O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (III)

X.

Como manter a sanidade mental num mundo predominantemente pornográfico? O primeiro conselho: vá ao deserto, pregue no deserto, alimente-se de gafanhotos e mel silvestre, seja de novo João Batista. O segundo conselho: não vá ao deserto, não pregue nem no deserto nem fora do deserto, não se alimente frugalmente do que der a natureza, não seja nunca mais João Batista. Nenhum desses conselhos, eu sei, é sensato nem um pouco, mas é que já não existe nada que de verdade se possa chamar de sensatez. Tudo que se pode fazer é abraçar a modalidade mais conveniente de loucura. De um lado a loucura dos que rasgam o dinheiro e tocam nas próprias fezes, do outro lado os que negam a verdade orgânica das fezes e atribuem ao dinheiro todas as verdades possíveis.

XI.

A fala do personagem de um padre num cordel: o dinheiro não precisa de bençãos.

XII.

Toda a satisfação é ilusória na pornografia. Não é na pornografia que ocorre a satisfação, mas apenas através dela. Tão através dela que já não é possível sem ela. A pornografia é quase uma ética e uma estética, ou é mesmo uma ética e uma estética radical no ponto em que se torna a negação tanto dos princípios de uma quanto de outra. Um diretor que se propuser a delírios de linguagem e jogos de sombra na pornografia quer justificar o que não precisa de justificativa: seu preço é uma obra perdida entre dois mundos e negada pelos dois.

XIII.

Uma dose de frustração é a base de todo vício e de toda a fé. Ao mais pleno dos prazeres é possível que o corpo nem resistisse. À mais plena presença de Deus entre nós todas as religiões se extinguem. Sonhos, sonhos, triste prazer intelectual e estético dos mal remediados, dos francamente pobres.

XIV.

Primeira observação sobre a fé cotidiana. Antigos livros de viagens ousadas e fantásticas traziam prefácios dos autores com o magnífico simulacro de que não eram eles mesmos os donos originais dos relatos: Swift se diz amigo de Gulliver, e é difícil até imaginar essa amizade entre dois rabugentos. Era apenas um artifício literário ou queriam de fato convencer os leitores da realidade absurda e impossível dos relatos? Leitores que já não soubessem distinguir a ficção da realidade correriam o risco da loucura lírica do Quixote, com a diferença de que Cervantes não pretendia a imagem condescendente e romântica que fazemos do personagem nem a loucura na vida real é uma coisa bonita de se ver e de viver. Por outro lado, qual a razão levaria, além do sadismo e do ressentimento de quem não teve infância, alguém a, por exemplo, se submeter a uma sessão de filmes que levam muito além a estimativa e a possibilidade das viagens espaciais para pensar o tempo todo que se trata de mentira? Quem é que sabe tanto assim o que não é a ficção para dizer com tanta certeza quais os limites da ficção?

XV.

Segunda observação sobre a fé cotidiana. Se não somos médicos devemos confiar no que dizem os médicos, como diria Clarice Lispector, acreditar chorando. Mas se tivéssemos coletivamente um conhecimento mais profundo de farmácia saberíamos que os remédios receitados muita vez atestam o desespero de alguém que não pode confessar que não sabe o que está fazendo.

XVI.

Quando os cineastas resolveram oferecer ao público simulações da morte, sobretudo da morte matada, que pretendiam se passar por execuções e outros sofridos falecimentos, a pornografia deixa de ser um tipo específico de produção para se tornar um tipo de relação do público com a coisa produzida.

XVII.

Ainda sobre a fé, uma política da fé… A insegurança, a falta de crença em si que leva à necessidade de se confiar cegamente em outro, leva tragicamente à triste situação da vítima que defende a inocência e as boas intenções do algoz. (Nem todo capitão naufraga com o seu navio. Há mesmo capitães capazes de abandonar à própria sorte toda uma tripulação ao menor sinal de que o barco faz água.)

XVIII.

Aquele que não cumpre a promessa de ser pornográfico, mesmo que não cumpra uma promessa que não tenha feito, em algum momento será chamado de traidor ou de mentiroso. (Quando suas promessas não se cumprirem, porque jamais poderiam se cumprir, apenas dobre a aposta, e faça, dobradas, promessas ainda mais difíceis de cumprir; reconstrua o tempo todo a medida do impossível: a memória será condescendente, o público será sempre grato. Recomendável que se faça isso com os órgãos do corpo desligados ou fazendo as declarações necessárias em outra língua. Mas do que o charlatão precisa também não é de acreditar numa grandeza que é parente que não lhe pertence?)

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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