O DESAFIO DE SE CONECTAR COMO GIRO DECOLONIAL

Os que pensam um processo de transformação social revolucionário por meio de um modelo binário de luta de classes (burguesia versus proletariado), de forma genérica e abstrata, ou seja, não situado nas condições de um tempo e de um lugar concreto, muitas vezes ignoram os seus sujeitos políticos realmente existentes que resistem aos processos de dominação e exploração os mais diversos, e que, em resposta às suas ações, são ameaçados, são vítimas de sanções, são presos e até mortos por resistirem, na conjuntura presente, à crise estrutural do capital e ao projeto civilizador eurocêntrico da modernidade.

Muitos intelectuais que se incluem no campo crítico ou de esquerda chegam a impressionar por possuírem uma sólida formação teórica e uma bela eloquência, pela capacidade de fazer citações de grandes obras e pela velocidade de raciocínio. Eles contribuem para o debate e a socialização teórica por meio de alguns mecanismos como palestras, cursos, artigos e lives. Uma parte deles gosta e goza dos mecanismos de distinção (Bourdieu) sistêmica e, longe da verdadeira luta de classes que desenham para ser seguida pela classe operária e pelos “verdadeiros revolucionários”, agem como profetas a serem seguidos pelos movimentos sociais existentes.

Muitos intelectuais que se identificam com o pensamento político de esquerda perderam o sentido crítico, fecharam-se no conforto do idealismo matafísico radical que criaram para si, excluindo-se das ações de resistência dos movimentos sociais, e até os criticam por acharem que eles não são como foco primeiro as lutas anticapitalistas. Eles passam longe dos confrontos com as forças de repressão do Estado burguês e, muitas vezes, quando o resultado da luta de classes realmente existente, da qual eles ficaram de soslaio, produz um resultado analisado como negativo, em arroubo bradam: “nós avisamos, não nos ouviram! Agora está claro porque nos recusamos a participar dessa aventura”. Pronto, expressaram a narrativa sobre a justeza de seus pensamentos e ações, realizaram de forma falaciosa sua práxis. São intelectuais positivistas e não intelectuais orgânicos a que se refere Gramsci. Todavia, em muitos casos, são referências para militantes inseridos nos movimentos sociais e não podemos desconsiderar que nem todo movimento social é movimento de resistência aos processos de exploração e dominação ou que têm como objetivo fazer luta sistêmica.

Para alguns dos intelectuais positivistas, os mais ortodoxos, a revolução está atrasada, pois o capitalismo está caindo aos pedaços, porque os movimentos sociais realmente existentes não seguem as suas orientações revolucionárias, ficando perdidos na ilusão das alianças de classes, na ilusão das políticas reformistas e não seguem os caminhos da “verdadeira revolução”. Essa postura intelectual é monocultural e pensa a consciência (individual e coletiva) como um espaço vazio a ser colonizado pela verdadeira teoria da revolução.

No campo da esquerda, alguns intelectuais ou movimentos sociais se colocam como radicais e dialéticos, atribuindo a si mesmos a condição de portadores da única e possível leitura correta sobre a crise do capital e da conjuntura. Colocam-se como os profetas anunciadores do caminho sagrado que levará a boa nova (emancipação) para a classe trabalhadora. Eles não desconfiam que a dialética seja o último suspiro da metafísica eurocêntrica iluminista, o que não deixa de ter o seu valor, mas não como único método possível de pensamento crítico e revolucionário, o único capaz de nos permitir uma leitura “correta do real”. A ideia de que existe uma única compreensão ou teoria correta do real é um pensamento não da totalidade, mas totalitário.

Parte dos que acreditam que a luta de classes está desvinculada das lutas cotidianas, ignorando o fato de que a história é feita por sujeitos ativos, critica e se opõe às lutas existentes contra as formas plurais de dominação e exploração, afirmando a urgência de uma revolução possível (que não existe, mas pode existir) pela negação do existente, considerado como de menor importância ou que automaticamente será resolvido depois que for posto fim ao capitalismo. O existente são as lutas feministas contra o sistema patriarcal, a desigualdade de gênero, o machismo; as lutas pelo direito à diversidade sexual; as lutas contra o racismo; as lutas em defesa dos direitos humanos que incluem os pobres, os quilombolas e indígenas; as lutas em defesa do meio ambiente e contra o aquecimento global; as luas pelo pluriculturalismo e contra o multiculturalismo neoliberal.

Para os que desvinculam as lutas contra as diversas formas de exploração e dominação das lutas sistêmicas, a luta revolucionária ou a “verdadeira luta de classes” é aquela que fará o acerto de contas decisivo e último com o capital e a burguesia, a qual se dará a partir do momento em que os atores políticos oprimidos seguirem as orientações corretas de que eles são portadores. Há alguns intelectuais e militantes políticos que acreditam que as massas estão no limite, e esperam apenas um chamamento da vanguarda para uma ação radical contra o sistema; as massas estariam até dispostas a fazerem uma luta armada, pois não teriam mais nada a perder diante da profundidade da crise. No entanto, cabe uma pergunta: porque eles não realizam o que pensam e professam como verdadeiro? O que tal visão revela é o uso autoritário que fazem do capital cultural do qual são possuidores, usam como instrumento de hierarquização entre quem pensa e quem faz a revolução.

Diante dessa situação, fazer um giro decolonial significa resgatar a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire para pensar com os sujeitos. Significa deixar de pensar por e para os sujeitos. Enfim, significa se dispor a pensar com os sujeitos a partir de suas experiências, práticas e saberes na resistência da conjuntura presente como resistência anticapitalista e ao padrão civilizatório eurocêntrico da modernidade. O momento é desafiado e, como indica Boaventura de Sousa Santos, uma ecologia de saberes é muito mais adequada para a construção de relações sociais e de sociedades democráticas. É preciso recuperar a ideia de que existem alternativas, é preciso demonstrar que o pensamento crítico eurocêntrico se esgotou na sua capacidade de formular caminhos para lutas contra a dominação e opressão. É momento de pôr fim ao império cognitivo, é momento de realizarmos um giro decolonial.

 

1 Uribam Xavier – Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFC.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.