O ESTOMACAL, SEU LUNGA E MARIA PREÁ

 

Estamos no ano de mil, novecentos e setenta e cinco, mais precisamente no terceiro quadrimestre, popularmente conhecido como o bê-erre-ó-bró, que, segundo os mais velhos quando éramos os mais novos, provocava um fenômeno, não reconhecido cientificamente, que se manifestava através da aceleração no andamento do tempo, aproximando, consequentemente, a época dos festejos natalinos e do réveillon. E o mundo, então, vivenciaria alguns dias de muita luz, amor e paz, em meio aos tradicionalíssimos “Noite feliz!”, “Adeus, ano velho!” e “Feliz, ano novo!”.

Fazendo um recorte político, temos que, nas mãos firmes do general “linha dura” Ernesto Geisel, de raízes germânicas e formação luterana (a quem se atribui a expressão “É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”), repousavam as rédeas do então fragilizado poder republicano. Gaúcho de Bento Gonçalves, temido, por algumas características bem peculiares, incluindo o porte físico, não se contentava em apenas sentar-se na cadeira reservada à presidência. Com o Brasil ainda submetido ao jugo do regime militar, já uma ditadura disforme, ombreou-se ao também general Golbery do Couto e Silva – formando, no dizer de Elio Gaspari (A ditadura envergonhada), o duo Sacerdote e Feiticeiro – e, juntos, mandaram no país “como poucas pessoas o fizeram”. Mais adiante, já no final de 1978, Geisel iria desmantelar o regime que ajudara a criar, destacando-se a revogação do Ato Institucional nº 5 (o famigerado AI-5) e tornando possível ver, lá no fim de um túnel sombrio, um fio de fumaça, talvez de esperança – ou certamente de sonho – com o retorno, lento e gradual, à tão desejada democracia. No governo do Estado, o cargo máximo fora confiado, em recente eleição indireta, ao coronel Adauto Bezerra, indicado por Geisel, enquanto o Paço Municipal baturiteense mantinha-se sob a gestão do médico Raimundo Ivo dos Santos Oliveira que, na acirrada eleição de 1972, vencera nas urnas a mais nova liderança política regional então surgida, na figura altiva, destemida e contestatória do jovem Francisco Zamenhof de Oliveira. E o país ainda convivia com o bipartidarismo. De um lado, considerada situacionista, a Arena (Aliança Renovadora Nacional) detinha a grande maioria dos cargos do poder público, nos três níveis – federal, estadual e municipal – e, de outro, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), no papel de oposicionista, voz que se levantava, gradual e não raramente de forma velada, no meio do povo, contrária ao regime de exceção ou, conforme a visão de muitos, ditatorial.

Era o ano do Coelho, no horóscopo chinês. O mundo ainda não vislumbrava qual seria a revolução que experimentaria com os avanços tecnológicos a partir do surgimento da Microsoft e a “criação e abertura de janelas virtuais”, frutos da genialidade de dois jovens americanos, Bill Gates e Paul Allen.

Na terrinha, o núcleo urbano central espraiado sobre o “lombo” do platô entre-rios e ramificações declivosas para além dos Aracoiaba e Putiú, no sopé da aprazível, encantadora e fecunda serra, a uns duzentos metros acima do nível do mar, a vida transcorria em constante calmaria, na toada de sempre, sem fatos e sem abalos sociais que merecessem registro histórico, com as devidas ressalvas de quem já se vale de memória quase septuagenária e, obviamente, bastante desgastada pelo tempo.

No Putiú, o bairro que me viu crescer, adolescer e amadurecer, palco de muitas das minhas traquinagens pueris e juvenis, o futebol passava por mais uma fase de recesso de meses, certamente por problemas de ordem financeira, haja vista que historicamente era ele dependente do desprendimento e das disponibilidades de abnegados, algo que, à época, carecia de arroubos pontuais de Antônio Pereira, Jaime Carlos, Vicentinho Pinto, Zé Paulino (o BOC) e, mais acentuadamente, da jovem liderança local do “padim” Ribamar, um dos filhos do seu Chico Alves e irmão do então vice-prefeito Adauto. O certo é que o campo da Feira do Gado, entre a Manga, pasto cercado, em regionalismo nordestino, e o Matadouro Público ou “Matança”, como era popularmente chamado, encontrava-se temporariamente abandonado, entregue às ervas daninhas.

