O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO. A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (XVIII)

XCVI

De nada me valem as palavras de alguém que não esteja ou não se sinta no mundo; as palavras de Deus ainda podem me importar porque é o próprio mundo de algum modo que deve estar nele. A segunda questão se concentra em saber se Deus existe, quem é, ou o quê, onde estão as suas palavras e qual o mais correto procedimento de leitura (se não for o fato de termos uma linguagem que nos bloquei o acesso à divindade, pois a linguagem, num mundo desencantado, não pode muito além de oferecer possibilidades, como se isso fosse pouco): não darei a isso uma solução porque já existem muitas, inclusive declarar que não se trata de um problema verdadeiro, mas, enfim, duvido muito que uma resposta que se pretendesse nova, por mais originalmente absurda que fosse, pudesse fazer mais que repetir as respostas contraditórias e mutuamente excludentes que já temos. O hipotético leitor não se incomode com a posição que venho desenvolvido ao longo dos anos sobre esse tema específico, cada vez mais próxima de posição nenhuma. Voltemos ao problema inicial, que talvez também não se possa resolver, mas que ainda me interessa: a mim não me interessam nem as palavras nem as imagens de alguém que não se encontre e não se sinta no mundo. – Deus, é certo, pode ser o mesmo ou dois distintos, ou mesmo vários, na mente e na obra de um mesmo fazedor: um teísta pode ter uma visão de mundo artística mais desencantada do que a de um agnóstico, enquanto um ateu convicto pode construir uma obra na qual os princípios de causalidade se encontram tão bem amarrados que só se pode concluir que é a reconstrução ou o espelhamento de um mundo governado por algum tipo de inteligência superior que nunca se demonstra, mas que se faz evidente a cada passo. – Voltemos, portanto, aos limites e às contradições da humana criatura, ao momento em que ela se propõe ter feito em nome de alga coisa, ou de nada, aquilo a que tem o hábito de chamar obra. – O que pode de novo fazer que se volte ao mesmo ponto: uma inequívoca existência de Deus não só nos apontaria a linguagem correta que poderia dar conta do mundo como se o contivesse, quando é o vazio da linguagem que a torna possível, pois uma língua que pretendesse sustentar uma tão grande pretensão de verdade tombaria pelo próprio peso, como sustentaria toda e qualquer língua nesse sentido, pois assim qualquer língua seria o reflexo e a sombra dessa língua original perdida. (O que quer dizer que se existe Deus e se Deus precisa de uma linguagem, as nossas linguagens práticas de dia a dia estão alargadas da linguagem divina, ou que Deus é como um lastro que daria real significado a qualquer coisa que em qualquer idioma fosse dita sempre que ele mesmo disser. A linguagem esvaziada e prática dos humanos, aquela que fala, porém, também encontra cultores no seu vazio: o mundo jurídico baseia suas questões também em gramática. Mas, em compensação, é de uma liturgia disfarçada em ceticismo que se busca falar, quando se espera que a linguagem vazia instaure não coisas no mundo real, mas que instaure um mundo próprio que possa voltar as costas ao real como se não se baseasse nele, ou como se instaurasse um mundo das ideias que nos tranquilizaria ao se fundar no paradoxo: sua existência se firma quando se aceita que não ocupa lugar algum.) – Mas se o real é, ou for, real além da linguagem e, com isso, inacessível a quem só dispõe da fala, ou à fala é forçado a submeter todas as mediações, incluindo as da carne? Onde não houver uma palavra que não lata nem mie pode ser que haja um cão ou um gato, e para cada som que os animais proferirem pode ser que se imagine um balão de fala, como numa passagem numa história em quadrinhos, mas quando o palavra “Não” se ausentar da mente, mesmo num mundo avesso e de restrições, em que lugar se encontrará? O humano transformou o mundo num mundo de coisas humanas no qual de certo modo até as preposições e as conjunções têm algum tipo de visibilidade. Mas um mundo anterior, da natureza, é