O ENSINAMENTO DE JESUS

Iniciamos nossas postagens dessa semana no dia 28 com o artigo DOMINGO DE RAMOS EM TEMPO DE BOLSONARISMO por se tratar do período histórico ápice da novidade da mensagem de Jesus de Nazaré. E algo inusitado aconteceu num diálogo que mantive com um dos leitores, um cristão de tradição presbiteriana, ao indagar-me sobre o fundamento bíblico da celebração dos ramos. Respondi-lhe que facilmente ele poderia encontrá-lo nos evangelhos de Mateus (21, 1-11), Marcos (11, 1-11), Lucas (19, 28-44), João (12, 12-19). Além dissoapontei que vários teólogos refletem sobre este tempo. Pessoalmente eu estava me baseando para escrever o referido artigo nos teólogos Joseph Ratzinger, José Comblin (1923-2011) e Eduardo Hoonaert.

O leitor retrucou afirmando literalmente não entender a palhaçada das procissões dos católicos que, segundo ele, não tem nada a ver com o culto da Palavra, concluindo emafirmar que nutria um “verdadeiro ódio pelos católicos”. Disse-lhe que o ódio não é um ensinamento cristão, mas o perdão sim. Ele então finalizou a conversa dizendo: “odeio sim porque eu não sou perfeito”.

Dois fatos no dia de ontem, 03, também me chamaram atenção. Primeiramente um artigo na revista Carta Capital intitulado “Tenho muito orgulho de ser cristão: a única parte que eu não gosto da Bíblia são os ensinamentos de Jesus”. O autor com um humor muito inteligente apresenta enormes contradições da ação concreta de uma boa parte de pessoas, movimentos, associações, pastores, padres e igrejas que se proclamam cristãs. Situações de ditos fiéis contrários à distribuição dos pães e dos peixes, dizendo que Jesus deveria incentivar a acumulação peloempreendedorismo dos apóstolos, lucrando com a venda dos pães e peixes em vez de doá-los; ou então sinalizandoser preciso modernizar os símbolos, em vez de cruz um fuzil; reescrever textos do evangelho apresentando a soldadesca romana como boazinha e colocando sobre os comunistas a crucificação de Jesus, por terem lido Paulo Freire; mudar o conteúdo da pregação, em vez de compaixão, caridade, união, solidariedade que são palavras muito piegas, em seus lugares dever-se-ia pregara violência, o machismo, o racismo e a meritocracia.

O segundo fato foi o vídeo que abundou nas redes sociais do autoproclamado cristão Roberto Jeférson ensinando de forma bem didática, neste Tempo Pascal, como cristãos devem enfrentar por meio de violência armada (diga-se, milícias e grupos paramilitares) as polícias estaduais, por ele denominadas de “satanás”, que por ventura queiram fechar seus templos, alimentando a lógica bolsonarista de enfrentamento a prefeitos e governadores que estão responsavelmente adotando o distanciamento social como estratégia de combate à covid-19. Não se sabe quantos outros vídeos foram produzidos e distribuídos pelas milícias digitais bolsonaristas com este mesmo conteúdo de incentivo político à violência.

O professor doutor Manfredo Araújo de Oliveira (in “A religião na sociedade urbana e pluralista”) afirma que a análise do fenômeno religioso é um elemento imprescindível para a compreensão adequada das sociedades de modernidade tardia, como no caso a brasileira, porque o fato religioso de agora em diante é um componente essencial da cena política mundial. Com a privatização dos indivíduos autônomos capazes de escolher entre as diversas alternativas no mercado dos bens simbólicos, é possível transitar entre diversos sistemas religiosos, além de transpor a religião para outros setores da vida social como a política, a ciência, a economia ou a psicologia.

Com a emergência de uma cultura do EGO, não importa a Verdade (de fato, científica ou filosófica), mas a busca de algo que possa dar sentido à vida individual, que corresponda aos sentimentos de cada um e possa satisfazer suas aspirações. Para estas pessoas, não se trata do crenteser fiel a Deus, mas de Deus ser fiel ao crente.

Mas a condição do seguimento a Jesus foi muito bem explicitada por ele após os anos de vida pública professando abertamente sua mensagem: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mateus 16, 24). Diz-se que Pedro, escandalizado com esta afirmação, tentou dissuadir Jesus, buscando convencê-lo a mudar de ideia, no que foi severamente repreendido pelo Mestre.

Mas o que Jesus há dois mil anos atrás apresentou de novo? Valores e Exigências para a realização de um novo mundo possível.

Trata-se de processar uma reviravolta na forma de ver os humanos e a vida em sociedade. Valores e Exigências relacionais em oposição a práticas e estruturashiperindividualistas, fazendo com que deixemos de achar que somos o centro do mundo, rejeitando a lógica do acúmulo pessoal em detrimento do padecimento social.

Para os seguidores de Jesus, tão importante como afelicidade pessoal é a felicidade dos outros. Ao apresentar ao mundo Deus como Pai que ama imensamente a todos, indistintamente, Jesus possibilita à humanidade ver-se e construir-se individual e socialmente com base na fraternidade, na igualdade e na liberdade de filhos do mesmo Deus-Pai.

Este projeto fundamenta-se numa adesão livre por parte dos indivíduos e grupos, conscientes dos obstáculos de toda ordem a apresentarem-se ao longo do caminho. O Domingo de Páscoa vem relembrar isso: que não há triunfo sem luta, nem vida nova sem vitória sobre os hábitos, os preconceitos e as estruturas envelhecidas e excludentes.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.