A estação ferroviária estava – havia alguns meses – sob nova chefia, eis que o seu José Elias, profissional de elevadíssimo nível, merecedor do respeito dos dirigentes da empresa, do pessoal do “Movimento”, setor responsável pelo tráfego de trens, os de pessoas e os de cargas [equivalia, por assim dizer, à torre de controle dos aeroportos], e, mais ainda, de todos – ou quase todos – que faziam a rede funcionar, vindo de Caio Prado, distrito de Itapiúna, substituíra o longevo e ora aposentado seu Murilo, o pai dos meus amigos Hélder, um jovem ator dramático e cômico em potencial, e Assis ou Neném, ex-colega salesiano. Eram seus auxiliares diretos os telegrafistas Jaime Carlos, o subchefe, ser humano digno das melhores referências, profissional de alta eficiência e cidadão respeitável, e João, ainda com pouco tempo de estrada, recém chegado por transferência de alguma cidade da linha sul, cujo nome ora a memória não recupera.

Nós compusemos – eu, já agente de coleta do IBGE e professor cenecista, o Zé Elias, o Jaime e o Carlos Bezerra ou Carrim, auxiliar de administração da REFFSA, lotado no escritório que funcionava nos altos da estação secular – um saudável grupo de amigos que se fortalecia a cada evento de que participávamos. Convém aqui assinalar que, nas eventuais idas à capital, mais precisamente ao modesto e acolhedor estádio Presidente Vargas ou ao ainda inacabado Castelão, em tardes de domingo ou em noites de quarta-feira, com o propósito de assistirmos a jogos do Ceará – embora o Jaime fosse torcedor do Fortaleza (– E do Bangu!, ele sempre complementava), o Carrim, declaradamente não adepto ao futebol, não nos acompanhava, sendo naturalmente substituído pelo Edmilson Franklin, até porque era no jipe 56 por ele dirigido que realizávamos, no mais das vezes, essas viagens de pouco mais de cem quilômetros por estrada asfaltada, à busca de divertimento sadio.

Naqueles tempos, o bê-erre-o-bró de 1975, íamos, em alguns sábados à tarde – quando a escala de plantões da estação ferroviária liberava os dois, o agente e o subagente –, aproveitar o clima bonançoso e a tranquilidade reconfortante do Balneário Itamaracá Clube, com suas frondosas mangueiras e seu sistema de piscinas de águas da fonte e correntes, sem filtros, o point de lazer por excelência dos baturiteenses, àquela época. Lá, vivenciávamos momentos de descontração, de recuperação de energias, de exaltação à Vida, enquanto saboreávamos algumas cervejas Astra estupidamente geladas e apreciávamos a pródiga e elogiadíssima cozinha do Fransquim Moreira. Lá, chegávamos aí pelo meio da tarde, sentávamos a uma mesa estrategicamente posicionada, à sombra de generosa mangueira, entre a piscina maior, no lado oposto ao do trampolim, e uma das vias de acesso ao bar, conversávamos sobre assuntos os mais variados e, completamente satisfeitos e agradecidos por essa dádiva, retornávamos às nossas origens à boquinha da noite, com a cidade já toda engalanada com luzes artificiais e com a lua, quando havia luar, já se revelando poética e romanticamente.

Logo num dos primeiros desses encontros, dois fatos me foram por demais marcantes, tanto é que ainda se mantêm gravados indelevelmente na memória.

Um deles alberga o solene pedido de desculpas do Zé Elias, em face de, por reconhecida falta do devido cuidado, haver-me tratado deselegante e imerecidamente, mesmo à certa distância e sem ainda me conhecer. O fato, segundo ele, ocorrera exatamente no sábado da sua estreia em plantões da estação ferroviária cujo comando recentemente assumira, ao ver-me, de calção, descalço e com camisa de time de futebol sobre um dos ombros e pronto para um dos bem disputados rachas, ali sob a fronde de largas folhas de uma das castanholeiras que protegiam dos raios solares a lateral da casa do seu Expedito, o mestre de linha de então, receber com abraço e beijos apaixonados aquela que viria a ser a minha eterna parceira, recém chegada para o período de férias na casa da avó. A cena por ele acompanhada com olhos de pai, através das altas e largas janelas do espaçoso salão da telegrafia, ensejou-lhe, de imediato, o seguinte comentário desairoso a meu respeito: – Isso é de todo inaceitável! Um pai cria e educa uma filha, com sacrifício e carinho, e, quando ela cresce, submete-se ao desrespeito de um vagabundo qualquer! Oficializadas as desculpas, levantei-me, dele me aproximei e, com um leve sorriso no rosto, propus-lhe: – Bem, amigo! Agora que já sabemos quem somos, só nos resta um abraço fraterno para selar definitivamente a nossa amizade. E os outros dois nos aplaudiram de pé.

