O diabo e a política brasileira

Os últimos dias proporcionaram uma dose cavalar de informações e impressões, achismos e análises, diagnósticos, prescrições e prognósticos, profecias, fantasias e superstições acerca do processo político brasileiro, tudo a partir dos resultados das últimas eleições e, mais ainda, das que aconteceram nas 57 cidades com segundo turno. Nesse oceano de artigos, entrevistas e reportagens, um escrito chama especialmente a atenção pela acuidade da análise, a saber, “O diabo na campanha das eleições municipais no Brasil”, da autoria da doutora em Ciências da Comunicação Magali Cunha e publicado na CartaCapital (25/11), com reprodução pela revista on-line do Instituto Humanitas Unisinos (27/11).

No artigo, Magali Cunha classifica como “diabólicas” as campanhas que fazem uso de mentiras agressivas para destruir a imagem de concorrentes, como principalmente, mas não exclusivamente, as das capitais  Rio de Janeiro, Vitória, Recife, Fortaleza e Porto Alegre. E observa que, desde as eleições de 2018, candidatos que buscam apoio de eleitores religiosos recorrem a conteúdo falso e ao pânico moral com base em temas relacionados à sexualidade humana e ao conceito de “ideologia de gênero”, acrescentados na última campanha pela perseguição a cristãos, o temor do comunismo e do marxismo, o perigo chinês. E que, as tais “ações diabólicas” usaram “até mesmo o nome de Deus” para seduzir cristãos-eleitores.

A relação entre o diabo e a política é muito presente na literatura nacional e estrangeira. Para ilustrar tal presença, e como amostragem, transcreve-se aqui, por todas, a passagem inscrita no “Grande sertão: veredas”, pela voz do jagunço aposentado Riobaldo: “Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção — proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!” Duas observações se impõem, a saber, o jagunço era um negacionista e o atual governo – negacionista seletivo – com toda a certeza não cuidaria.

Por outro lado, convém observar que o artigo “O diabo na campanha das eleições municipais no Brasil”, ao trazer à luz o “diabo” e o “diabólico” como, exagerando, categoria da análise política, tem antecedentes em importantes pensadores da política. Entre vários, ressaltam-se dois, Max Weber e Leszek Kolakowski. O primeiro, no ensaio “A política como vocação”, encarece que, quem quiser fazer política, e muito mais aquele que quiser ser político profissional, se verá a braços com paradoxos éticos tamanhos e poderá se transformar sob pressão desses mesmo paradoxos, asseverando: “Ele se envolve, repito, com poderes diabólicos que estão à espreita”, logo, “quem procura salvar sua alma e as almas dos outros, não tenta fazê-lo por meio da política, que tem tarefas bem diferentes”. Na verdade, “o gênio – ou demônio – da política vive em uma relação de tensão interior com o deus do amor”, observa ainda.

O segundo, filósofo polonês de formação marxista e, depois, dissidente, exilado e professor da Universidade de Oxford, escreveu um ensaio interessante intitulado “A política e o diabo”, no qual contrapõe a teologia cristã não reformada e reformada, o iluminismo, a crítica ao iluminismo etc., concluindo que no momento em “os bens políticos adquirem uma autonomia, tornando-se fins em si, eles passam a ficar a serviço do diabo”. Na atualidade, segundo Kolakowski, o principal recurso do diabo é reintroduzir a “verdade” nas instituições democráticas, como alternativa ao contrato e ao consenso, pois, “ele toma o princípio da maioria e distorce-o, sugerindo uma ideia atraente, a ideia de que a maioria como tal tem razão e por isso tem o direito de fazer tudo, inclusive de abolir o próprio princípio da maioria”.

Para terminar, e a partir da leitura do artigo da Magali Cunha, duas conclusões se fazem importantes. Uma, e vai contra os analistas que perdem a noção de que o processo político está em contínua mudança, lembrando com Carl von Clausewitz da “riqueza de possibilidades”, e que “em toda a parte existe uma margem de casualidade, tanto nas coisas maiores como nas pequenas”. A outra, é que parece que as últimas eleições fizeram retroceder um tanto a ideia da “antipolítica”, tão prevalecente nas eleições de 2018. Talvez o eleitorado tenha readquirido coeficientes de razão capazes de afirmar que, se a política não é melhor caminho para a salvação das almas, é o caminho para evitar que este vale de lágrimas (às vezes de alegria) se transforme num inferno. Mais teoria democrática, mais debate democrático e mais eleições certamente é o horizonte que está na riqueza de possibilidades de campanhas eleitorais e eleitos menos diabólicos no Brasil.

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes Cientista Político. Professor Universitário. Doutor em Direito e Livre-docente em Ciência Política. Ex-Professor Visitante na Universidade de Valência (Espanha).

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