O Feminino que Há em Mim, por Luana Monteiro

Sou mulher e sou feminina. Sempre gostei de demonstrar na minha aparência certa dose de delicadeza e serenidade. Possivelmente nem sempre consegui. Carrego em mim alguns aspectos que foram citados por terceiros como não pertencentes a uma mulher: voz grave de entonação forte e um pomo de adão um tanto visível na garganta, talvez a primeira coisa seja decorrente da segunda.

Por muito tempo fui atormentada pela ideia de ser menos “mulher” ou mesmo menos delicada ou feminina (coisas que para mim eram sinônimos) por ter tais características. Que tola!

Essa situação, no entanto, perdurou até o momento em que eu aprendi a fazer as perguntas certas. Deixei de questionar minha própria aparência e qualidades, e passei a duvidar do ideal de feminino que estava edificado à semelhança de quatro parede altíssimas que bloqueavam a visão diante de mim.

Mas, afinal, o que é tipicamente feminino? Aparentar fragilidades, demonstrar afetuosidade acima de tudo, estar sempre com um sorriso de prontidão a qualquer hora do dia, aceitar de bom grado os espaços que lhe forem cedidos, sempre agir de modo a agradar os demais, ser incapaz de lidar com questões cotidianas?

Penso que nenhuma das características que geram opressão na ação e nos sentimentos das pessoas deveria ser nutrida, muito menos considero saudável esperar posicionamentos tão frios dos indivíduos em geral e das mulheres em especifico. Se isso é ser mulher e feminina, logo, de cara, esse não é um projeto a ser apoiado.

O feminino que eu construí, ao passo que problematizava minha própria vida, sempre foi a expressão da inconclusão, primeiro por tentar desconstruir tudo e segundo por cair na mesma armadilha do tipo ideal ao tentar remodelar o que deveria ser feminino. Como eu poderia querer criar um conceito que explicasse e unisse como deveriam ser as mulheres? E a cada vez que eu tentava, descartava mais elementos e os que restavam eu ponderava sua verdadeira intenção. Cada coisa que eu pensasse para descrever o que era ser uma mulher só me colocava mais e mais dentro da enganação das estereotipações.

Eu poderia dizer que ser mulher é sinônimo de força, de perseverança, de atitude e de amor. E se ela não for isso, logo ela não é mulher? Ser feminina é estar com as unhas feitas, os cabelos “alinhados”, perfumada, com a aparência “agradável”? Isso na verdade não faz de ninguém uma mulher, mas caracteriza-a como consumidora de produtos e discursos majoritários..

Se nos colocamos a pensar nos diversos tipos de opressão que nós realizamos silenciosa e abertamente no nosso cotidiano será possível notar que não só as críticas, mas também os elogios dirigidos sem uma explicação de sua existência podem ocasionar grande impacto na vida daquele que nos ouve ou vê.

Elogiar também é um forma de gerar opressão. É preciso pensar minuciosamente nossas formas mais comuns de interação. Penso sobre o impacto do elogio quando lembro a história de uma mulher que teve bulimia na adolescência. Sua grande sina era a busca pela magreza, por mais que ela já fosse muito magra. Sua meta era sempre perder mais peso. E mesmo estando em uma situação de adoecimento ela ainda ouvia comentários elogiosos de sua aparência.

Que direito nós temos de gerar opiniões e externar tais opiniões para os demais? Porque o corpo dos outros (e o nosso próprio) gera tanto desconforto e incômodo em nós?

Como em um processo de despertar para a construção da própria identidade, é preciso saber ouvir, mais do que argumentar. É necessário também sabedoria para fazer as perguntas certas para destravar o que nos impede de alcançar nosso próprio ser selvagem.

A verdadeira busca deve estar não na criação de novas significações para o que é ser feminina, mas sim no que podemos realizar para nos desprendemos das amarras que geram dor e sofrimentos desnecessários em nós e nos outros.

O interessante nessa minha tentativa de reescrever o que era o feminino para mim mesma e fugir das cisões de sexo e do machismo enraizado foi perceber que talvez o que era feminino para mim poderia não ser para outra mulher, e nem mesmo para um homem.

Por que, então, eu deveria aceitar a tese de que tinha que ser feminina e sair defendendo por aí, tentando convencer os demais? Foi nesse caminho que deixei de lado muitas práticas que só me traziam sofrimento e ainda me faziam ter sentimentos de inadequação, incompletude e desconforto com minha morada sagrada, meu próprio corpo.

São tantos minutos do dia tentando “corrigir” o que parece ser um pecado na própria imagem que as pessoas, e aqui incluo todas as pessoas, não percebem que passam a rejeitar aquilo que é genuinamente seu, sua própria forma e exterioridade. Os padrões de beleza e sexualidade são os critérios mais explorados para alcançar a aceitação dos demais. E são eles mesmos os mais adoecedores e nos permitimos carregá-los como sobrepeso nas costas.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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