O discurso do senador contra a banalidade do mal

Ainda perplexos diante do ocorrido ontem, dia 05 de outubro de 2015, no velório do senador José Eduardo Dutra (PT – SE) no qual grupos fascistas – sem o menor pudor e respeito pelo último ato de despedida que familiares e amigos realizavam daquele ser humano, pai de família, geólogo, eleito o Geólogo do Ano em 1988 pela associação dos geólogos sergipanos e ex-presidente da Petrobrás – jogaram panfletos afirmando a banalidade do mal nos dizeres “petista bom, é petista morto”. Da tribuna do senado, o senador Lindenbergh Farias (PT-RJ) proferiu hoje um discurso solene e indignado em relação a mais essa barbárie perpetrada por grupos de extrema direita, ressuscitadores do udenismo raivoso dos anos 50/60, diuturnamente sendo alimentados pela mídia global nacional.

Como lembra o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, uma das características principais de nossa humanização, desde os primórdios da época pré-histórica, é o fato de nós seres humanos enterrarmos, cuidadosamente, nossos mortos como ritual último de despedida. Os mortos fazem parte do sagrado, garantem a memória da história humana. Por isso, em qualquer cultura humana, há o respeito aos mortos, sendo base de todas as religiões, porque ao retornarem para o seio da Mãe Terra, alimentam a ideia da transcendência. Consequentemente, a profanação dos mortos é um tipo de atitude extremada daqueles que não reconhecem a humanidade daqueles que partiram como também de todos os membros de sua comunidade.

O senador Lindenbergh adverte: “no Brasil neo-udenista de hoje, essas manifestações insanas de ódio político contra ao PT e à esquerda em geral tornaram-se corriqueiras, quase banais”. Ele relembra que o atentado à bomba contra o Instituto Lula não mereceu nenhuma manifestação à altura seja da imprensa global nem tampouco dos partidos de oposição. O mal banalizou-se ao ponto de, alimentados pela mídia, pessoas comuns aceitarem como normal e aceitável a violência aberta contra petistas, a representantes de movimentos sociais e a esquerda em geral. Hoje é plenamente normal para certas pessoas que militantes sociais e partidários sejam agredidos em restaurantes, aeroportos, hospitais e até em velórios.

Estamos entrando, dia após dia, numa escalada extremamente perigosa de ódio político e social. Em outros momentos da história achava-se normal assassinar cristãos, índios, negros, judeus. Nelson Mandela, vítima do ódio de raça, atesta que ninguém nasce odiando ninguém; o ódio é ensinado. A frase que usaram no velório do senador Eduardo Dutra deriva de um fato histórico relevante. Quando questionado sobre os índios da América do Norte, o general Philip Sheridan (1831-1888) afirmou: os únicos índios bons que vi são aqueles que estavam mortos. Foi essa mentalidade que criou Auschwitz, o campo que dizimou “os ratos judeus”, como afirmavam os nazistas alemães.

O ódio é desumanizador. Desumaniza o seu alvo como também aquele que odeia. O ódio, como lembra Edgar Morin, é a vontade de fazer o mal. O desejo de fazer o mal é primariamente o desejo de assassínio, isto é, de eliminação do outro, que se refina muito rápido, pois a vontade maléfica não se satisfaz com a eliminação pura e simples. Ela tem necessidade de perseguir obstinadamente o odiado para gozar seu sofrimento.

É preciso reagir veementemente contra essa articulação do mal se não quisermos reviver páginas obscuras do passado da humanidade.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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