O outro abriga o louvável gesto do João Batista Furtado, o 1º Tabelião Público e oficial do Registro Civil, ao dispor-se a compartilhar conosco desses agradáveis momentos, revelando-se magnânimo, altruísta, e causando em nós natural estranheza, em face de haver, àquela época ainda, embora veladamente, uma divisão de caráter socioeconômico entre os que habitavam a Rua – era como nos referíamos ao centro da cidade, principalmente as duas principais vias de fluxo interno, iniciadas na praça de Santa Luzia: a 7 de Setembro, com extensão pela Proença até a praça da Matriz, e a 15 de Novembro até o antigo Solar dos Ramos, na praça Waldemar Falcão – e formavam a elite da sociedade baturiteense, no topo, e todos os outros núcleos urbanos periféricos na base, com um agravante em relação aos putiuenses que, no curso de um longo tempo, éramos pejorativamente considerados os índios, no sentido de incultos ou incivilizados.

Aceito em nosso meio, o João Batista trouxe-nos um discurso de convencimento porque ancorado em verdades que defendia, perceptíveis a olho nu. Depois que sorveu uma boa dose de Campari, com cubos de gelo e rodelas de limão, acompanhando-nos numa rodada de cerveja, delineou a sua participação no grupo: Disponho-me a discutir com vocês sobre qualquer assunto, exceto trabalho e política. Pode ser música, futebol, família… até casos de polícia, de traição, de separação, de prostituição… Olhem que eu sei de muita história, conheço muitos casos envolvendo inclusive gente fina, finíssima… Sorriu e desculpou-se. Na sequência brincou: Vocês sabem o que significa Astra, a marca da cerveja que vocês saboreiam? Não?! Então, vou decifrar pra vocês: Água Salgada Tirada do Riacho do Acarape [À época, o abastecimento d’água de Fortaleza, onde a cerveja era envasada, dava-se por grossa tubulação de ferro que ia de açude do Acarape, então distrito de Redenção, até a capital]. Certa vez, propôs que mantivéssemos o respeito mútuo, sem que, com isso, inibíssemos o relacionamento saudável entre nós. Noutra, sustentou que não comungava com a absurda ideia da segregação dos bons e ruins, da elite e ralé, do Bem e Mal, concluindo que isso só agudizava o processo cruel da discriminação, abominável sob todos os aspectos. E, em mais outra, afirmou que, por nos conhecer razoavelmente bem, sentia-se até na obrigação de reconhecer a nossa importância no âmbito da sociedade que cotidianamente construíamos. E foi mais adiante: Nós somos muito bons no que fazemos. E fazemos com prazer e competência. Por isso, entregamos o que há de melhor em nós a quem demanda por nossos serviços. Quanto ao mais, tudo não passa de idiotismos ou ignorâncias sociais. Comoveu-nos. Lembrei-me, então, de O jardim do profeta (Khalil Gibran), mais precisamente da frase: Trabalhar é tornar o amor visível.

