O Fantasma voltou!

Quando correu pela província a notícia de que o Fantasma de Licânia estava de volta, o pânico se instalou.

O Fantasma voltou!

Meu Deus, além da peste, teremos que nos ver com o Fantasma!”, lamentavam os licanienses.

A partir de então ninguém colocava mais o pé fora, e Licânia mergulhou na condição de urbe mal-assombrada.

A sorte de alguns pés-de-cana é que estavam abastecidos da “seiva vital”. Nem o delivery de pinga do Gazumba funcionava, os entregadores fugiram para o alto do Serrote da Rola e, de lá, só dariam as caras quando o dito-cujo voltasse para o além-túmulo.

No interior das casas, até as novenas em honra à Virgem Maria e à Senhora Sant’Anna eram proferidas em baixo timbre. “Mamãe, não estamos escutando nada. A senhora está rezando ou se lamentando?”, reclamavam os pequenos. “Calados! A partir de hoje iremos escutar com o coração!” Cadinho da De Lourdes, traquinas, comentou: “O meu coração é surdo, surdo!”. Passou a ouvir melhor quando Sebastião, seu pai, abriu-lhe as oiças com um tabefe bem aprumado. “Ave Maria, cheia de graças, o Senhor é convosco…”

Mais do que depressa a notícia do fantasma se espalhou nas redondezas, e as viagens para Licânia foram canceladas. Dado que há dias o ônibus da Redenção saía vazio de Fortaleza, a empresa cuidou de suspender o itinerário. Os carros de passeio, quando contratados a peso de ouro, largavam os clientes a um quilômetro da entrada. “Agora, se quiserem seguir, senhores, só a pé. Não seremos loucos de encarar uma alma penada em tempos de pandemia”, alertavam os motoristas de praça.

Como ninguém saía, o Fantasma de Licânia não foi visto, logo não se tornaria um “fato histórico”, segundo alguns intelectuais negacionistas.

Nos compêndios do Instituto Histórico e Geográfico de Licânia (IHGL) não registrarei uma vírgula sequer acerca desse embuste! — arrotava o professor Euclides Pasmácio.

Uma semana depois daquele protesto euclidiano, professam as más línguas, o professor Pasmácio saiu em carreira desabalada da sua residência, abriu a sede do IHGL, e passou mais de duas horas, na alta madrugada, a eternizar o fato histórico no tomo maior do IHGL. Dizem que ele escrevia e perguntava a um espectro presente: “Está bom assim? Quer que eu melhore algum detalhe?” Segundo nosso proto-filósofo João Américo, Pasmácio levou tanto tempo na mencionada ata porque o domínio da língua pátria nunca fora o forte do historiador, e, segundo evidências do registrado, o Fantasma era um exímio camoniano.

O que causou estranheza a este narrador foi a ausência do Companheiro Acácio. Na verdade, o silêncio de Acácio.

Com todo esse quiproquó, encontrei-o no fundo de uma rede, na varanda da casa do seu Zequinha, lendo A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Saudou-me com versos do florentino, extraídos do “Inferno”:

Da nossa vida, em meio da jornada,

Achei-me numa selva tenebrosa,

Tendo perdido a verdadeira estrada.

Acácio recitava em tom festivo, enquanto coçava o bigodinho sempre bem aparado. Estranhei aquela postura e indaguei:

O seu mister de investigador agora rendeu-se ao alumbramento poético?

Companheiro silenciou. Em seguida levantou-se, rumou para a cozinha, voltando de lá com um bule de café fumegante e duas xícaras de ágata. Serviu-nos, e sorveu a rubiácea com o olhar perdido.

Resolvi espetá-lo:

Nós nos conhecemos muito bem. A omissão nunca foi apanágio nosso. O que você descobriu, ou sabe, acerca do retorno do Fantasma de Licânia?

Acácio passou os dedos sobre a obra de Dante, e recitou de cor outro terceto:

Por que sem medo às trevas hei descido.

Somente as cousas recear se deve

Que a outrem pode ser causa de dano (…)

Fui tomado pela certeza de que havia algo intrigante no comportamento acaciano, um quê do indecifrável invadia aquelas pupilas negras, um acento de incognoscível assomava no tom daquele discurso.

A tarde se despedia, e os pássaros não chilreavam por entre os galhos dos benjamins da Praça do Poeta, como de costume. Despedi-me de Acácio com um gesto de enfado.

Licânia lá fora tremia no suplício do medo e do abandono. Com pouco mais a noite caiu e nenhuma luz sequer lampejou no horizonte sem nuvens. As estrelas fugiram dos céus de Licânia.

O Fantasma voltou!

Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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1 comentário

  1. Avatar

    RAIMUNDO ANTONIO DE SOUZA LOPES

    Esse fantasma está querendo aparecer em tempo de pandemia, é? Acho que desta vez o jucá do cabo vai funcionar perfeitamente…

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