O desespero social (ou uma breve análise eleitoral)

“A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero”.

Victor Hugo  

Fico a me perguntar sobre o que leva uma parte do eleitorado brasileiro, computado em cerca de 57,7 milhões de eleitores, ou 55,13% dos votos válidos, a ter dado apoio eleitoral ao então candidato em 2018, com as características do Boçalnaro, o ignaro, e com as intenções anticivilizatórias de governo por ele mesmo anunciadas e alardeadas sem o menor pejo?
O que leva a mesma população, atualmente, após a evidência do desmascaramento das suas falácias de campanha, e da evidência o seu (des)governo genocida, ainda obter uma tendência de votos (segundo os institutos de pesquisas eleitorais mais confiáveis) de cerca de 32% dos votos válidos?
O desespero e a inconsciência sobre o que fazer são más companhias…
A resposta não pode ser outra se não o desespero social inconsciente que busca soluções milagrosas com falsos profetas e ainda acredita na prepotência e autoritarismo de um bravateiro de quinta categoria como salvador da pátria.  

A realidade é que temos uma vida social na qual prepondera um baixo nível de renda per capita para a grande maioria da população, calculado em R$ 1.353,00 em 2020 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) – IBGE);
– com grau de violência no qual morrem cerca de 60.000 pessoas assassinadas por ano (a maioria pretos e pobres);
– constatamos um colapso no sistema prisional, policial e jurídico processual criminal que se mostra incapaz de administrar e conter essa avalanche de produção social de criminosos de colarinho sujo e outros muitos de colarinho branco impunes;
– na qual vemos aumentar dia-a-dia o poder do crime organizado, seja nos confins da Amazônia ou nos subúrbios das grandes metrópoles cindidas socialmente por grande desigualdade social;  
– enfrentamos um colapso no sistema de saúde, vez que o Sistema Único de Saúde, apesar de bem intencionado, não tem recursos para um atendimento médico-cirúrgico mais complexo;
– que vemos a população da periferia ser obrigada a estudar em escolas públicas com as deficiências que todos conhecemos (e em muitos casos fazer delas o único alimento de uma criança no dia);
– que vê entrarmos no mapa da fome mundial, mesmo sendo grandes exportadores de alimentos para o mundo;
– com número absurdo de favelas nas quais inexistem as condições mínimas de infraestrutura urbana (água, luz, esgotamento sanitário, coleta regular de lixo, ruas pavimentadas e dentro do espaço previsto no plano diretor das cidades);
– com nível de analfabetismo em torno de 6,6% de sua população, ou 11 milhões de analfabetos que não sabem ler e escrever, e sem falar no analfabetismo funcional, daqueles que não sabem interpretar um texto ou escrever minimamente correto;
– com cerca de 10,1 milhões de desempregados aptos ao trabalho; 4,3 m milhões de desalentados (os que já não procuram empregos); e 21,1% da população sub-utilizada (IBGE), e que engordam as filas do desespero, aquelas que juntam milhares de pessoas disputando um emprego de baixo salário e diante de uma oferta de poucas vagas em relação aos inscritos em qualquer anúncio de contratação;
– com inflação que corrói os salários mensais e que corresponde a 10,7% no acumulado dos últimos 12 meses (IGPm);  
– temos uma cultura de valores morais deturpados, na qual prepondera como virtude o conceito da esperteza (individual ou empresarial) em enganar os outros (a famosa lei do Gérson) para obter vantagens pecuniárias e ser respeitado com “vencedor” da guerra pela sobrevivência.

Ouvi, ainda hoje, de uma mulher doce, digna e profissionalmente virtuosa na modéstia de sua profissão, a informação de que estava fazendo um grande esforço de compreensão sobre o significado de sua vida por não se sentir enquadrada nos padrões sociais morais e éticos estabelecidos.  

Essa mulher, que tem 47 anos, perdeu há cerca de dois anos um filho maravilhoso, músico de 22 anos, que fazia um bico como motorista de aplicativo para ajudar no orçamento doméstico, e que foi assassinado por milicianos com tiros de revólver ao entrar numa região da periferia de Fortaleza com os vidros do carro levantados.

Num esforço pessoal de superação do trauma que lhe foi causado, disse-me que se voltasse a ser jovem, não teria mais nenhum filho, pois não gostaria de colocar neste mundo um ser humano originário do seu ventre materno.

Por que temos que aceitar passivamente, com eleições que se repetem a cada dois anos, às quais denominamos (quase todos o fazem) como sendo “salvadoras” e “democráticas”, e como antídoto ao totalitarismo despótico sempre à espreita, mas que apenas reproduzem um modelo de mediação social político-econômico-social caduco e retratado no quadro acima delineado?  

Será que o quadro social que acima tracei não corresponde à verdade, ainda que retirado dos dados dos organismos oficiais de aferição e que são facilmente comprováveis no nosso dia-a-dia, apesar da nossa letargia crítica social?  
Quando vemos os discursos eleitorais de anos anteriores identificamos a semelhança com os discursos eleitorais atuais, e de todos os candidatos, a promoterem milagres na solução dos nossos trágicos problemas que por serem estruturais requerem soluções estruturais.

Constatamos, decepcionados a cada dois anos, que discursos falaciosos que pregavam o novo, como aqueles que falavam mal dos políticos, mesmo sendo um deles por cerca de três décadas, evidenciaram-se como falsos.
Boçalnaro, o ignaro, sem a menor desfaçatez afirma agora que sempre pertenceu ao segmento político, e pior, que pertenceu à faixa podre deste segmento, o Centrão, que sempre existiu e governa o orçamento fiscal brasileiro desde os tempos do Congresso Imperial, ou seja, há mais de 200 anos cuja “independência” agora se comemora.  

Lula, que considerou a crise do sub-prime de 2008/2009 como uma mera marolinha, viu chegar o tsuname da crise do capitalismo que sempre defende como eterno advogado dos trabalhadores submissos ao capital e sem o menor interesse em superar tal condição, consumir o governo da Dilma Rousseff que faz questão de isolar do seu comprometimento pessoal de candidato, como se o seu partido não tivesse nada a ver com o que aconteceu: entregaram de bandeja as rédeas do poder político aos de sempre.  

Ciro Gomes vende o Ceará para o Brasil como se aqui fosse o paraíso na terra, mas se esquece que quem lidera as eleições no seu Estado é um capitão militar inexperiente, metido a político esperto e oportunista que agora quer desvincular sua imagem à do seu ídolo fracassado, ainda que a semelhança com Boçalnaro, o ignaro, coincida com o desespero de uma população aflita que acredita em solução milagrosa da força das armas para a contenção de problemas sociais insolúveis sob a perspectiva capitalista em fim de feira.  

A retórica empolada que mistura populismo com juridiquês que o povo não entende do candidato pedetista (que já foi tudo em termos partidários, mas não é trabalhista, como reza a tradição do seu partido) nada mais é do que mais do mesmo, ou seja, um proponente da solução dos nossos problemas como se fosse uma questão meramente administrativa, quando na verdade o problema é estrutural e se refere à contradição inconciliável entre forma e conteúdo sociais sob o capital no momento do seu limite interno e externo de expansão.

Como se diz aqui no nordeste, num dito popular, “nós estamos mesmo é precisando de uma outra lavagem de roupa”.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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