Em outubro, ao saber do meu noivado, indagou-me com alegria levemente contida: E quem é a felizarda, professor? O Zé Elias antecipou-me na resposta: É uma das filhas do Antônio Pereira, o ex-mestre de linha… Menina prendada! Felizardo é ele… E olhou pra mim com um sorriso meio desenxabido. O tabelião, após chamar o garçom e, com classe, fazer o pedido de sempre: Filho, por favor, me traz mais um estomacal… e não se esqueça do limão… em rodelas!, dirigiu-se a mim, com o olhar desviado para alguém que lhe chamara a atenção, no outro lado da piscina: Filha do Antônio Guariba, hein! Sabe que seu sogro, apesar de turrão, é gente muito boa?! E eu, que até então me mantinha calado, aduzi: Essa é mais uma das razões que me levaram a escolher a filha dele, a herança genética… E ele espichou a conversa: Garoto esperto! [Isso me fez lembrar o vigário dos tempos em que eu era aluno do Grupo Escolar Monsenhor Manuel Cândido, ainda nos primeiros anos do primário, cuja camisa da farda, branca, carregava no bolso do lado esquerdo, ali onde bate o coração, o emblema da escola em formato de losango, duas letras bordadas à máquina com linha azul, a cor da calça – GE ou Grupo Escolar –, que o santo homem traduzia enfaticamente como Garoto Esperto! Voltemos ao Balneário, ao João, à tarde daquele sábado] E o casamento já tem data marcada? Agora foi o Jaime quem se intrometeu naquilo que poderia ser um interlóquio: Vai ser em fevereiro… um domingo… dia 15. Ele espantou-se: Mas já, meu bom rapaz?! Aconteceu algum imprevisto?! Algum arroubo da juventude?! E eu calmamente esclareci: Não, amigo, nada aconteceu fora dos limites. É que se trata de uma data muito importante para a família. Bodas de prata dos pais e bodas de ouro dos avós… da noiva, obviamente. O oficial do Registro Civil ajeitou-se na cadeira, mexeu com o indicador as pedras de gelo e as rodelas de limão, sorveu uma boa dose do Campari há pouco servido e com a autoridade de quem podia fazer isto, caçoou: Redução de custos, né!, para, em seguida, comprometer-se: Vou-lhe fazer uma promessa. Quando o dia das núpcias estiver mais próximo, vá ao Cartório cumprir com as obrigações burocráticas, incluindo o pagamento das custas… – sorriu e buscou cumplicidade do grupo – é lógico… eu preciso pagar as minhas contas… – olhou para o copo longo, meio cheio e meio vazio – Os meus Camparis também… E pronto! Deixe o resto com a gente! O Zé Elias interveio com surpresa: Como assim?! Não vai haver o casamento civil?! E todos nós esperamos, com natural avidez, os esclarecimentos da autoridade no assunto, que logo vieram: É o seguinte, senhores, há uma lei de 1950, só agora regulamentada, que criou o casamento religioso com efeitos civis. Nós lavramos o ato em livro próprio que, no dia e hora do evento, estará na sacristia da igreja para acolhimento das assinaturas dos nubentes e padrinhos, os mesmos do religioso. E, como se diz no popular, matamos dois coelhos com uma só cajadada. Simples, assim. E foi o que aconteceu, conforme comprova a Certidão de Casamento que, na introdução, certifica o assentamento no “Livro nº 1, do Registro de Casamentos Religiosos com efeitos civis, sob nº de ordem 3, (…) do termo do casamento celebrado (…) pelo Revmo. Pe. Frei Natal Pinheiro, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Palma (…), no dia 15 de fevereiro de 1976”, com a devida homologação do dr. João de Deus Barros Bringel, então juiz de direito da Comarca de Baturité, e com alguns dados que revelam a novidade do caso. Há quarenta e quatro anos e alguns meses.

Havia nele – no João Batista – também um viés de espirituosidade. Trocávamos, de quando em vez, algumas piadas, muitas delas já nossas velhas conhecidas, embora o que valha na piada não seja propriamente o ineditismo, mas a forma como é contada. Depende mais das qualidades de quem conta do que da jocosidade que carrega nas entranhas. Lembro-me de uma anedota que o João “estomacal” nos deu a conhecer como se fosse caso verídico, acontecido com ele, no âmbito do seu local de trabalho, o cartório da 15 de novembro. Ele teria recebido a visita de um abastado fazendeiro, sediado lá pras bandas da terra dos monólitos, que o aconselhou a ter muito cuidado, muito zelo mesmo, na escolha de três pessoas bem especiais, de quem dependemos sempre em momentos cruciais ou de alto risco: o mecânico, o barbeiro e o ginecologista. Afinal, para o rico senhor, entregar o carro pra revisão ou conserto, o pescoço pra uma aguçada navalha e a mulher pra exames nas partes íntimas, só a quem se devota ilimitada confiança. Quem discorda disso? Eu não.

