O fantasma do Comunismo

“Se o comunismo acabar, quem vai levar a culpa?
Jô Soares.

O problema do capitalismo atual não é a ameaça do comunismo, mas o próprio capitalismo.

Na falta de uma autocrítica sobre a resultante capitalista mundo afora, que foi incapaz de promover a prosperidade linear, mas, ao contrário, está agora, no seu ocaso, aprofundando a miséria linear, os recalcitrantes reacionários conservadores de direita e ultradireita clamam pela força bruta para conter a incontrolável revolta eleitoral dos deserdados e despossuídos.

Assim, para eles, mas não apenas para eles, comunista virou sinônimo de delinquente social.  

Quem não adere ao conservadorismo irracional que prega o retrocesso civilizatório como forma de preservação da moral retrógrada e dos pretensos bons costumes é taxado de comunista.  

O problema, portanto, desta horda de fanáticos embandeirados de ver-amarelo num patriotismo xenófobo é que o capitalismo está a se decompor por dentro.  

Não é a ação revolucionária externa e dirigida pelos trabalhadores unidos em um partido revolucionário aquilo que está a questionar a exploração capitalista, mas, ao contrário, é a própria desintegração dos trabalhadores atingidos pelo desemprego estrutural que decresce a massa de valor global da economia graças à substituição majoritária do trabalho abstrato produtor de valor pela máquina, capital fixo, não remunerado em valor e sem produzir valor.  

É a tecnologia aplicada à produção de mercado4ia o sujeito da revolução capaz de superar o capitalçlismo definitivamente num tempo histórico que não correspoijnde cronologicamente à vida de um ser humano. É por isto que os detratores da revolução que prega o fim do capitalismo afirmam jocosamente que já ouviram repetidamente a afirmação de que o capitalismo acabou.  

Não, o capitalismo não acabou, mas está na UTI do tempo, metastizado, e vive a sua dor final amparado por aparelhos (a emissão de moeda sem valor e aumento da dívida pública e privada).

Entretanto, a sua queda histórica não é pacífica. O aquecimento global é apenas um fenômeno que nos ameaça a todos, e provocado por um sistema de produção de mercadorias que já é deficitário e se parar provocará um abalo sísmico na economia mundial.  

A emissão de CO² na atmosfera pelo consumo de combustíveis fósseis, cuja redução ou eliminação tem sido tão prometida pelos dois países mais poluentes (Estados Unidos e China) nos protocolos ambientais internacionais nunca são cumpridas, justamente porque a pulsão destrutiva e irracional do capital tem sido mais forte do que o instinto de sobrevivência humana.
Aliada à questão mais abrangente da poluição atmosférica e poluição de rios, mares e subsolo, vem a pobreza mundial e a fome crescente (conforme afirma a FAO, organismo das Nações Unidas para a alimentação) como dado fundamental para a sedimentação de um consenso popular sobre a necessidade de um modo de produção e mediação social que supere a relação social corporificada na forma valor, dinheiro e mercadorias.  

O capital da sua trajetória de morte tenta nos levar a todos de roldão para o abismo.
O fantasma da ameaça do comunismo tem sido uma arma dos reacionários irracionais da direita e ultradireita como tentativa de conter qualquer avanço social que represente a superação do capital.  
Mas os heróis bem-intencionados que fizeram as revoluções marxista-leninistas não foram capazes de promover a necessária transição de um capitalismo de Estado para uma sociedade comunista na qual as categorias capitalistas (valor, trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, partido político, política, etc.) fossem superadas e desaparecessem.  
O mundo jamais experimentou uma sociedade comunista na acepção correta do termo, a menos que consideremos como comunista uma aldeia dos confins da Amazônia que jamais teve contato com outro ser humano, e desprovida de qualquer saber tecnológico e científico, mas apenas fazendo uso de saberes rudimentares, mas tendo a sapiência de tudo partilhar sem acumulação indébita e hierarquia opressora.  

As experiencias iniciais sob o receituário marxista-leninista em países originalmente rurícolas como a Rússia e a China, optaram por uma acelerada industrialização sob os moldes capitalistas e conseguiram recuperar no tempo o atraso de suas relações feudais ou semifeudais.  

Como esses dois países têm dimensões continentais, foram capazes de suprir internamente as suas carências materiais e avançar na recuperação diante do atraso das suas relações econômico-industriais com o ocidente capitalista, branco e masculino excludente e desenvolvido.
Mas o uso do cachimbo entorta a boca.
O que se viu foi um avanço das relações capitalistas de Estado para uma abertura ao capitalismo de mercado mundial. É que o capital é viciante tal qual o que se observa num cassino, com os jogadores ávidos em acumular prêmios que nunca vêm na jogatina, a não ser para os banqueiros donos dos ditos cujos.     Como se admitir como comunista um país como a China?  País que oferece ao mundo mercadorias baratas a partir de uma produção empresarial capitalista de extração brutal de mais-valia, e que assim solapa os fundamentos capitalistas a partir de fundamentos de um capitalismo selvagem?

