O DUPLO MARX

“O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência o domina e ele a adora…”

Karl Marx já morreu muitas vezes pelas mãos dos seus detratores, mas ressuscita sempre para desconforto do coro dos contentes.

O Marx ora ressuscitado é o que se dizia “não-marxista”; é o Marx da crítica categorial capitalista, que é atualíssimo, ou seja, é aquele que, implicitamente, e por suas obras da maturidade, fez a autocrítica da sua tese da juventude segundo a qual o proletariado, como tal e organizado em sindicatos e seu partido, seria o sujeito revolucionário.

É evidente que o Marx da crítica categorial capitalista, e entre elas está o trabalho e o trabalhador como tais, passou a pugnar na maturidade, fundamentalmente, pela superação do trabalho abstrato produtor de valor e de todas as mercadorias (sendo tais categorias elas mesmas mercadorias) como objeto teleológico revolucionário.

Esse Marx da maturidade, que começa “O Capital” criticando a forma-mercadoria é atualíssimo e, implicitamente, critica o conteúdo eminentemente político do Marx-Engels do Manifesto do Partido Comunista de cerca de 10 anos antes, e no contexto das guerras europeias de ebulições e transições políticas.

O Marx estudioso vai às profundezas de sua análise da crítica do valor para se reciclar.
No sentido do Marx do movimento operário Lula é marxista, mesmo que o negue, mas é visceralmente contra o Marx da crítica categorial capitalista e da economia política. Esta é uma diferença fundamental de posicionamento diante da relação social vigente em fase de saturação.

Não podia ser diferente, posto que Lula se nutre da existência do trabalhador explorado pelo capital e do trabalho abstrato de onde se extrai mais-valia funcionando como advogado de defesa destes e da continuidade e pretensa eternização ontológica da relação capital-trabalho. Assim, repetindo o que fazem os partidos trabalhistas institucionais mundo afora, ele se situa nas três vertentes identificáveis:

– o trabalhismo político do sindicalismo de resultados cada vez mais precarizados;
– um Partido dos Trabalhadores que legitima o jogo político e recebe verbas institucionais advindas dos impostos cobrados aos trabalhadores exauridos;
– e, quando no governo, serve à estrutura precipuamente opressora do Estado a serviço do capital estatal ou privado, administrando infrutiferamente a crise econômico-estatal em sua fase terminal.

O patronato privado, de direita liberal ou social-democrata, digladia-se apenas superficialmente com a forma de ser do patronato esquerdista estatal, lados aparentemente opostos que se identificam na simultaneidade da lógica do sistema produtor de mercadoria, mas apenas com a diferença de interesses particulares mais imediatos.

O Marx do movimento operário, que podemos intitular como exotérico, porque ainda se situa na nebulosidade do processo de crescimento da revolução industrial inglesa do capitalismo não simultâneo na própria Europa do início e metade do século XIX, quando havia a ascensão do trabalhismo mercantilista, tem um pensar preso à força da unificação política da classe trabalhadora em um partido político que fosse representativo dos seus interesses.

Os trabalhadores assalariados no chamado socialismo real estatista, sem a crítica à sua própria condição de produtores de valor que propicia a acumulação do capital estatal, e a partir de uma regulação política do Estado indutor do desenvolvimento do capitalismo de Estado, obedece a uma lógica de autorreprodução cumulativa e subtrativa que impede o retorno da riqueza abstrata que produz a quem a produz: o trabalhador.

O exoterismo marxista do período, mesmo que bem-intencionado (e é o próprio Marx quem diz que o inferno está cheio de gente bem-intencionada), e em meio às turbulências políticas de implantação de um sistema capitalista ainda incipiente (veja as marchas e contramarchas de França republicana ante a resistência monárquica logo após a sua revolução antimonarquista feudal), era politicamente imediatista e imanente ao próprio capital.

Nesse sentido Marx era capitalista de Estado causava (e ainda causa) repulsa aos capitalistas privados do mercantilismo ainda emergente, mas tal iniciativa era infrutífera do ponto de vista da superação da lógica capitalista ainda em ascensão; eram lados opostos de uma mesma moeda, literalmente.

Havia, a essa altura do nascedouro das formas políticas capitalistas, a crença ingênua dos socialistas marxistas do movimento operário de uma transição operária estatal para uma sociedade comunista, na qual desapareceriam gradualmente as classes sociais (e, portanto, o próprio trabalhador como classe), o Estado, e as mercadorias, sem que se se compreendesse a face ditatorial autotélica da negatividade intrínseca das relações mercantis sob o capitalismo de estado.

A absorção desse Marx exotérico pelo marxismo tradicional, do movimento operário, acomodou-se confortavelmente com o novo caminho a ser seguido, fato que criou constrangimentos aos próprios marxistas quando Marx passou a criticar no “O Capital” (que nascera dos seus estudos compilados nos “Grundrisse”, somente dado a conhecer muito depois) os fundamentos de sua própria tese anterior.