Naquela mesa – e em tantas outras de bares e pontos de encontro de amantes do bem-viver –, o aprendizado se entrelaçava com as vivências de quem primava pela exaltação à Vida. Eu, o mais novo do grupo, não me esquivava de contribuir com o que de melhor podia oferecer nessas horas. Era muito pouco, mas tinha alguma serventia. Logo, aprendia mais que ensinava. Assim é que, por exemplo, lá me apresentaram o seu Lunga, o senhor absoluto das respostas aparentemente grosseiras a perguntas inoportunas, sobre quem eu tinha apenas ouvido falar, muito vagamente. Como isso se tornou possível? Por meio da transmissão oral, as pessoas contando causos de um dos ícones da cultura popular nordestina, com o objetivo de fazer rir. E foram muitos, alguns certamente nascidos da invencionice de gente bastante criativa. Conhecê-los me permitia elaborar um perfil que, a meu ver, mais se lhe adequava. Passados alguns anos, reconstruí mentalmente o comércio do seu Lunga, um “tem tudo em geral”, a partir da bodega do seu João Louro, no centro de Caucaia, que vendia “de um tudo”, até caroço de manga para ração de gado ou plantio e pedrinhas roliças para estilingue ou baladeira. Então revivi um dos causos clássicos do velho casmurro e birrento, contado lá no BIC pelo Carrim, nos seguintes termos, mais ou menos: um jovem teria chegado ao balcão com um parafuso e perguntado ao bodegueiro se ali havia porca que se lhe encaixasse nas roscas. O homem apontara para uma caixa de madeira ao rés do chão, respondendo afirmativamente e autorizando-o a procurar ali o produto que procurava. Depois de longa busca, sem sucesso, o rapaz concluíra: Não tem não, seu Lunga! Ele teria tomado o parafuso das mãos do jovem, aproximado da caixa e, num rápido olhar, pegado umas das porcas, às centenas ali, encaixando-a nas roscas do parafuso. Voltara-se pro rapaz e esbravejara, ao seu estilo: Eu não lhe disse que tinha, seu cego! Desenroscando-a e, para a surpresa do freguês, devolvendo-a à caixa, misturando-a às outras, ordenara: Agora você vai procurar, com a certeza de que vai achar.

Vocês, por acaso, já ouviram a expressão popular “Morreu Maria Preá!”? – indagou-nos o Jaime, num daqueles encontros sabatinos. Todos responderam, em uníssono: Sim! O João Batista acrescentou: Eu acho até que já me contaram a origem dela, só que não me recordo. Provavelmente eu já estava fora de combate, com o sistema de gravação desligado. Risos. O tabelião complementou: É, amigos! Querem bem dizer que jamais sofreram apagão etílico…? Silêncio geral; o da mea-culpa. E o Jaime contou-nos a sua versão, adiantando tê-la ouvido de um colega do “Movimento”. Numa cidade interiorana, de médio porte, o vigário, um cinquentão respeitável, fora chamado a ministrar a extrema-unção a uma das raparigas do meretrício local, lá na periferia. Em meio ao ofício, o diabo meteu o rabo no negócio, e o velho pároco se sentiu arrebatado pelo olhar conquistador da dona do rendez-vous, uma quarentona alta, de olhos esverdeados, rosto alongado, lábios carnudos, longos cabelos negros, colo avantajado e, obviamente, com avançada quilometragem de rodagem pecaminosa, conhecida no meio como Maria Preá. Por ela apaixonou-se e, para dar vazão aos sentimentos, sem risco de ser surpreendido, montou com ela um esquema de encontros furtivos que lhes pareciam perfeito. Só que não. O caso foi descoberto, em flagrante, pelo sacristão, um jovem metido a besta e com alguns trejeitos de pura esquisitice. E os amantes, principalmente o padre, passaram a sofrer nas mãos do rapaz, que os chantageava sem dó nem piedade. No começo da tarde de um domingo, o padre teve de ausentar-se da paróquia, indo à zona rural atender o último pedido de um paroquiano enfermo. Orientou o sacristão a preparar a igreja para a missa que celebraria à boquinha da noite, certo de que retornaria antes da hora do evento. Pegou o fusquinha verde e se dirigiu para o interior do município, a alguns quilômetros de viagem por estrada carroçável. Antes de chegar ao destino, teve a viagem interrompida por alguém a cavalo, que o informou da morte do até então enfermo, tornando desnecessária a extrema-unção. Fez o retorno e voltou para a casa paroquial. Ocorre que o sacristão, ciente de que teria um bom tempo para se envolver em algo mais interessante, convidou o companheiro para uma tarde de amor na sacristia da igreja, sonho acalentado desde muito tempo. E lá estavam eles completamente entregues a um ato do mais puro amor, quando o vigário, com a raiva de haver encontrado semiaberta uma das portas da igreja, invadiu a sacristia ora transformada em ninho de amor do incauto sacristão. E o velho vigário foi à desforra: “Tudo bem. Só que morreu Maria Preá!”.

Em 2 de novembro, era assassinado o cineasta, poeta, escritor e intelectual italiano Pier Paolo Pasolini.

Em 21 de novembro, o Queen, grupo de rock britânico, um marco na história da música rock e pop, lançava o 4º álbum de estúdio: A night at the opera.

Antes, em 25 de outubro, era encontrado morto nas dependências do DOI-Codi de São Paulo (SP), em simulação de suicídio, o diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog.

Nada mais digo, porque nada mais há a dizer.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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