O DESTINO, SUA ESCOLHA

“Quando eu ainda achava que escrever era uma prazer”, diz mais ou menos Michel Foucault quase no fim do seu curso inaugural em algum lugar importante do Ocidente, institucional, pesado, definitivo, responsável por discordar muito a sério das chamadas verdades eternas. Eu, jovem universitário, com a edição da tradução da Loyola, um livro curto de menos de cem páginas (que reli à exaustão com o passar dos anos), quando chegava nessa parte (que eu não sabia se sublinhava ou não), sempre sorria, algo cínico, algo irônico. E pensava como mesmo no século XX a sabedoria ainda podia simular tanto de desfaçatez (maravilhosa palavra da portuguesa língua, em que a cedilha cai tão bem). Que escrever não fosse um prazer? Pois está resolvida a questão nos mundos democráticos: se não quer escrever nem escreva que não quer escrever. Fora dos muros das instituições que coagem os escritores forçados uma horda se submeteria de bom grado ao prazer de poder dizer que escrever era desagradável e ver publicadas mais uma vez essas palavras tão antigas.
Pois o tempo passou também para mim.
Não deixei nunca de pensar em coisas que escrever que eu quisesse submeter a gentes responsáveis por publicar e expor a gente curiosa chamada público leitor. Nunca. Mas alguma coisa na cada vez mais antiga, e antiga antes de antiga, frase de Michel Foucault me fez repensar. A desfaçatez não se encontrava na mentira, ainda que também não se encontrasse numa verdade inteira.
(Escrevo isso na mesa de um bar, tomado pelo mistura estranha de que desejo, temo, tenho como destino, falta de opção e, paradoxalmente, vontade: estar só. Penso em reler o texto original de Michel Foucault. Lembro. Numa época de carência material vendi o exemplar tão querido, assim como uma Ética de Espinosa, bem amarelada e igualmente relida.)
Algum sábio declarou que as meias verdades são piores que as francas mentiras. Há paradoxos numa coisa e noutra. Ao menos aparente. Uma meia verdade, que é uma mentira inteira sempre, para convencer precisa se apoiar nos fatos e distorcer os fatos (sentido no qual se torna ainda mais perigosa, porque de saída ainda desacredita a realidade). Mas como seria possível uma mentira inteira, se eu preciso que as palavras ainda signifiquem o que significam correntemente, ainda que meu uso delas seja desonesto? É um paradoxo sutil, esse segundo, que carrega uma série de nuances, como todos os paradoxos de todas as línguas.
E a esses paradoxos acrescento um terceiro e eventualmente um quarto.
No terceiro, a partir da frase blasé e quase piegas de Foucault (um lugar-comum, justamente num texto em que o autor defende que mesmo a sua voz não seria ouvida se não fosse, mesmo naquilo que parecesse mais original, um eco de vozes passadas, uma pesada sombra), coloco a possibilidade de que a verdade e a mentira não se contradigam. O escritor, Foucault, Rimbaud, Rachel, o diabo, de fato faria qualquer outra coisa mais prazerosamente ou ao menos de mais bom grado, incluindo absolutamente nada. Mas. Por causa de obrigações na superfície meramente profissionais ou por uma ilusão moral de dever e obrigação, na qual continua a crer por mais consciente que esteja da natureza da sua ilusão (sua insistência de formiga lhe dá um sentido retroalimentativo), aquele que se queixa: escreve. E por mais que diga que não, e é aí que vem a desfaçatez, sempre que supera a própria resistência não consegue deixar de sentir o regozijo: a coação do trabalho, que substitui o impulso do prazer, quase como em Freud, leva naturalmente a uma trabalho artesanal de revisão até o limite. Digo verdadeiramente o que penso, mas não faço propriamente o que quero, já que o meu primeiro instinto era obedecer o corpo, e o desejo do corpo era calar. Discurso feito, posto na sua ordem, o autor o contempla ou, ainda mais vaidoso, lhe dá as costas.
Fiquei preocupado em como deixar claro o quarto paradoxo. E eis que surge o quinto. O terceiro e o quarto, mesmo distintos, são o mesmo.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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