O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (VI)

XXXII.
Segundo Cícero, Bias de Priene, um dos sete sábios da Grécia, se conformava do degredo consequente da toma de sua cidade numa certeza, a de levar sempre consigo tudo aquilo que lhe pertencia, o que significava, para ele, andar de mãos vazias e ainda assim muito seguro quanto à proteção de suas riquezas. Cícero pondera: é um sábio do tipo que o vulgo e a opinião geral consideram mal, ou desconsideram. Na verdade as diversas fórmulas retóricas que sustentam que a verdadeira riqueza é a do espírito, nas muitas concepções que se puder ter da palavra espírito, são admiradas na sua beleza e eventualmente na sua profunda pieguice.

XXXIII.
Mas para onde pode ir um corpo que nada impulsione?

XXXIV.
Por que um rico de imensa riqueza, desses que não conseguiram gastar numa única vida toda a sua fortuna, ou mesmo afortunados mais humildes, por que um animal tão bem coroado, que pudesse comprar para o próprio consumo mais pasto do que pode consumir, para nunca dividir com ninguém, por que essa tal criatura não poderia comprar a paz de espírito?

XXXV.
Ele diz de mãos vazias que carrega tudo aquilo que possui, das pobres mãos que podem ser quebradas ou extirpadas do corpo perecível, ou podem mesmo ficar paralisadas de velhice ou perder o controle e a precisão. Muito mais facilmente pode perder tudo aquilo que possui desde que o coração pare de bater, e pensa: o mundo se lembrará de que era nobre.

XXXVI.
Ovídio nos reduz ainda mais a uma franqueza árida. Estamos reduzidos aos nossos próprios desejos de um modo que nenhuma sabedoria pode contornar; a sabedoria mesma não é mais que a consolação de velhos corpos impotentes. Assim, nada nos resta além de francamente direcionar e satisfazer da melhor forma esses mesmos desejos, ou abraçar o ressentimento dos frustrados, daqueles que desistiram por medo, daqueles que fracassaram em algum ponto de um caminho circular que nunca acaba, apesar da morte do caminhante, cujos passos já estavam traçados desde sempre. O desejo é uma caminhada que confirma a imobilidade de Zenão? Que sei eu?

XXXVII.
A angústia sexual e a amorosa é a de colocar os próprios desejos à disposição de uma outra criatura que diz sim e não, também por razões misteriosas, ou que guarda silêncio, ou fala a vida inteira de outros assuntos como quem fosse capaz de nunca ouvir perguntas. Diógenes, por outro lado, sustentava que enquanto tivesse mãos não dependeria nunca de ninguém. A angústia de Ovídio e de Diógenes no final era tão a mesma que podia chegar a. Aonde? A um único ponto, decerto, mas qual, e em que lugar? A primeira coisa que pensei foi no topo de uma montanha, e eu diria, muito esperto, que era uma montanha de tédio, mas depois pensei que podia ser o fundo muito úmido de um fosso, e eu diria, muito esperto, que era o fosso do tédio. Pensei em muitos outros lugares, e eram todos lugares de tédio, o que me leva a pensar que talvez eu não seja assim tão esperto.

XXXVIII.
Dizia Diógenes que não precisava do Estado porque tinha o mundo. Não era mais prudente dizer que desejava o mundo e não conseguia se furtar ao Estado? Não basta a miséria mais plena e orgulhosa nem a mais rigorosa e disciplinada desobediência: a clara comunicação numa língua comum já trai todo delírio de absoluta liberdade. O segredo, então, era cantar o próprio fracasso? Mais uma vez, que sei eu? (Sim, de alguma coisa eu sei, mas eu poderia enumerar tudo aquilo de que tenho conhecimento até ficar vazio ou até preencher uma quantidade de folhas que ou vai ser bem maior ou bem menor do que eu posso imaginar?)

XXXIX
Antigos pensadores que renunciavam, mas nunca a tudo, porque isso não é possível. Se lhes perguntarem por virtudes pode ser que não digam que possuem virtudes, mas dirão que as virtudes ainda existem e são coisa que se deve querer alcançar: mesmo um mendigo que vive entre cães ainda tem a necessidade de saber que nisso reside a sua liberdade. Mas quem ousaria ser tão livre que já nem visse na própria liberdade uma virtude e já nem desejasse absolutamente virtude alguma?

XL.
Queixo-me do meu corpo físico, no mundo real que está além e antes da palavra. Queixo-me: o ouvido esquerdo persiste zumbindo já depois de dois tratamentos frustrados que não amenizaram o sintoma nem sequer minimamente. Não ouço pelo ouvido esquerdo as coisas que estão fora do ouvido; no lugar dos sons externos um permanente zumbido que tapar o ouvido por fora não faz cessar. Queixo-me do ouvido; penso as fraquezas do corpo; lembro que estamos todos nós condenados à possibilidade de perder. Que hoje não me consola.

XLI.
Somos ainda mais pobres e miseráveis do que não tem nada além da própria fortuna, de quem não tem nada além do próprio corpo, de quem abraçou voluntariamente uma pobreza elevada e nobre, já quase arrogante. Pobres como quem não tem escolha alguma.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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