Por vezes fico a pensar que Mao Tse Tung jamais imaginou que sua revolução armada vitoriosa contra os nacionalistas de Xian Kai Chek poderia solapar o capitalismo mundial usando o próprio capitalismo e suas regras de mercado como fator desestabilizador do dito cujo.  
O que dizer da Rússia, atualmente governada por um ditador plutocrata que diante da incapacidade de vencer a guerra perante um país menor e menos populoso por ele invadido injustificadamente, torna-se um franco atirador de mísseis de longa distância que matam civis indiscriminadamente?

É a confusão semântica sobre o conteúdo do receituário marxiano de comunismo, identificado nos maus exemplos da Rússia e da China num mundo de economia capitalista globalizada, aquilo que é largamente usado pelos capitalistas em geral como o oposto daquilo que praticam.
Não, senhores, o capitalismo de Estado não é comunista, e opera sobre as mesmas bases categoriais do capitalismo de mercado liberal clássico ou keynesiano social-democrata. Estas três formas de capitalismo representam o oposto ao que contém o ideário comunista que seria capaz de promover prosperidade linear, paz e elevação do intelecto humano, ao invés dessa miséria material de fome e pobreza eco/suicida capitalista.  

Há um provérbio chines que diz “a palavra ensina, o exemplo arrasta”.  

Entendo que a Rússia e a China, mesmo sendo países atrasados ao tempo de suas revoluções marxista-leninistas, mas por terem dimensões continentais e capacidade de suprimento de suas necessidades de consumo, uma vez fechados para o ocidente capitalista como fizeram no momento inicial  (mesmo considerando as dificuldades causadas pelos contras financiados pelo ocidente capitalista), poderiam ter tomado rumos diferentes daqueles que praticaram.

Como ao invés de negarem as categorias capitalistas, esses países estimularam e incentivaram as existências destas sob um monopólio estatal de mercado interno que é o pior modelo de concorrência de produção e comercialização. Paulatinamente tiveram que evoluir para um capitalismo liberal abrindo as portas para o capital externo e passando a concorrer com estes sob uma mesma lógica.  

Ora, para manter as rédeas de uma regime de exploração no qual os trabalhadores produtores de valor jamais foram beneficiados da riqueza abstrata por eles produzida, vieram regras de contenção política em nome de um comunismo que jamais existiu e que nega todo o primado de socialização comunista de fraternas relações humanas.  

Assim, a propaganda ideológica capitalista passou a rotular como comunistas exemplos históricos que mais do que se assemelharem, são idênticos aos opressores, excludentes e exploradores métodos do capitalismo liberal ocidental clássico, mas com o defeito adicional de serem politicamente fechados e injustos.
Ao longo da história as mutações semânticas são frequentes e intencionais, e exemplo disso podemos extrair da palavra democracia, hoje tida como critério inquestionável de participação popular saudável.  

Na Grécia antiga, o termo democracia serviu para significar a diluição do poder centralizado num monarca em uma maior participação social.  Mas tal participação excluia os escravos gregos que existiam em grande número. Somente os demos podiam ter voz nas audiências públicas de deliberação.

Por consequência, a democracia grega não era tão democrática assim.  

Do mesmo modo a democracia burguesa moderna, regida pelo poder econômico dominante e dentro das regras preestabelecidas pela ordem jurídico-constitucional capitalista, não representa a livre manifestação consciente do eleitorado manipulado e vigiado, principalmente nas regiões mais afastadas do interior, que representam a maioria do eleitorado.  

Isto não significa que a o oposto irrecusável da democracia burguesa seja a ditadura, como pedem os fanáticos eleitores derrotados do Boçalnaro, o ignaro. Se a democracia burguesa é uma arapuca de representação popular, a ditadura é já a prisão popular dentro da arapuca.  

Como vimos, a deturpação do conceito de comunismo, extraído a partir de exemplos negativos de socialização sob as insígnias comunistas, provocaram uma ideia dominante de que ser comunista é querer subtrair a a riqueza socialmente produzida, e agir de modo despótico, como se o capitalismo não o seja.  

É graças a isto que tenho usado a palavra emancipacionismo (que não é criação minha, mas da turma da crítica social marxiana do valor) como ideal de realização da justiça social a partir de critérios de produção social fora da lógica capitalista da forma valor; sob novos cânones do direito; e sob critérios de organização jurídico-constitucionais de base popular.
 
A direita derrotada considera Lula como comunista, e esta pretensa pecha que lhe e atribuída é tão obtusa quanto considerar Hitler como democrata.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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