Lenin, em sua vasta obra, quase não se refere à negatividade autotélica intrínseca à forma valor (a adoção por parte dele da NEP – Nova Política Econômica – como forma de conter a contrarrevolução branca, demonstra essa crença de pontuais concessões capitalistas privadas pretensamente efêmeras) por acreditar na força política revolucionária e controle do Partido Comunista, o que bem demonstra sua incompreensão sob a impossibilidade de convivência revolucionária com as categorias capitalistas sob controle estatal já intuída pelo Marx da radicalidade da crítica da economia política.

Lenin era um ser eminentemente politicista.
Ao classificar criticamente o trabalhador, antes incensado politicamente como sujeito revolucionário enquanto trabalhador, bem como o trabalho como célula primária do capital e, portanto, ambas como categorias capitalistas produtoras das mercadorias, e a força de trabalho como mercadoria, nasceu o Marx esotérico, difícil de ser digerido (ainda hoje o é) e que, portanto, precisava ser eclipsado.
Nascia então, a partir da maturidade (talvez por isso se diga que o homem começa a viver aos 40 anos), o Marx esotérico, revolucionário estudioso da crítica da economia política e das categorias que se lhe são contributivas e formatadoras, cuja formulação era antagônica à anterior, ainda que claudicante, com conflitos de percepção.

A dubiedade claudicante entre o Marx exotérico, incentivador do movimento operário, e o Marx esotérico, da crítica do trabalho, fica patente quando estimulou nesse mesmo o período, a criação da Primeira Internacional dos Trabalhadores, em 1864, em Londres, com a parceria entusiasmada de Friedrich Engels. Outras vieram até perderem a força por obsolescência dos seus postulados imanentes ao capital.

É que Marx entendia que o caminho poderia ser encurtado revolucionariamente ultrapassando-se a etapa desenvolvimentista do capital então incipiente, ainda distante das potencialidades tecnológicas da produção de mercadorias que surgiriam (não havia ainda sequer energia elétrica para uso industrial e residencial e motores à combustão fóssil), para que se evitassem a intensificação da segregação social e miséria mundo afora, bem como os desastres bélicos que viriam a ocorrer no século XX, expressos nas duas guerras mundiais que ocorreram e que mataram cerca de 3% da população mundial.

Mas o fundamental, entretanto, é que Marx deduziu com genial acuidade que quando atingíssemos o grau de substancial substituição do trabalho vivo, abstrato, assalariado, pelo trabalho morto, das máquinas, em maior proporção, como hoje observamos, todo o sistema capitalista entraria em colapso fazendo voar pelos ares todas as estruturas políticas burguesas em aperfeiçoamentos e reivindicadoras de direitos sob a imanência capitalista (voto universal, voto feminino, direitos civis, semana de 40 horas com 8 horas diárias, etc., etc., etc,).

A regressão civilizatória e o crescimento da direita derivam dessa anomia causada pelo descredito das instituições burguesas como resultante do colapso capitalista. É a luta pela regressão civilizatória (e possibilidade de extinção da espécie animal) e a emancipação humana o que está em jogo na atualidade
Marx somente não previu que junto com esse colapso econômico e político, viria, concomitantemente, uma crise ecológica de igual proporção.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

1 comentário

  1. Ary Txay

    A análise de Dalton é refinada, é de gente que leu e conhece, sabe do que fala. Da minha parte, jamais consegui ler completamente O Capital, até tentei ler um primeiro volume da coleção de clássicos (não recordo a editora, nem o ano). No entanto, até hoje sigo lendo ensaios – p. ex. Erick Fromm – e artigos avulso. Para Dalton está muito claro que Marx não está morto, é só questão de fases. Gostei, especialmente, os dois últimos parágrafos. Parece que o resenhista não renega a mensagem/sentido revolucionário do Manifesto. Um marxista escritor, economista que reside em Londres, disse que bastaria eu: para os que não leram O Capital bastaria ler e compreender O Manifesto. Enfim, a minha opinião não tem nenhum valor pelo fato de conhecer muito pouco o marxismo. Achei interessante a figura do Marx “exotérico” mencionada por Dalton. Alguns ou diversos batem pesado e afirmam que marxismo é uma utopia, um mito. Atualmente não sigo, nem sou filiado a nenhum partido político, perdi a fé. A mina tese (pode chamar de luta?) é a defesa da Paz Mundial e o Fim das Guerras. Objetivamente, indago ao professor Dalton: hoje, qual seria a reação de Marx à mencionada proposta? . Gostei, especialmente, os dois últimos parágrafos. Agradeço desde já, cordialmente.