atividade levados a sério. Um jovem de admirável intelecto, visando sua ascensão social, seduz madames da high society, num jogo de “amor” e poder. É isso mesmo? Vamos olhar mais de perto.

O que complica a situação e a torna interessante para um romance é a interferência do amor quando este não serve apenas para se elevar na sociedade. Dito de outra forma, nem todos são cínicos e sem escrúpulos na carreira, e, portanto, medíocres. Os heróis de Balzac e Stendhal também têm coração, e isto por vezes arruína-os. Lucien, o protagonista de “Ilusões perdidas” de Balzac, publicado alguns anos após “O vermelho e o negro”, segue a sua amante, Madame de Bargeton, de sua província até Paris, por adoração, mas também porque espera que ela lhe abra as portas da alta sociedade.

 

Em Paris, ela o afasta e o amor é desfeito ou não mais assumido por Lucien ser apenas um pequeno burguês, e Bargeton temer a ridicularização pelo comportamento rude do enamorado. Então, ele conhece um amor sincero com uma atriz-prostituta, Coralie. Após os seus primeiros sucessos literários, Madame de Bargeton quer aproximar-se novamente dele. Lucien, por sua vez, rejeita-a e escolhe a fidelidade a Coralie até a morte da moça.  Mais tarde (em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”) a alma de Lucien se corrompe mais uma vez, e ele, a fim de avançar na sociedade (num projeto falho) faz de tudo para casar com uma moça aristocrática, pouco atraente, é certo, mas, filha de um marquês.

 

O caso de Julien de Stendhal é diferente. Em vez de riqueza e poder, ele sonha com a verdadeira glória: um destino fora do comum. Está disposto a tudo, até mesmo a morrer, o que um “carreirista” não faz. Na famosa cena no jardim, onde tenta seduzir a Madame de Renal, Julien decide atirar sobre si próprio se não encontrar coragem para tocar-lhe a mão, no escurinho por baixo da mesa, sentada à frente do marido.

Mais tarde, vai morar em Paris. Acredita ter perdido o amor de Renal. E se envolve num novo amor, com Mathilde. Como a moça é filha de um importante marquês (devia existir muitas filhas de marquês em Paris na época!) Julien pode combinar amor e ambição. Porém, quando uma carta de Madame de Renal o trai, Julien abandona todos os cálculos, toda a estratégia, segue apenas os seus sentimentos e corre para a sua cidade natal a fim de matar Madame de Renal. Ela sobrevive ao ataque. Depois, tanto Mathilde como Renal tentam salvá-lo – Julien não quer ser salvo! Julien não quer a salvação! E é guilhotinado. Prefere um final terrível, de alguma forma glorioso, a soluções medíocres. É, portanto, um autêntico herói romântico. Aqui, a única e verdadeira glória reside no fracasso, e não num estratagema para se tornar um ministro.

 

Todavia, Julien não é um mero “sedutor vulgar” e o amor de Madame de Renal é puro, é simples. Enquanto o amor de Mathilde é parcialmente viciado, não com a exaltação do amado, mas dela mesma. Um tanto narcisista. Deseja recriar sobretudo uma história romântica, sentir-se uma heroína, romper com o seu ambiente social e fazer como a sua antepassada ao repetir o ritual (a cabeça do amado). O amor de Mathilde é também amor de projeção.

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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