O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (IV)

XIX.
O que se poderia dizer de um pensador ou artista que não precisasse se preocupar com dinheiro? Um diletante talentoso e cosmopolita cujos pés não tocam o chão, e sua angústia é que os pés toquem o chão, seu desejo mais urgente. Seus irmãos de armas mais desafortunados dizem entre si: quando precisar da experiência da queda comprará a experiência da queda, e sine pecunia o mundo ao seu redor se apiedará. Os mais maldosos dirão ainda: além de comprar a queda inda comprou um chão macio. Disse alguém mais astuto: deram-lhe de graça a queda e o chão áspero que os mais legítimos tanto demoram a alcançar, e a piedade que os mais legítimos jamais desejariam.

XX.
A célebre passagem dos Manuscritos econômico-filosóficos constrói o que se pode chamar de uma psicologia do dinheiro e do possuidor do dinheiro. A celebridade do texto torna ociosa e redundante a sua reprodução. De modo resumido o possuidor do dinheiro é tentado a acreditar que são inerentes a si as qualidades que lhe enxergam e lhe atribuem (muita vez sinceramente) se devem bem mais à posse do dinheiro que a qualquer outra coisa. Aquele que tiver consciência disso, pelo contrário, pode olhar com intensa desconfiança o mundo, as pessoas que se aproximam e a si: não confia nos elogios e nas gentilezas, não confia nas qualidades que lhe são próprias porque todos os parâmetros de medição lhe parecem viciados. Para isso o dinheiro, a posse do dinheiro, reserva um distanciamento espiritual exclusivo (comprar simplesmente é a mais pedestre das atitudes: aquele que possui as incríveis quantidades de dinheiro precisam, sobretudo, se apossar daquilo que o dinheiro não compra, e pelo qual se dispõem a pagar o quanto for necessário). Antigos latifundiários dizem que acendiam charutos pondo fogo em cédulas graúdas. A posse do dinheiro deve dar a plena ilusão de que se é indiferente e superior ao dinheiro.

XXI.
O milionário precisa acreditar que alguma qualidade específica e exclusiva inerente a si é que o torna especialmente merecedor da sua fortuna. Precisa acreditar que é insubstituível. É fato que muitos temem a morte, pode ser que a maioria, talvez todos, de um jeito ou de outro. O possuidor de fortunas, mais que isso, pensa na morte como uma situação de gosto duvidoso e moralidade duvidosa. Como é mesmo que a morte se atreve? Acreditamos nas ascese de Francisco de Assis e Sidarta Gautama, porque sua biografia diz que renunciaram a tudo. Mas quais seriam seus caminhos se fosse possível barganhar com a morte em termos financeiros?

XXII.
Estabelecer uma hierarquia que diga se é mais pornográfico o que pensamos da morte ou o que achamos que sabemos do dinheiro.

XXIII.
Talvez ninguém merecesse possuir como coisa sua, à custa de dinheiro, algo como um quadro de van Gogh ou os direitos de reprodução de um romance de Kafka (que pediu a destruição de quase toda sua obra). Apenas os que sacrificaram toda a sua segurança e o seu bem estar, todos os que viveram como bichos e ignoraram as regras da sociedade, os que eram olhados com desconfiança por Aristóteles (não reconhecia de fato que pudessem ser deuses, ou tinha a intuição do que verdadeiramente significava ser um deus, mas também ele teve medo), apenas um ser humano assim podia contemplar um quadro de van Gogh, e podia ser que fosse cego, e apenas um ser humano assim podia ler as palavras de Kafka, e podia ser que fosse analfabeto. O dinheiro, que serve a outras formas de cegueira e analfabetismo, não consegue alcançar a verdadeira compreensão de coisas assim. O dinheiro? O seu possuidor, eu ia dizendo: não alcança que precisa destruir tudo aquilo que deseja.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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