O DESAPARECIMENTO DO POVO E AS NOVAS CARAS DA DEMOCRACIA

De uns tempos para cá a palavra “povo” foi sendo apagada, expulsa da sala de visitas e das entranhas da cozinha para ganhar os contornos de uma simples e prosaica metáfora.

Sociedade “civil”; sociedade, em drástica redução: sociedade “aberta”, ou sociedade “líquida”, tessitura formal de estranhos arquétipos que buscam evitar a noção de povo na sua concepção totalizante. Aquela que designa os habitantes de um país, os integrantes de um espaço nacional, os cidadãos — solidários ou refratários às ideias e às aspirações costuradas nos limites territoriais e culturais de um mesmo país.

“Povoar” dizia-se das aventuras colonizadoras de “encher” de povo terras “despovoadas”. Com o tempo, associou-se ao substantivo “povo”, a nomeação de “população”.

Das lições distantes do “direito natural” e do “contrato social” extraíram-se, com a revolução francesa, conceitos e preceitos que definiam a extensão dos espaços do Estado e da sua força ordenatiria e de representação. O “povo” é a noção mais revolucionária que abalaria as bases das monarquias absolutas.

Hoje, premidos pelas circunstâncias, pelos reclamos da pós-modernidade, e por um mundo dominado pelas ideologias, os constitucionalistas reveem as armas teóricas a que se afeiçoaram para conceder precedência aos mecanismos do Estado, às instituições e às leis. O povo tornou-se, assim, uma metáfora, assim como a democracia, recobraria a sua performance romântica de uma utopia fora de circulação.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.