feito plenamente da positividade explícita das coisas que existem e da positividade implícita das coisas em potência. Mas uma verdade da fala que pode se desdobrar na realidade do mundo, se isso for mesmo possível, poderia mesmo instaurar uma negatividade palpável? Temos Mondrian, ainda Mondrian. Alguém que visse os seus quadros mais célebres poderia pensar, bem equivocadamente, há nos seus quadros formas geométricas como há formas geométricas no mundo real; mas o que verdadeiramente liga a obra de Mondrian ao que chamamos de realidade é que nem na realidade nem nos seus quadros existem propriamente as formas matemáticas como mostradas no ramo da matemática ao qual se deu o nome de geometria. Mas então tudo que poderia nos dar o célebre Mondrian seria uma espécie de mundo das ideias de cores primárias e formas primárias que se recusassem a dizer alguma coisa além de um vago princípio? Pois parece que fizeram disso uma espécie de sonho contemplativo. Por exemplo, um outro exemplo, a recusa de um significado, que um desejo de revolução sem responsabilidade e sem consequência faz Barthes, na reivindicação de uma morte do autor, proclamar que o fechamento da linguagem em si mesma é a negação da construção de uma ideologia, e joga os antigos autores, mergulhados na inocência estupidificada da própria morte, numa revolta imóvel contra tudo num beco sem saída. (Um modo estranho de salvar a língua de Deus sem Deus.) Um recanto no qual não me atinja nem a feiura nem a dor do mundo, pois que posso mesmo apreciar o horror e tornar a própria dor uma experiência controlada; um mundo no qual a beleza e o prazer nunca sejam uma carência, porque sei que em certo nível posso simular a repetição daquilo que nunca mais volta e até fazer de uma busca pelo impossível uma satisfação sempre adiada, uma arte refinada e cruel de masturbação que não precisa nem do toque nem do gozo – um mundo em que não preciso me preocupar com as cobranças ideológicas da política ainda que viva numa sociedade miserável. É possível que toda patética ilusão tenha mesmo sido bela? Dir-se-ia: se a palavra não pode latir que deixe os cães em paz. Mas por que precisamos que a palavra cão lata quando o próprio cão faz isso tão bem? Se também a palavra cão latisse, a palavra e o cão não acabariam se estranhando e trocando rosnados? A linguagem, é um paradoxo, realmente só pode falar de um mundo modificado que já a princípio se encaixa em todas as regras da gramática. Embora não falasse diretamente nos termos da linguística moderna, que aceita a arbitrariedade do signo como um ponto de partida, Heidegger admite um vazio específico do verbo ser, mas lhe atribui um significado quase, ou já, religioso: o verbo não é simplesmente verbo de ligação entre o sujeito e o predicado, que dê conta do que o sujeito é ou da situação em que se encontra, mas um verbo de ligação mística cujo vazio permite que seja uma espécie de ligação entre o pensamento e a coisa, ou ao menos uma estrutura em que mais se concretiza do que se exterioriza o pensamento: a linguagem, então, seria como um Führer que estivesse acima da tentação do suicídio e, aparentemente, das contradições históricas. Que a linguagem seja uma morada do ser em que viva o ser humano e que o pensador e o poeta seriam seus guardiões, tudo isso, visto de longe, não passa de uma bela ilusão; de perto não é mais que uma ilusão triste; aquele que de perto ainda achar beleza nessa ilusão deve parar para pensar nas coisas que perdeu e que não voltam mais e nas coisas que pensa ter perdido mas de verdade nunca possuiu. De que me vale a palavra de alguém que não esteja nem se sinta no mundo? Mas a linguagem pode ir quanto além da possibilidade num mundo todo ele artificial? Mesmo a boca mais sincera pode dizer muito mais do que aquilo que os olhos veem. Quando penso salvar a ideia de que é pelo menos possível dizer o que digo e ouvir o que ouço, não sei se isso faço cometendo o crime de lesa-majestade ou evitando que o crime se consuma.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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